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Embargos Culturais

Lima Barreto e o cemitério dos vivos

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Lê-se em uma edição do Jornal do Brasil, datada de 6 de junho de 1916 (coluna Coisas da Política), que o escritor Lima Barreto tinha um talento estupendo e que publicara um livro soberbo, ainda que mutilado pela revisão. O elogio (merecidíssimo, sem dúvida) era raro na trajetória do escritor fluminense. Barreto foi reconhecido muito tempo depois de seu falecimento, e para tal contribui a biografia escrita por Francisco de Assis Barbosa. Em meados do século 20, passou a ser editado com mais frequência e sua herança bibliográfica postulou um posto no cânone nacional. Conseguiu.

Recentemente, os estudos sobre Lima Barreto ganharam fortíssimo impulso. É o resultado da publicação de outra biografia do escritor, de autoria de Lilia M. Schwarcz. Essa preparadíssima pesquisadora paulistana revela-nos que o momento atual nos coloca outras perguntas em face da trajetória de Barreto, o que (penso) justifica um novo recorte biográfico. Esse livro é imperdível. Remeto o leitor para o capítulo "Bebida, boemia e desânimo". São páginas marcantes. Explicam muito bem o que tento aqui resgatar.

O escritor fora internado em hospício em virtude do alcoolismo. A dependência de Barreto da bebida era assustadora, o que, a meu ver, o torna mais humano ainda. Tragédias marcaram sua vida. A mãe faleceu quando era criança. O pai foi declarado incapaz de continuar no serviço público em exame médico feito em 1902. Barreto parece ter sido funcionário público que não criava problemas, acomodado na vida burocrática, adocicado pela rotina. Redigia e copiava avisos e portarias ministeriais. O funcionário introvertido era, no entanto, o escritor combativo. Com o aparente equilíbrio no cotidiano alternaram-se episódios de descontrole mental, o primeiro deles em 1914 e um outro, mais agudo, em 1919. Há reminiscência de um quase encontro com Monteiro Lobato. Barreto estava tomado pelo álcool e o encontro não se desdobrou como pensaram.

As internações foram traumáticas. O hospício, afirma um de seus biógrafos, certamente não era uma estação de águas. O hospital, já escreveu um autor francês (Foucault), é o jardim botânico do mal, um herbário vivo de doentes. Quando internado, Barreto sentia-se moralmente rebaixado. Deixou-nos dois relatos contundentes sobre essas internações. Um deles em forma de diário e o outro em forma de esboço para uma narrativa ficcional: é o "Cemitério dos Vivos". Há nesses textos certa lembrança de um livro de Dostoievsky, "Recordação da Casa dos Mortos". O escritor russo (que Barreto lia apaixonadamente) contou o que viveu nos anos em que ficou preso na Sibéria.

Aproxima-se de um dos temas centrais em Foucault, que também estudou a mania e a melancolia, estados patológicos nítidos nos relatos de Barreto, que sugerem equivalência com a psicose maníaco-depressiva e com a bipolaridade. Acréscimos e deficiências de autoestima indicam, na teoria psicanalítica contemporânea das neuroses, referenciais de depressão e de mania, que Foucault identificou em autores antigos, com alusão a complexo conceitual que alcança uma verdade dinâmica do sofrimento pessoal. A demência é fantasma que ameaça. Parece que ninguém escapa.

A desrazão é penalidade que decorre do não alinhamento (voluntário ou não) com os protocolos do mundo racional. A desrazão seria também um prêmio pelo esforço centrífugo de não adesão (também voluntária ou não) à racionalidade que caracteriza a tradição ocidental. Para Foucault, o abismo da loucura em que estamos mergulhados é tal que a aparência de verdade que nele se encontra é simultaneamente sua rigorosa contradição. A loucura alimenta um apartheid criminológico, que também conhece muitas outras versões. Essa separação entre loucos ricos e loucos pobres, e só esses últimos seriam mais loucos, está presente nos relatos de Lima Barreto.

O escritor afirmou que tinha certeza de que não era um louco. Delirava, dando sinais de loucura, que decorria do álcool, misturado com as apreensões que o oprimiam, acrescentadas pelas dificuldades da vida material. Enfrentava escrevendo, lembrando que a literatura o mataria ou lhe daria o que dela ele pedia. Descreveu as instalações do hospício como de uma pobreza sem par. A refeição que mais apreciava era um café, que serviam com um pedaço de pão. Os loucos vinham "das camadas mais pobres de nossa gente pobre". Segundo Barreto "eram imigrantes italianos, portugueses e outros mais exóticos, são os negros, roceiros que teimam (teimavam) dormir pelos desvãos das janelas sobre uma esteira esmolambada e uma manta sórdida". O escritor registrou que não queria morrer, queria apenas uma outra vida.

Explicou por que bebia. Havia muitas causas. Mencionava um "sentimento ou pressentimento, um medo, sem razão nem explicação, de uma catástrofe doméstica sempre presente". Creio que hoje chamaríamos de ansiedade. Aborrecia-se com a casa onde vivia. O pai delirava, queixava-se, resmungava. Barreto tinha horror à vizinhança. Dormia em capinzais. Ficava sem o chapéu. Era roubado (quando bêbedo) em quantias altas. Conta que faltava ao trabalho por semanas e meses. Quando não ia para o centro da cidade, explicou, bebia pelos arredores de sua casa. Embriagava-se antes do almoço, depois do almoço, até o jantar, até a hora de dormir, isto é, o tempo todo.

Teria entrado no hospício no dia de Natal. Queixava-se que passara as tradicionais festas de ano entre as quatro paredes de um manicômio. Ficara inicialmente em pavilhão provisório de observação, para onde iam os doentes enviados pela polícia. Era um deles. Essa disposição o livrava do arbítrio policial e o submetia a um lente de psiquiatria na faculdade, que julgava ser independente, ter uma cultura superior e "um julgamento acima de qualquer injunção interna".

Contava de um companheiro de hospício, que tinha por louco clássico, "com delírio de perseguição e grandeza". Esse companheiro era inteligente, cultura elementar, e constatou que o delírio do colega era da mais pura verdade. Haveria delírio não verdadeiro? Em uma sessão confessional, Barreto afirmou que nunca amara ninguém, nem mesmo a própria mulher, ainda que o escritor jamais tivesse se casado. Percebia entre os internos uma obsessão com a pornografia e com a linguagem escatológica. Perguntava se a loucura se transmitia por contágio.

Aproveitou para alfinetar um desafeto de sempre, Joaquim Nabuco. Ao comentar que loucos imitam outras pessoas o tempo todo, lembrou o abolicionista, que imitaria um parlamentar inglês, que conhecera em Londres, em sua mocidade. Insistia que a loucura deveria ser estudada. Afirmou que conhecia loucos e médicos de loucos. Reconhecia que o sistema de tratamento à loucura ainda era o mesmo da Idade Média: o sequestro do louco, que se via proibido de conviver socialmente.

Havia no hospício uma biblioteca, na qual havia inclusive um Dostoievsky. Leu nessa biblioteca uma carta de Heloísa, e a biografia de Abelardo, que viveu com Heloísa um dos casos de amor romântico mais fascinantes que a história registra. Lia Júlio Verne e pensava no mar. Conta que se via tomado de melancolia e de sonho. Mantinha o espírito distante e crítico que tinha para com as instituições, que tanto deplorava. Em "O cemitério dos vivos", cita a passagem de Sólon, para quem as leis são como teias de aranha que prendem os fracos e pequenos insetos, mas são rompidas pelos grandes e fortes.

Registrou a prosaica presença de um oficial reformado do Exército, demente a não mais poder, que cismava que conversava com os pardais. Conta que esse celerado, em todas as refeições, pegava um miolo de pão, mergulhava-o na água, atirando pedaços aos pássaros. Mantinha "chocalhos, apitos infantis, fazia poleiros, gangorras, para divertir ou chamar os pardais". Havia um certo apego afetivo no oficial. O escritor comentava que no hospício não vira nada semelhante. É que, observou, os internados se queixavam dos parentes e das mulheres.

Lima Barreto denunciou uma situação que o afligia, passados mais de 20 anos da abolição da escravidão, cuja data festiva assistiu ao lado do pai, quando criança. Observou que a polícia (e dizia não saber como e por quê) adquirira a mania das generalizações, e eram as mais infantis. Suspeitavam de todo estrangeiro de nome arrevesado. Assim, russos, polacos e ciganos eram tidos como cafetões. Lamentava que, para a polícia, todo negro era por força um malandro, todos os loucos eram por força furiosos e só transportáveis em carros blindados.

Queixou-se também que fora levado à força para o hospício. Garantia que iria para o hospital, pacificamente, sem condução forçada de qualquer agente, fardado ou não. Ironicamente, lembrava que estava disposto a obedecer e que não queria, com a sua rebeldia, perturbar a felicidade que a polícia propicia à sociedade nacional, extinguindo aos poucos o vício e o crime, que certamente diminuíam.

Na sessão ficcional, evocou a figura de quem com 30 e poucos anos, com fama de bêbedo, tolerado em uma repartição pública que o aborrecia, pobre, percebia que a vida lhe fechava as portas. Era um moço que não podia apelar para sua mocidade. Escreveu também que era um ilustrado que não podia se valer da ilustração que tinha. Era educado tomado por vagabundo, sofrendo as maiores humilhações. A vida não lhe tinha mais sabor e parecia que lhe abandonava a esperança. Descrevia ela mesmo.

Na sessão de apontamentos (em forma de diário), registrou que assim que o médico lhe deu alta, recusou-se a sair. Pensava em deixar o hospício depois do carnaval. Temia beber, receava que o delírio voltasse. Sabia que nossos sentimentos nunca são lógicos. Por isso mesmo, não são simples. Segundo o escritor, a loucura, seja no indivíduo isolado, ou no manicômio, é uma das cenas mais dolorosas que se pode oferecer a quem medita sobre a condição humana. Lembrou Catão, o sábio romano, para quem os sábios tiram mais ensinamentos dos loucos do que os loucos dos sábios. O intrigante, acrescento, é que os sábios podem ter um pouco de loucos, e os loucos, paradoxalmente, podem ter um excesso de sabedoria.




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 é livre-docente pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e doutor pela PUC-SP.

Revista Consultor Jurídico, 24 de janeiro de 2021, 8h01

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Doutor lima barreto

O ESCUDEIRO JURÍDICO (Cartorário)

"Afonso Henriques de Lima Barreto, mais conhecido como Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 — Rio de Janeiro, 1 de novembro de 1922) foi um jornalista e escritor brasileiro, que publicou romances, sátiras, contos, crônicas e uma vasta obra em periódicos, principalmente em revistas populares ilustradas e periódicos anarquistas do início do século XX. A maior parte de sua obra foi redescoberta e publicada em livro após sua morte por meio do esforço de Francisco de Assis Barbosa e outros pesquisadores, levando-o a ser considerado um dos mais importantes escritores brasileiros. Mas Monteiro Lobato, em carta de 1 de outubro de 1916 ao escritor Godofredo Rangel, já reconheceu o talento desse escritor mulato vítima do preconceito: "“Conheces Lima Barreto? Li dele, na Águia, dois contos, e pelos jornais soube do triunfo do Policarpo Quaresma, cuja segunda edição já lá se foi. A ajuizar pelo que li, este sujeito me é romancista de deitar sombras em todos os seus colegas coevos e coelhos, inclusive o Neto. Facílimo na língua, engenhoso, fino, dá impressão de escrever sem torturamento – ao modo das torneiras que fluem uniformemente a sua corda-d’água". (Fonte Wikipédia).

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