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14 julho 2008
Escuta indiscreta
Desembargadora pede que MPF investigue grampo de seu telefone
A desembargadora Maria Cecília Pereira de Mello, relatora do Caso Kroll no TRF da 3ª Região, entrou com representação no Ministério Público Federal para que investigue se ela e funcionários de seu gabinete foram grampeados sem autorização judicial. O relatório da Operação Satiagraha, da Polícia Federal, traz referências sobre conversas suas com o advogado Nélio Machado, que defende o banqueiro Daniel Dantas.
Maria Cecília tem certeza de que foi grampeada pela PF. Segundo ela, trecho do relatório da operação com referências à conversas suas com Nélio Machado vazou para a imprensa. O texto do delegado Protógenes Queiroz, como de hábito, é confuso. Não fica claro se as conversas narradas são entre Nélio Machado e um investigado (Humberto Braz) ou se são entre o advogado e a desembargadora. Além do MPF, a desembargadora deve notificar o Supremo Tribunal Federal e o Conselho Nacional de Justiça.
Oficialmente, a Justiça não deu qualquer autorização para interceptação dos telefones da desembargadora nem do advogado. “O relatório claramente se refere à gravação das comunicações telefônicas mantidas por esta desembargadora, ou por funcionários de seu gabinete, com o advogado Nelio Machado ou outros advogados do escritório dele. Como as comunicações telefônicas são constitucionalmente invioláveis, exceto com a autorização de decisão judicial fundamentada, formula-se esta Representação”, afirma Maria Cecília.
A desembargadora defende em sua representação a legitimidade das conversas entre juízes e advogados: “O relatório parece ignorar que é direito constitucional da parte e de seu advogado conhecer todas as fases e andamentos do processo. Não é por outro motivo que o esforço da administração judiciária tem buscado apoio nos recursos tecnológicos para disponibilizar instantaneamente, nas redes de informática de acesso público, os atos processuais na medida em que vão sendo praticados”. E continua: “Por outro lado, os advogados têm direito, garantido por Lei, a audiência com os juízes que se encarregam da prestação do serviço público de julgar os casos de seus clientes”.
A desembargadora também diz ser normal e legítimo que o juiz comunique aos advogados a data de julgamento de Habeas Corpus, procedimento que no relatório do delegado Protógenes é considerado suspeito. “Acrescento que, embora não haja previsão legal expressa no sentido de intimar-se os advogados acerca da data de julgamento de HCs, é posição pacificada do STF, seguida por esta desembargadora, que os advogados têm direito à comunicação da data de julgamento de HCs”.
Maria Cecília diz, por fim que “a civilidade no trato com os advogados e procuradores, o respeito ao direito de cada um e das partes que representam de nenhuma forma prejudicam o estrito cumprimento da lei e o julgamento imparcial”. E termina censurando o tom conspiratório do relatório do delegado da PF: “O referido relatório policial se refere a fases e providências do processo, como por exemplo o pedido de informações à autoridade alegadamente coatora, em procedimento de 'habeas corpus', como estranhas “providências” que o Juízo estaria tomando em favor ou contra alguém”.
Leia a representação
Excelentíssima Sra. Procuradora-Chefe da Procuradoria Regional da República da 3ª Região
MARIA CECILIA PEREIRA DE MELLO, brasileira, casada, Desembargadora Federal do TRF da 3ª Região, sito à Avenida Paulista, 1842, 17ª andar, Gabinete 2, portadora da Cédula de Identidade RG 9.518.293 e inscrita no Cadastro das Pessoas Físicas do Ministério da Fazenda sob nº 022.519.188-17, vem Representar ao Ministério Público Federal para que se digne tomar as necessárias providências, se entender cabíveis, com relação aos seguintes fatos.
No dia 11 de julho próximo passado a signatária foi procurada pelo jornalista Rodrigo Pereira, do jornal “O Estado de São Paulo”, que por “e-mail” lhe formulou as seguintes indagações:
“Queríamos saber da desembargadora se ela se encontrou ou manteve contato com a advogada Ilana Müller no dia 30 de abril e o que foi tratado. Se conhece e ligou para o advogado Nélio Machado nesse mesmo dia e no dia 5 de maio, e, também, o que foi tratado.
Se solicitou informações a todas as varas criminais de São Paulo sobre inquérito contra o grupo Opportunity ou Daniel Valente Dantas.
E qual a avaliação dela para esses apontamentos da PF. Agradeço a atenção (segue trechos do inquérito em questão)
Rodrigo Pereira”
Ao texto acima o referido jornalista anexou transcrição parcial de relatório constante de inquérito policial, na qual se lê:
“No dia 30 de abril, Nélio chama a desembargadora de “nossa amiga Cecícia” e que ela teria mandado “um recado”, de que ela estava “ciente do caso” e não o atenderia naquele dia, mas na segunda-feira, “em qualquer horário”. Ele diz que foi a Ilana Müller, advogada de seu escritório, quem teria feito esse contato com a desembargadora.
Pouco depois, no mesmo dia, os dois voltam a conversar e Nélio fala para o Humberto que “a própria (desembargadora)” tinha ligado para ele e avisado que leu o inquérito e que ele era “gravíssimo”, mas que ela estava "tomando as providências".
No dia 5 (segunda-feira), Nélio volta a ligar para o Humberto. Diz que está saindo "da reunião" e que a desembargadora tinha pedido informação a todas as varas da primeira instância, mas que os magistrados poderiam "omitir alguma coisa". E que ela não poderia ir até o delegado Protógenes Queiroz.
Poucas horas depois, voltam a se falar. Nélio explica que o inquérito pode ser de outro "espelhamento do HD do Opportunity" e que poderiam ter "transgredido a ordem dela". Segundo Nélio, a desembargadora teria dado prazo de 48 horas para os juízes informarem procedimentos de investigação contra o Opportunity nas varas criminais de São Paulo.
Outra informação que a desembargadora teria passado ao advogado é que o HC pedido pelo grupo Opportunity estava para ser julgado.
Daniel Roncaglia é repórter da revista Consultor Jurídico.
Revista Consultor Jurídico, 14 de julho de 2008
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Comentários de leitores: 3 comentários
Como é duro ser envolvido em conversas de terce...
Correta a Desembargadora. Vale ressaltar que nã...
Parabéns a Doutora Desembargadora pela posição ...
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