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"Prende e Fala"

Deltan Dallagnol admite que prisão é eficiente para forçar acordos de delação

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Em conversa com procuradores, Dallagnol disse que ameaça de transferência de preso para prisão insalubre era "eficiente" 
Fernando Frazão/Agência Brasil

"Nunca uma transferência foi tão eficiente, rsrsrs". A frase é do procurador Deltan Dallagnol, à época coordenador da frente paranaense da "lava jato". Foi escrita em "chat" de procuradores no dia 4 de agosto de 2017. A "transferência" a que ele se refere é a de Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil.

Dias antes, em 27 de julho, Bendine tinha sido preso preventivamente na carceragem da Polícia Federal em Curitiba. Mas poderia ser transferido para o Complexo Médico Penal (CMP) — em Pinhais, região metropolitana de Curitiba —, cujas condições são reconhecidamente precárias.

Na conversa, uma outra pessoa tinha dito que Bendine pediu para não ser transferido, sinalizando que poderia fechar um acordo de delação premiada. Foi nesse momento que Deltan ironizou a "eficiência" de uma ameaça de transferência para forçar uma "colaboração".

O sucinto diálogo deixa claro o que muitos advogados há tempos vêm alertando: o modus operandi do consórcio de Curitiba envolveu decretações de prisão preventiva como forma de pressionar os investigados a fazer acordos de colaboração premiada.

As frases constam do material a que a defesa do ex-presidente Lula teve acesso, após decisão do ministro Ricardo Lewandowski. Os dados foram obtidos por hackers e, posteriormente, apreendidos pela Polícia Federal, no curso da apelidada operação spoofing. 

Leia a íntegra do trecho:

4 Aug 17
• 14:49:07 Advogados do Bendine estão tentando falar com o Moro e com vocês para dizer que ele quer fazer um acordo de colaboração e não ir para o CMP....
• 15:05:15 Moro pediu para transferir o Bendine só na segunda.
• 17:39:52 Deltan kkkk
• 17:39:59 Deltan Nunca uma transferência foi tão eficiente rsrsrs
• 17:40:06 Deltan Pediram reunião pra segunda pela manhã
• 19:04:29 Boa... rs




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 é editor da revista Consultor Jurídico.

 é editora da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 6 de fevereiro de 2021, 9h40

Comentários de leitores

10 comentários

Poderes excessivos

magnaldo (Advogado Autônomo)

Como órgão de acusação o MP é parcial por natureza mas ao investigar, deixou de ser fiscal da lei e passou a praticar crimes como esses noticiados. Todo o legado da lava jato, importante para o país ao reprimir a criminalidade do colarinho branco, é jogado no lixo com a revelação da manipulação e condutas nefastas por parte do MP. Admitir que jogar alguém em prisão insalubre meio para fazê-lo falar ou que a prisão antecipada ajuda a forçar o investigado a quebrar o silêncio, é o mesmo que defender a tortura física e psicológica, relevando, por completo, todos os princípios e normas que devem nortear um estado democrático de direito. Poderes excessivos macula qualquer entidade ou poder. É um erro permitir ao MP investigar diretamente, cabendo-lhe o papel de órgão de acusação em Juízo.

Malleus

Francisco Macedo (Juiz Estadual de 2ª. Instância)

Isso lembra a inquisição, onde era lícito se ameaçar o preso para conseguir delações. Foi proibido porque o que se conseguia não era confiável, muito menos ético, Transformava mentiras em "verdades jurídicas"-
- causando enormes erros judiciários.

Quadrilha ou Agentes Publicos

Rodrigo Sade (Advogado Autônomo - Civil)

A grande questão sobre o ativismo do ministerio publico com a lavajato e o ativismo do judiciário é se isso seria peculiar as suas funções ou se deturpou, até dolosamento, em uma organização criminosa.

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