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Embargos Culturais

Agosto, de Rubem Fonseca

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O romance histórico é uma estrutura narrativa de difícil composição. Segundo o crítico Álvaro Lins, o romance histórico não é história, e também não é romance. Há um limite, e que deve ser bem definido, entre ficção e realidade. Traçado por critérios de verossimilhança, aferíveis pelo distanciamento do autor com todas as formas de anacronismo. Refiro-me a um anacronismo mais pontual que se trai com expressões que não são da época.

Não me refiro ao anacronismo conceitual, quando se apresenta uma visão presenteísta do passado. Nesse caso, o autor vincula as premissas narrativas aos preconceitos que manteve ao longo da investigação e da coleta de dados. Há também autores que desavisadamente incluem no passado circunstâncias e coisas então inexistentes, o que pode se conceber metaforicamente com Getúlio Vargas falando ao celular ou com Aristóteles lendo um texto em forma de livro. Getúlio, aliás, nem falava ao telefone, com medo de ser grampeado. E Tancredo também tinha medo do grampo.

Na literatura internacional o romance histórico é forte em Walter Scott, com o inconfundível Ivanhoé. Há também os romances de capa e espada, de Dumas, e mais recentemente “O médico de homens e de almas”, narrativa de Taylor Caldwell sobre a vida de Lucas. Entre nós, o mais clássico de todos, José de Alencar (com quase toda a sua produção de sabor histórico), Ana Miranda em “A boca do inferno”, José Almeida Júnior em “O homem que odiava Machado de Assis” e “Última Hora”, bem como Rubem Fonseca, imbatível no gênero. É de Rubem Fonseca que falo nessa semana. Semana passada estive doente, e a coluna não saiu. Uma falha, talvez a primeira, em mais de dez anos de embargos culturais.

Em “Agosto”, Rubem Fonseca desenvolveu uma trama alucinante, que se desdobra concomitantemente com os episódios históricos que marcaram o suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954. A iniciativa inicia-se com os preparativos para o “atentado da Rua Toneleros”. Nesse triste episódio teria havido uma tentativa de assassinato de Carlos Lacerda, também lembrado como “o corvo”, ou como “o demolidor de presidentes”. “O corvo” é um apelido que lhe deu Samuel Wainer; eram inimigos. Há muitos personagens reais que passam pela narrativa: Armando Falcão, Tancredo Neves, Eduardo Gomes, João Café Filho, o próprio Samuel Wainer (jornalista dono do jornal Última Hora).

Acusou-se como mandante do crime a Lutero, filho de Getúlio Vargas, e ainda a Gregório Fortunado, o “anjo negro”, chefe da guarda pessoal de Getúlio, que teria articulado toda a ação. Há ainda Climério e Alcino, que teriam executado a tarefa. Rubem Florentino Vaz, major da aeronáutica, caiu morto no episódio. Segue uma violenta crise política, marcada pela histeria de Lacerda. Vargas dá o desfecho com uma contundente carta-testamento e com uma não menos contundente bala no peito. A história terminou como ninguém esperava.

Em “Agosto” corre, em paralelo, outro crime, investigado pelo Comissário Matos. Incorruptível e ulceroso, toma um “pepsamar” atrás do outro. Trata-se de um antiácido, muito consumido nos tempos antigos. Formado em direito, a espera de um concurso (talvez para a magistratura), Matos estuda recorrentemente matérias jurídicas. Rubem Fonseca move na narrativa políticos corruptos (Freitas), empresários que vivem de contratos com o Estado (Magno), pederastas (Chicão), prostitutas (Esmeralda), um médico (Arnaldo). O comissário gosta de ópera.

Rubem Fonseca explora também os meandros do jogo do bicho, dos pistoleiros de aluguel, de policiais bonzinhos e de policiais corruptos. Cenas do Rio de Janeiro dos anos 50 (quando havia bondes) provocam no leitor sensações de uma deliciosa viagem no tempo. O desenlace é inesperado, quanto ao homicídio fictício.

Rubem Fonseca dá-nos uma aula de composição de romance histórico. Descreve, com exatidão, um dia de agosto de 1954, no Rio de Janeiro. Movimento do comércio, o sindicato dos lojistas, os turistas estrangeiros que desembarcam no cais, a excursão de brasileiros, organizada pelo Touring Club do Brasil, o movimento das maternidades, os enxovais, o nome predileto para os meninos (José), o nome preferido para as meninas (Maria).

“Agosto” é uma viagem no tempo. Um tempo difícil. Uma sucessão de crises. O livro nos leva a pensar que crises substancializam o normal e as regras. Os tempos de paz, raros, são exceções. Em “Agosto” Rubem Fonseca nos remete para um Brasil que já não mais existe, mas que embrionariamente construía os dilemas de nossa época atual.




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 é livre-docente pela USP, doutor e mestre pela PUC-SP e advogado em Brasília.

Revista Consultor Jurídico, 10 de outubro de 2021, 8h00

Comentários de leitores

3 comentários

Agosto, um mês nada aprazível

O ESCUDEIRO JURÍDICO (Cartorário)

As grandes tragédias no Brasil sempre ocorreram no mês de agosto.
Em agosto de 1976 o ex-presidente Juscelino Kubitscheck faleceu em um acidente. No mês de agosto de 1961, o ex-presidente Jânio Quadros renunciou à presidência da República. Em agosto de 1955, Carmen Miranda faleceu. Em agosto de 1954, Getúlio Dorneles Vargas saiu da política e entrou para a História.
Em agosto de 1914, começou a 1ª Guerra Mundial.
Começa o Pânico, em agosto de 1857, desencadeando uma das crises econômicas mais severas da história dos Estados Unidos da América.
Em agosto de 1792 — Revolução Francesa: Tomada do Palácio das Tulherias: Luís XVI da França é preso e levado sob custódia.
Em agosto de 1628 — O navio de guerra sueco Vasa afunda no porto de Estocolmo após apenas 20 minutos de sua viagem inaugural.
A Alemanha Oriental fecha a fronteira entre os setores leste e oeste de Berlim para impedir as tentativas de seus habitantes de fugir para o Mundo ocidental, e inicia a construção do Muro de Berlim em 13 de agosto de 1961.

A História sem fim - Ação Rescisória - Revisão Criminal

Rejane G. Amarante (Advogado Autônomo - Criminal)

Em primeiro lugar, meus sinceros votos de boa saúde para o senhor, Dr. Godoy. "Se cuida".
Quando li um dos melhores livros de toda a minha vida, e li muitos livros, iniciei a leitura com o prefácio de Carlos Heitor Cony :
(...)"Cerca de 500 anos antes da hegemonia do Império Romano e 445 anos antes de Cristo, alguém disse a Xerxes que o futuro da humanidade estava a 'leste' da civilização até então conhecida. Em termos comparativos, seria o mesmo que alguém tentar convencer o Pentágono e seu chefe mais evidente, o presidente dos Estados Unidos, seja ele quem for, que o futuro da civilização estaria no pólo ártico, ou como emergência topográfica, no pólo antártico."(...)
(...)"Cito ao acaso um trecho quase insignificante de 'Criação', o grande em todos os sentidos (pelo volume, pelo conteúdo e pela linguagem) romance histórico de Gore Vidal, publicado em 1981, quando o autor atingia sua plenitude de prosador e pensador, aos 56 anos de idade."(...)
(...)"Discute-se acerbamente, e sem conclusão à vista, a validade da história assim romanceada.(...) Um historiador convencional e críticos profissionais sentem arrepio na pele e na consciência quando encontram, como neste livro de Gore Vidal e em Stefan Zweig, detalhes marginais como 'Xerxes sorriu e mexeu-se na rede'. Ou então, 'Danton cerrou as sobrancelhas e encarou Robespierre com desprezo'. Qual a fonte confiável para estabelecer que Xerxes estava na rede e que Danton realmente olhou com desprezo para o homem que o mandaria para a guilhotina ?'(...) Como pôde um escritor nascido no começo da década de vinte (...) entrar no cotidiano do mundo antigo (...)

CONTINUA

Continuação

Rejane G. Amarante (Advogado Autônomo - Criminal)

(...)"Evidente que houve pesquisa e há vasta e variada literatura a respeito, mas uma literatura cheia de buracos, de vazios, de enigmas, de contradições, de arapucas técnicas e pontuais para a abordagem crítica isenta."(...)
(...)"Gore Vidal não teve a intenção de escrever a história que começava a ser historicizada. Ele se marcou, no cenário e na literatura do nosso tempo, como uma voz solitária e contestatória.(...)Apesar de polêmico, ou por isso mesmo, Gore Vidal é um autor que não pode deixar de ser lido. Seus livros estão na prateleira nobre da biblioteca básica do homem moderno. E 'Criação' é um dos livros do nosso tempo."(...)

Congratulo o senhor, Dr. Godoy, por destacar a importância desse gênero literário e indicar autores brasileiros, que escreveram sobre temas brasileiros, num contexto brasileiro. Sem sombra de dúvida, deve ser mais explorado por escritores brasileiros.
A HISTÓRIA É ESCRITA PELO VENCEDOR

Afinal, a história que nos ensinam na escola é mesmo a "real", ou uma obra coletiva de ficção ?
Faço parte de um grande grupo de pesquisadores autodidatas que estão analisando, comparando, divulgando documentos históricos que contradizem muitas "versões oficiais" da História do Brasil e da História Geral.
A começar pelo fato intrigante de a História do Brasil nunca ser ensinada no contexto histórico mundial de cada período. Parece que sempre vivemos num mundo à parte.
Temos visto que muitos historiadores, arqueólogos, antropólogos e assemelhados têm conhecimento dos mencionados documentos e artefatos históricos, mas não ousam confrontar a "Academia" e perder seus títulos acadêmicos.
Adivinha quem são as nossas fontes ?

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