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Entrevistas

Filhotes da ditadura

O Estado brasileiro faz uma segurança envergonhada

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ConJur — A queda do poder intimidativo do Estado explica tudo o que aconteceu em São Paulo?

Hermes Bittencourt Cruz — É um fator. O Estado perdeu o controle. Construiu um muro, colocou uma população lá dentro, aparentemente isolada do meio externo e cercada por guardas. Isso criou um Estado paralelo dentro dos presídios. Além disso, o poder intimidativo do PCC, por exemplo, é maior do que o do Estado. Se o bandido deve para o PCC, ele morre. Então ele paga a dívida roubando ou matando policial. O Estado não manda nada dentro do presídio. É um gado que está lá dentro e se rege por suas próprias leis. Outra questão é que o crime no Brasil é uma atividade econômica viável e sem risco, segundo Liliana Pezzin, especialista da Fipe [Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas].

ConJur — Sem risco?

Hermes Bittencourt Cruz — Pesquisa do professor José Pastori mostra que de cada 100 crimes no Brasil, menos de 1 é punido. No Brasil, os três fatores que estimulam o crime, segundo um tese de um criminólogo de Nova York, são bastante presentes. O primeiro deles é a frustração de necessidade — alimento, carro, sexo, dinheiro e outros. Quanto maior o grau de frustração, maior a probabilidade de a pessoa praticar o crime. Outro fator é a inibição interna. O processo educacional, religioso e filosófico faz com que a pessoa desenvolva inibidores internos. Quanto mais altos forem os inibidores internos, menor a probabilidade de se cometer um crime. O último fator são os inibidores externos — lei, Polícia, sistema prisional. Quanto mais baixos eles forem, maior a chance de o cidadão praticar um crime. Estes são os três fatores mais salientes, mas existem outros.

ConJur — Como o senhor distribuiria o peso de cada um desses fatores para o crime no Brasil?

Hermes Bittencourt Cruz — Eu daria um ponto para os inibidores externos, quatro para os internos e cinco para a frustração. As necessidades humanas se satisfazem de maneira hierárquica e prioritária. A maior necessidade é a alimentação. Mas, se a pessoa está alimentada, mas numa zona de guerra, sua prioridade será a segurança. A hierarquia das necessidades humanas pode mudar de ordem. Por isso, quando vai fazer um trabalho em um determinado lugar, a Polícia tem de levar em conta essas prioridades.

ConJur — Qual é a mentalidade do policial brasileiro?

Coronel Hermes Bittencourt Cruz — O policial pensa: eu tenho que ser visível, a população tem que me ver, eu tenho que ser encontrável a toda hora e tenho que ter uma capacidade de resposta. Essa é a cultura do brasileiro, que fica horas na fila de banco mas grita e quer que a Polícia se apresente. No entanto, a Polícia brasileira não tem condições de oferecer isso para o cidadão, pela falta de dinheiro e pela grande demanda no país.

ConJur — O senhor concorda que, no Brasil, a insegurança chegou a tal ponto que a principal preocupação do policial é atirar primeiro?

Hermes Bittencourt Cruz — O policial brasileiro tem um quadro de percepção que é o seguinte: o bandido está armado e vai atirar nele. Por isso, se a pessoa abordada faz um determinado gesto, põe a mão na cintura, o policial acha que ele vai tirar uma arma. Tenho um exemplo: eram 10 horas da noite quando um cidadão, que saía de um culto religioso, foi abordado por um policial. Ele enfiou a mão no bolso para pegar sua Bíblia e, por causa desse gesto, levou um tiro. Isso é o quadro perceptual do policial.

ConJur — O senhor defende a tese de que a Polícia deveria investir mais nas mulheres. Por quê?

Coronel Hermes Bittencourt Cruz — Nas favelas porto-riquenhas, o homem abandona o lar e a mulher passa a ser referência de educação para os filhos. As meninas seguem o modelo feminino da mãe e os meninos obtêm o modelo masculino na rua. Mesmo assim, a mãe é o centro da família e, mesmo que a sobrevivência desse menino esteja lá fora, ele depende da mãe. Ele desenvolve um sentimento de temor referencial da mãe. O mesmo deve acontecer nas favelas brasileiras. O bandido respeita muito a mãe. É a cultura do matriarcado. Por isso, acredito que, se as policiais femininas fossem mais exploradas no combate a esse tipo de bandido, o sucesso seria maior e a violência seria menor, em razão desse temor reverencial.

ConJur — Mas ela deveria ser usada diretamente no combate ao crime?

Hermes Bittencourt Cruz — Acho que sim, principalmente em favelas. A mulher é símbolo de proteção, é mais bem recebida. Enquanto a mulher é símbolo de apaziguamento, o policial homem pode estimular a agressividade contra ele. Dificilmente um homem tem reações agressivas contra uma mulher.

ConJur — Então podemos dizer que o homem desencadeia a agressividade em outro homem, numa espécie de competição.

Hermes Bittencourt Cruz — É preciso distinguir agressividade de violência. A agressividade surge da necessidade natural do homem de preservar a espécie. Por isso, temos a agressividade que é necessária para a sobrevivência. Quando essa agressividade se torna desnecessária, começamos a falar em violência.

 é repórter da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 4 de junho de 2006, 7h00

Comentários de leitores

31 comentários

Um pais de que em cada 100 presos um é punido, ...

Luís da Velosa (Advogado Autônomo)

Um pais de que em cada 100 presos um é punido, seria melhor encerrar as portas prisionais. Não há aparelhamento legal, moral da tropa, seja lá o que for, que posssa, dentro desse estado de coisas, perseguir-se a justiça que vorre entre os duendes com mais verlocidade ainda e muito menos sábia e mais atordoada. RUY Barbosa, abstêmio, antetabagista, gosva de ler Tico-Tico e tomar um conhaquezinho antes do teatro, certamente jamais imaginou que a justiça correria como uma avestruz diante de certas absurdezas. Mas, aí está. Escorraçam a justiça, puxa vida!

Caros amigos. voltei para acrescentar: aqui n...

amorim tupy (Engenheiro)

Caros amigos. voltei para acrescentar: aqui no ES em um bairro Da cidade de CARIACICA , que fica próximo a escola da PM. Trabalhadores ficavam indignados com a PM que saia palas ruas as 05 horas da madruga marchando e repetindo : AQUI É A POLICIA MILITAR - ESTA NA HORA DE ACORDAR! , esqueciam os PM que muitos dos " dorminhocos' eram trabalhadores que tinha trabalhado ate altas horas da noite e lá iam os bravos PM pelas ruas atrapalhando os ônibus dos que tinham já acordado e iam pegar no Batente; O PCC acabou com isso também.

Caros amigos. negocio é o seguinte: Em países...

amorim tupy (Engenheiro)

Caros amigos. negocio é o seguinte: Em países de língua inglesa a policia é o braço armado da população = aquela historia do rei contra os barões etc. No brasil adotou se o sistema francês , a policia é o braço armado do Governo, e como o governo não é e nem se importa em ser bem visto pelo povão , a policia fica acuada pelos bandidos que tem de certa forma a "torcida" inconsciente da população , haja visto que muitos estão satisfeitos pelo fato de muitos policiais não terem coragem de se manifestarem "ser policiais" nas vizinhanças onde moram e Graças ao PCC acabou o " sou policia" em qualquer briga de vizinho ou encostadinha no transito ou esbarrão em um bar. Agora o grande líder chinês também ensinava em sua primeira lição : faça amigos e aliados ou pelo menos não faça inimigos. Então é o caso das POLICIAS se debandarem para o lado do POVO e deixar de ser braço armado do governo. Um exemplo Uma repartição publica que deve abrir as 12 horas , e já deu 12 horas e 30 minutos e os funcionários estão lá no maior bate papo, começa um zum- zum e empurra - empurra na fila ,acionada a policia tradicional já vem batendo no povão = Tem que passar a chegar batendo no chefe da repartição. Outro exemplo = Você com todos imposto pagos, já cansado de dirigir em uma estrada esburacada cujo dinheiro da manutenção foi parar no bolso do ministro ,comete uma pequena infração e lá vem o guarda com o maior rompante lhe aplicar varias multas e quando o povão cerca o ministro em um canto a policia corre para socorrer o ministro ( nestes casos nunca falta viatura). Sem querer que você fica feliz em saber que PCC desativou o Posto rodoviário. É por ai a solução ,POLICIA COMUNITARIA ATENDENDO A COMUNIDADE ,SEGUINDO NORMAS DA COMUNIDADE e sendo fiscalizada pela COMUNIDADE ! O resto é bla bla de intelectoide abobalhado. Um abraço

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