Em seus mais de 37 livros, suas músicas e poesias, dedicou-se a desvendar aspectos da vida que não poderiam ser retratados nos limites dos manuais de Direito. Como artista, tem uma contribuição imensa para a cultura brasileira. Suas composições musicais revelam como, em um país marcado pela pobreza e pela violência, pessoas criam em seu cotidiano variados sentidos éticos, estéticos e políticos para a própria existência.

Destaco a contribuição de Nei Lopes no campo teórico, notadamente nos estudos sobre o pensamento africano e o pensamento brasileiro.

Temos em Nei Lopes um dos mais importantes estudiosos contemporâneos das culturas africanas e afrolatinas. Ao menos duas importantes lições sobre a formação social brasileira surgem da pena de Nei Lopes. A primeira é que somos nós, brasileiros, constituídos por uma "africanidade", cujas marcas não estão apenas em nossos corpos, mas sobretudo em nossas almas.

A segunda lição é que faz parte da história do Brasil a negação sistemática dessa mesma africanidade, algo que se revela na ação das instituições políticas e jurídicas, tradicionalmente fiadoras do racismo e da desigualdade. As contradições entre o Brasil oficial e o Brasil do subúrbios, periferias e favelas são genialmente retratadas por Nei Lopes na música "Águia de Haia".

Ao nos apresentar a filosofia africana, Nei Lopes fornece subsídios para uma reflexão crítica acerca de temas cruciais da filosofia do Direito. Em "Filosofias Africanas: Uma Introdução", escrito em parceria com Luiz Antonio Simas, escreve: "Conforme a boa herança africana, o indivíduo se situa no mundo não se afirmando contra o outro e contra aquilo que supostamente não lhe diz respeito, mas se percebendo como um parte da Natureza, força ativa que estabeleceu e conserva a ordem natural de tudo que existe (...) toda pessoa é útil e valiosa na comunidade, do nascimento até a morte".

Assim, fica aberta uma perspectiva filosófica sobre as relações humanas que não se restringe às visões de mundo predominantes e que são bem aceitas nas escolas de Direito.

Nei Lopes é, definitivamente, um pensador do Direito, do direito fundamental à imaginação, que consiste em projetar um mundo de respeito a todas as formas de viver; direito de imaginar um mundo de solidariedade, de substancial igualdade e de amor verdadeiro.

Vida longa a Nei Lopes, doutor do direito e da vida.