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Winston Churchill, as eleições no Brasil e a promessa do mal

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Recentemente, um amigo lembrou resposta atribuída a Churchill, quando um jornalista lhe perguntou, terminada a guerra, se ele também havia sido surpreendido por Hitler. 

Churchill de pronto respondeu que não, "afinal, Hitler apenas cumpriu o que havia prometido por escrito em Mein Kampf (Minha Luta)".

No Brasil, também não há lugar e tempo para surpresas:

1. O candidato do campo da extrema direita em duas oportunidades prometeu fuzilar FHC;

2. No domingo (21/10), prometeu colocar na cadeia todos os esquerdistas que não venham a fugir do país;

3. Seu filho declarou que não aceita resultado eleitoral que não consagre o mito criado em torno de quem até há pouco era considerado uma personagem folclórica na política, radical no discurso, mas sem potencial para a ação;

4. A declaração acima veio em meio a uma sarcástica ameaça, um desafio ao STF, com direito a citar nomes de ministros: bastam um cabo e um soldado para fechar o STF;

5. No âmbito da campanha eleitoral e entre eleitos pela extrema direita, no entanto, essa não foi a primeira vez que ameaçaram fechar o STF, tampouco ignorar o Congresso;

6. Um deputado de ultradireita igualmente ameaçou os ministros e o candidato a vice-presidente afirmou que é possível dispensar o Congresso na elaboração de uma nova Constituição (como em 1969);

7. O presumido responsável pela área econômica da candidatura de extrema direita prometeu, se vier a ocupar o cargo que já foi de Zélia Cardoso de Mello, o de ministro da Economia, extinguir os subsídios agrícolas. Na França, os agricultores já teriam parado o país;

8. O fim dos subsídios agrícolas impactaria toda a economia brasileira, em um efeito em cadeia, atingindo o câmbio e, consequentemente, a inflação, os juros, a capacidade de produção industrial e, na mesma toada, o emprego;

9. A promessa explícita do candidato à Vice-Presidência pela extrema direita, de extinguir o 13º salário e o adicional de férias, não é tão impossível de cumprir, como alguns supõem;

10. Com efeito, o governo Temer facilitou a execução do plano de (suposta) desoneração da folha de pagamento ao ampliar ao infinito os casos de terceirização, trabalho precário e contratação de pessoas como se fossem empresas ou cooperativas (técnicas conhecidas como "pejotização" e "fraudo-cooperativas");

11. Da mesma forma, o eventual ministro da Casa Civil de um suposto governo de extrema direita adiantou que eliminará 80% dos cargos comissionados no serviço público federal, coerente com a proposta de fim da estabilidade. A mutação constitucional dá conta de solucionar juridicamente eventual dúvida sobre a inconstitucionalidade da medida;

12. O projeto de enxugamento da máquina pública explicitamente objetiva reduzir o peso das pensões, benefícios e aposentadorias, excetuando por motivos óbvios às pertinentes aos militares;

13. Isso seria inevitável. Como se observa na Espanha, por exemplo, que até ontem aplicava modernamente o receituário prometido pela extrema direita brasileira, a drástica redução da receita e a ampliação da dívida pública pelos acréscimos a título de juros, necessários ao seu financiamento, cobram algum tipo de restrição que em geral é imposta aos que, segundo essa ótica, são improdutivos: os aposentados;

14. A promessa de favorecer a morte de criminosos pela polícia, para além do evidente apelo emocional que causa no debate político, escora o projeto de conferir mais autonomia à polícia, limitando a intervenção do "sistema de Justiça", tratado como estorvo;

15. Promete-se especialmente à polícia autonomia contra texto da Constituição, de sorte a que essa polícia seja a força auxiliar do regime político que se pretende instaurar. O cabo e o soldado poderão fechar o STF porque receberão ordens diretamente do Executivo, à revelia do Ministério Público e do Judiciário.

Tudo isso está prometido — e muito mais, como a privatização e precarização completa da educação e da ciência. Tudo está escrito e é dito às claras. 

As liberdades estão concretamente limitadas. A violência é realidade. Os mortos e agredidos por psicopatas da ultradireita aumentam em número, diariamente, em medida maior do que aumenta o volume do ódio anunciado. 

Mulheres e homens receiam sair com bottom da campanha adversária e roupas vermelhas. Gente é agredida por se recusar a receber o plástico com o dístico 17.

Se me perguntarem, num futuro possível, se me surpreende a violência e a destruição da sociedade brasileira, de pronto responderei que não,
"afinal, ele apenas cumpriu o que havia prometido por escrito em seu programa de campanha".

Mente a si próprio quem pensa diferente. 

Geraldo Prado é sócio da Geraldo Prado Consultoria Jurídica, desembargador aposentado do TJ-RJ e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Revista Consultor Jurídico, 23 de outubro de 2018, 19h07

Comentários de leitores

11 comentários

Contrariado (Auditor Fiscal)

Eududu (Advogado Autônomo)

Francamente, o senhor quer julgar e criticar Bolsonaro baseado em um vídeo de 2 minutos com frases editadas e tiradas de contexto? É através de um vídeo desses que o senhor forma e divulga sua opinião sobre o candidato?Não lhe ocorre pesquisar e investigar mais um pouquinho?

Olha, eu sei que dá mais trabalho do que ver o vídeo que o senhor sugeriu, mas veja pelo menos uma entrevista inteira do candidato, existem inúmeras disponíveis na internet. Veja pelo menos um discurso. Se não for muito difícil para o senhor, leia o plano de governo.

Ficar divulgando um vídeo desses, sem a mínima capacidade de análise crítica, isso sim é coisa de robô.

Não acredita?

Contrariado (Auditor Fiscal)

Jair Bolsonaro por ele mesmo: https://www.youtube.com/watch?v=KczwxvO3-iE&feature=youtu.be

Não é possível

Contrariado (Auditor Fiscal)

Não é possível que pessoas letradas, ainda mais da comunidade jurídica, compactuem com um psicopata que diz coisas horríveis o tempo todo, gravadas, documentadas e venham aqui dizer que são fake News. Mesmo sendo anti PT, não sejam imbecis. Os vídeos do próprio candidato, de seus filhos, de seu vice, de seus correligionários estão disponíveis na rede, são de acesso público, não são invenções, não estão fora de contexto, nem são montagens para denegri-lo. Por favor, não passem atestado de burrice. Se quiserem defende-lo e defender suas ideias, sejam honestos e digam: "eu também apoio a tortura, o extermínio em massa, a submissão da minoria à maioria e não a convivência democrática, a ditadura". Ninguém poderá alegar surpresa quando este sujeito fizer o que afirmou por várias décadas que faria. E não venham dizer que a CF, ou as instituições (hoje aos frangalhos e amanhã inexistentes) irão freá-lo.

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