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Entrevistas

Filhotes da ditadura

O Estado brasileiro faz uma segurança envergonhada

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A longa convivência de presos políticos com criminosos comuns, nas mesmas celas, durante o regime militar, proporcionou um intercâmbio de tecnologia que viria a misturar o DNA dos dois segmentos. Enquanto os presos políticos absorveram o jogo pesado da criminalidade para o roubo, por exemplo; os criminosos comuns incorporaram em sua ação as táticas e a estratégia da subversão e do terror.

A explicação é de um ex-comandante da Rota, o coronel Hermes Bittencourt Cruz, ao ser perguntado sobre o estado de terror implantado com os ataques promovidos pelo PCC em São Paulo. O coronel admite que o nível de articulação organizada demonstrada revela a presença de traços táticos propiciados pela promiscuidade com policiais que se bandearam para o lado do crime, mas as "raízes tecnológicas" das facções criminosas, afirma ele, estão plantadas na época do regime militar.

Hoje presidente da Associação dos Oficiais da Reserva da PM, o coronel Hermes Bittencourt Cruz afirma que a evolução desigual do poder de repressão do Estado e do poder de fogo do crime organizado é a principal razão da explosão de violência no país. “Hoje em dia o Estado faz uma segurança envergonhada, enquanto os bandidos executam com desenvoltura as operações de guerrilha que aprenderam com os presos políticos da ditadura”, explicou o coronel em entrevista à Consultor Jurídico.

O coronel não diz, mas não custa lembrar que muitos dos supostos instrutores de guerrilha do passado ocupam posições de mando no atual governo. Da mesma forma vale destacar que o coronel fala na eficácia da repressão policial com conhecimento de causa, já que foi comandante da Rota, grupo de elite da Polícia Militar de São Paulo famoso pela contundência de suas ações.

“Sou um cara que defende os direitos humanos, mas entendo que o criminoso é alguém que causou um dano à sociedade e tem de ter a punição adequada”, diz. Para ele, a onda de violência que tomou conta de São Paulo demonstra a perda de controle da situação pelo Estado. “O criminoso tem mais medo do PCC do que da Polícia.”

Contrário à pena de morte, o coronel Cruz não acredita que o agravamento das penas seja o caminho para enfrentar a criminalidade. O que intimida, segundo ele, não é o tamanho da pena mas a certeza da punição imediata. “A prisão não é solução para o criminoso, mas é solução para a população que vive acuada pelo criminoso.”

O coronel Cruz ingressou no Exército em 1957 e transferiu-se para a Polícia Militar no fatídico ano do Golpe Militar de 1964. Na PM, além de comandar da Rota, dirigiu a Academia do Barro Branco, onde se formam os homens da força pública de São Paulo. Atualmente, é presidente da Associação Nacional dos Oficiais da Reserva.

Participaram da entrevista também os jornalista Cláudio Júlio Tognolli, Márcio Chaer e Maurício Cardoso.

Conjur — Como o crime se tornou organizado?

Hermes Bittencourt Cruz — Durante o regime militar, os presos políticos ficavam em presídios junto com os presos comuns. A conseqüência disso é que os presos políticos ensinaram as técnicas de guerrilha para os presos comuns. Quando passamos da ditadura para a democracia, a Polícia foi inibida, mas os bandidos trouxeram o que aprenderam na ditadura para o regime democrático. Para controlar isso, a segurança tinha de ser feita como era antes. Mas os governantes atuais não querem porque acham que é uma regressão. Por isso, hoje o Estado faz uma segurança envergonhada enquanto os bandidos fazem as operações de guerrilha como aprenderam lá atrás.

ConJur — A presença de policias presos contribui para esta organização do crime?

Hermes Bittencourt Cruz — Sem dúvida. Os policiais presos levam para os presídios as técnicas que eles aprenderam. Outro agravante é o policial temporário. Eles fica dois anos na Polícia e depois sai desempregado. E aí o que ele vai fazer? Mao Tse Tung pregava: ser mais forte que o inimigo, atacar dez contra um. Recuar, fugir rapidamente para impedir reação e chegada de reforços. Variar métodos de ação e enxertar as atividades com ardis inesperados. Criar boatos habilmente espalhados. Agir com incursão, ataque e emboscadas. Todos esses princípios são de Mao Tse Tung. Não é isso o que eles estão fazendo? Mas o Marcola não leu Mao Tse Tung. Então, alguém ensinou isso para ele.

ConJur — O que representa a onda de ataques em São Paulo atribuídos ao PCC [Primeiro Comando da Capital]?

Hermes Bittencourt Cruz — Foi um enfraquecimento do poder intimidativo do Estado. A pessoa tem de ter medo de praticar o crime. Sem a pena imediata e a certeza da punição, o sujeito fica liberado para praticar o crime.

ConJur — Então não precisamos aumentar o rigor da lei.

Hermes Bittencourt Cruz — Não precisa. Eu também não sou a favor da pena de morte. Existem dois tipos de punição. Uma delas é aquela que o pai pratica em casa quando retira uma coisa boa do seu filho, a televisão, por exemplo. Outro tipo de punição é acrescentar algo ruim. Nos presídios, não acontece isso. Acrescenta-se algo ruim ao criminoso ao trancá-lo na prisão, mas o presídio não retira nada de bom da vida dele. Lá dentro, é um Estado dentro de um Estado. Eles têm seus próprios códigos e até pena de morte.

 é repórter da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 4 de junho de 2006, 7h00

Comentários de leitores

31 comentários

Um pais de que em cada 100 presos um é punido, ...

Luís da Velosa (Advogado Autônomo)

Um pais de que em cada 100 presos um é punido, seria melhor encerrar as portas prisionais. Não há aparelhamento legal, moral da tropa, seja lá o que for, que posssa, dentro desse estado de coisas, perseguir-se a justiça que vorre entre os duendes com mais verlocidade ainda e muito menos sábia e mais atordoada. RUY Barbosa, abstêmio, antetabagista, gosva de ler Tico-Tico e tomar um conhaquezinho antes do teatro, certamente jamais imaginou que a justiça correria como uma avestruz diante de certas absurdezas. Mas, aí está. Escorraçam a justiça, puxa vida!

Caros amigos. voltei para acrescentar: aqui n...

amorim tupy (Engenheiro)

Caros amigos. voltei para acrescentar: aqui no ES em um bairro Da cidade de CARIACICA , que fica próximo a escola da PM. Trabalhadores ficavam indignados com a PM que saia palas ruas as 05 horas da madruga marchando e repetindo : AQUI É A POLICIA MILITAR - ESTA NA HORA DE ACORDAR! , esqueciam os PM que muitos dos " dorminhocos' eram trabalhadores que tinha trabalhado ate altas horas da noite e lá iam os bravos PM pelas ruas atrapalhando os ônibus dos que tinham já acordado e iam pegar no Batente; O PCC acabou com isso também.

Caros amigos. negocio é o seguinte: Em países...

amorim tupy (Engenheiro)

Caros amigos. negocio é o seguinte: Em países de língua inglesa a policia é o braço armado da população = aquela historia do rei contra os barões etc. No brasil adotou se o sistema francês , a policia é o braço armado do Governo, e como o governo não é e nem se importa em ser bem visto pelo povão , a policia fica acuada pelos bandidos que tem de certa forma a "torcida" inconsciente da população , haja visto que muitos estão satisfeitos pelo fato de muitos policiais não terem coragem de se manifestarem "ser policiais" nas vizinhanças onde moram e Graças ao PCC acabou o " sou policia" em qualquer briga de vizinho ou encostadinha no transito ou esbarrão em um bar. Agora o grande líder chinês também ensinava em sua primeira lição : faça amigos e aliados ou pelo menos não faça inimigos. Então é o caso das POLICIAS se debandarem para o lado do POVO e deixar de ser braço armado do governo. Um exemplo Uma repartição publica que deve abrir as 12 horas , e já deu 12 horas e 30 minutos e os funcionários estão lá no maior bate papo, começa um zum- zum e empurra - empurra na fila ,acionada a policia tradicional já vem batendo no povão = Tem que passar a chegar batendo no chefe da repartição. Outro exemplo = Você com todos imposto pagos, já cansado de dirigir em uma estrada esburacada cujo dinheiro da manutenção foi parar no bolso do ministro ,comete uma pequena infração e lá vem o guarda com o maior rompante lhe aplicar varias multas e quando o povão cerca o ministro em um canto a policia corre para socorrer o ministro ( nestes casos nunca falta viatura). Sem querer que você fica feliz em saber que PCC desativou o Posto rodoviário. É por ai a solução ,POLICIA COMUNITARIA ATENDENDO A COMUNIDADE ,SEGUINDO NORMAS DA COMUNIDADE e sendo fiscalizada pela COMUNIDADE ! O resto é bla bla de intelectoide abobalhado. Um abraço

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