Consultor Jurídico

Guerra dos grampos

Suposta assessora de Alckmin oferece ajuda a MP contra Maluf

Enquanto a polícia grampeava, com autorização judicial, os telefones de Paulo Maluf e de pessoas de seu convívio, alguém gravava as conversas dos investigadores do ex-prefeito.

Segundo Maluf, as gravações foram oferecidas a ele pelo advogado Jorge Serpa, do Rio de Janeiro, por intermédio do empresário José Carlos Kalil. Serpa nega qualquer envolvimento no episódio. Mesmo tendo se recusado a pagar pelo material, conforme diz, Maluf recebeu a transcrição das fitas, para conhecer seu conteúdo.

Não bastasse sua origem obscura, não se sabe qual seu grau de confiabilidade. Pode não servir como prova, mas é um alerta para a repugnante arapongagem privada, essa indústria florescente, cujo produto principal é a chantagem.

Personagem muito à vontade nas gravações é uma mulher identificada apenas como Senhora X e que se apresenta como “assessora do governador”. A Senhora X demonstra desenvoltura para tratar com a imprensa. E conversa com familiaridade com representantes do Ministério Público.

Numa destas conversas gravadas, ela negocia com o promotor da Cidadania do Ministério Público do Estado de São Paulo, Sílvio Marques, um dos mais ferrenhos acusadores de Paulo Maluf, o depoimento de uma testemunha, que teria revelações capazes de provocar a decretação da prisão do ex-prefeito. O promotor mostra pouco entusiasmo pela proposta e recusa qualquer possibilidade de pagar ou praticar qualquer ilegalidade em troca do depoimento. Mesmo porque, ele diz, o depoente “não está em condições de exigir nada”.

Procurado pela revista Consultor Jurídico, o promotor Sílvio Marques confirmou a conversa com a Senhora X, mas não a identificou. Marques afirmou que ficou ressabiado com a suposta assessora e decidiu também gravar a conversa. E ressaltou: "tudo o que foi conversado está dentro dos limites legais".

Leia a transcrição de conversa entre o promotor e a senhora X (mantidas ortografia e gramática do original)

X — Olá, boa tarde

SM — Me desculpe, mas eu estava no meio de um depoimento

X — Imagina.

SM — Por favor, eu não tinha como sair, mais

X — Eu entendo, vocês trabalham muito, muito agitado.

SM — Nossa, e hoje ainda com este negócio do Palocci, você ficou sabendo?

X — Então, eu estou ouvindo, até o Ernesto Paglia está lá em cima!

SM — É mas ele veio...

X — É outra coisa né...

SM — Não, não tem a ver, mas assim, o esquema do lixo ele funcionou nas prefeituras petistas, né, mas principalmente em São Paulo, e aqui a...investigação, e agente tem as fraudes... bens, conseguimos pegar as provas boas, busca e apreensão na prefeitura não sei o que tal, e no fim tudo que a gente tava investigando — agora está se confirmando.

X — Por sinal, até, eu sou da assessoria do governador,

SM — huhum

X — e a gente fica muito satisfeito com o trabalho de vocês, porque o trabalho é bem bacana, vocês vão em cima, investigam, e isso aí é legal que você está dizendo, quer dizer, vocês trabalharam, levantaram agora uma situação que agora está se confirmando que é verdade...

SM — Confirmando, pelo grampo telefônico que fizemos aí, lá em Ribeirão Preto, mas também por muitos documentos que agente apreendeu aqui, enfim, imagina um contrato de vinte anos renovado por mais vinte, que é o daqui de São Paulo.

X — é uma vida né...

SM — é, pois é, e não tem o menor cabimento isso, agente não entendia como a eX prefeita ele enfrentou todo mundo, vamos dizer assim e assinou contrato, mesmo sob ameaça, vamos dizer assim, de ser processada, do desgaste político, etc...agente pedia para não assinar, entendeu? E ela assinou mesmo assim, e agora agente sabe porque, infelizmente.

X — É engraçado que é uma afronta e uma coragem que misturam ali né, é complicado...

SM — É, infelizmente, esse governo petista aí que saiu ele, vamos dizer assim, taratava com tanto orgulho , como aliás o governo federal...

X — Ainda bem né (risos)

SM — (risos)

X — Ainda bem eu acho ótimo .

SM — é né(risos)

X — No íntimo eu sempre achei que seria uma decepção não pela minha posição política, mas enfim... Bom doutor, eu vim falar aqui é o seguinte, tem a ver com uma investigação de vocês e a assessoria foi procurada, é o caso do Paulo Maluf...

SM — huhum

X — O Edgar Leite e a Isa Ribeiro parece que não tão querendo prestar depoimento aqui com vocês para esclarecer e informar o que eles sabem.

SM — Ta

X — E a assessoria foi procurada, o governador me pediu para ficar a frente disso, pra verificar aonde é verdade e o interesse de vocês aqui no Ministério Público. É qual que é a informação que chegou para agente, de que o Edgar Leite tem umas informações, tem documentação e ele quer prestar os esclarecimento dele e modificar um depoimento dele que tinha dado antes e que parece que não foi muito interessante, que não deu muitos dados




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Revista Consultor Jurídico, 2 de setembro de 2005, 19h49

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