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Exumação geopolítica

Juíza do Rio pede "intérprete da língua oficial da União Soviética" para ucraniano

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Soviet VisualsEstudantes na festa de passagem de ano de 1975 para 1976 no Kremlin, em Moscou

Como o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro não possuí intérprete de ucraniano, uma juíza ordenou um tradutor da “língua oficial na União Soviética” para um ucraniano acusado de furto.

O turista foi preso em flagrante em 30 de dezembro pela suspeita de ter roubado uma bolsa e um perfume da loja Zara no Shopping Leblon, na zona sul do Rio, informou o colunista Ancelmo Góis, do jornal O Globo. Como ele não fala português, a Defensoria Pública e o Ministério Público pediram o adiamento da audiência de custódia.

O cartório do TJ-RJ informou que não possui tradutor de ucraniano. Sendo assim, a juíza de plantão requisitou à presidência da corte um “intérprete da língua oficial na União Soviética”. Se isso não fosse possível, deveria se pedir um tradutor ao Consulado da Rússia, disse a julgadora.

Fundada em 1922, a União Soviética foi dissolvida em 1991. A Ucrânia integrou a federação, mas é independente desde aquele ano. Desde 2014, o país está em conflito com a Rússia.

O Consulado da Rússia respondeu que “seria inviável o envio de um intérprete para um cidadão ucraniano” devido a “problemas diplomáticos”. A Defensoria Pública pediu a libertação do acusado, e um desembargador aceitou o pedido, uma vez que a prisão em flagrante não foi convertida em preventiva em 24 horas.

Segundo o magistrado, o Estado atuou com “imperícia” ao não providenciar um tradutor de ucraniano em prazo razoável. O desembargador também criticou o pedido de intérprete ao Consulado da Rússia, “país que mantém atual notório estado de beligerância” com a Ucrânia, ignorando a “diversidade linguística” entre os dois países.

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 é correspondente da revista Consultor Jurídico no Rio de Janeiro.

Revista Consultor Jurídico, 7 de janeiro de 2020, 12h30

Comentários de leitores

8 comentários

Um pouco de estudo ajudaria

Ian Manau (Outros)

Concordo com o Sr. R. Cruz. Sou estudante autodidata da história do Comunismo mundial e de seus crimes contra a Humanidade. Ainda há Comunismo no mundo, ao contrário do que alguns pensam. Porém, já é um tanto diferente do visionado por Lênin.

Voltando ao tema da matéria. Entendimento meu: se a referida magistrada conhecesse um pouco disso, um mínimo que fosse, teria mandado verificar nos consulados e na embaixada da própria Ucrânia sobre os migrantes atualmente no país. A Rússia nada tem a ver com o assunto e ponto final, mesmo que a União Soviética tenha se iniciado lá. Pena que ela não me consultou neste assunto. Não falo ucraniano nem russo, mas teria dado a dica a ela.

Segue o baile...

O juiz é pago pelo que sabe

Jose Benedito Neves (Advogado Sócio de Escritório)

O Juiz, como o Sábio, é pago pelo que sabe. Se tivesse que ser pago pelo que não sabe, nem todo o dinheiro do Tesouro seria suficiente para remunerá-lo!

Problema na admissão

Beto Zamprogna (Advogado Assalariado - Civil)

Se os concursos da Magistratura contassem com ao menos com um mínimo de interdisciplinariedade, como questões de português, ética, um pouco de filosofia e sociologia também não faz mal a ninguém, especialmente no Brasil de hoje, e, além disso, um pouquinho só de atualidades (que se traduziria num misto de história, geografia, e conhecimento de política e economia) ajudaria para selecionar julgadores formados não só na decoreba jurídica, mas também na vida. Tomara que em algum momento o Judiciário se dê conta disso.

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