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Dirceu sabia

Leia o depoimento de Marcos Valério ao Ministério Público

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Em seu depoimento na Procuradoria-Geral da República, na terça-feira (2/8), o empresário Marcos Valério confirmou o que sua mulher, Renilda Santiago, afirmara quando foi interrogada na CPMI dos Correios: José Dirceu negociou com a direção do Banco Rural os empréstimos concedidos pela instituição bancária ao PT em nome de Marcos Valério.

“Quanto à origem dos empréstimos, o declarante esclarece que teve conhecimentos que, por ocasião das suas tratativas para obtenção dos mesmos junto ao BMG e Rural, Delúbio Soares lhe informou que José Dirceu teve reuniões com os dirigentes de ambos os bancos”, diz a transcrição do depoimento de Marcos Valério, a que a revista Consultor Jurídico teve acesso e publica na íntegra nesta página.

Marcos Valério conta também que esteve várias vezes no Palácio do Planalto e em três oportunidades encontrou-se pessoalmente com José Dirceu, então ministro-chefe da Casa Civil. Em outras oportunidades, foi atendido por Sandra Cabral, secretária de Dirceu e responsável pela área administrativa do gabinete, e por Marcelo Sereno, assessor especial do ministro.

No depoimento, Marcos Valério conta como entrou no financiamento ilegal de campanhas ao fazer um empréstimo de R$ 9 milhões no Banco Rural e repassá-lo à campanha do candidato tucano ao governo de Minas Gerais em 1998, Eduardo Azeredo.

Ofereceu como garantia do empréstimo “os créditos a receber do governo do Estado de Minas Gerais”. Marcos Valério se lamenta que como “a chapa perdeu a eleição e não pagou o empréstimo teve, através da sua empresa DNA, de negociar com o Banco Rural, que havia ajuizado uma ação de execução”. Ele mesmo pagou o empréstimo.

Este mesmo esquema de inspiração tucana seria aplicado mais tarde com o PT federal. Marcos Valério conta que foi apresentado a Delúbio Soares pelo deputado Virgilio Guimarães, do PT mineiro, no segundo turno da eleição presidencial de 2002, quando tratou de se aproximar dos prováveis futuros ocupantes do Palácio do Planalto.

Em fevereiro de 2003, Marcos Valério já estava íntimo do tesoureiro do então partido do governo a ponto de Delúbio Soares se abrir com ele sobre “pendências financeiras dos diretórios regionais do PT referentes às eleições de Deputados Federais e Estaduais e Governadores que necessitavam ser saldadas. Foi então que Delúbio solicitou um empréstimo para tal finalidade”.

Segundo Marcos Valério, foi usado o esquema já testado com o PSDB mineiro: ele fez empréstimos em seu nome no Banco Rural e no BMG, deu como garantia os contratos de publicidade que tinha com órgãos do governo federal, e repassou os recursos ao partido.

Segundo o publicitário, Delúbio Soares lhe informou que “esse dinheiro não entraria na contabilidade oficial do partido e, portanto, ele, Delúbio Soares, indicaria ao declarante os destinatários de parcelas do montante total”. Delúbio Soares explicou também quem seriam os beneficiários dos empréstimos: pagamento de fornecedores de campanhas eleitorais do PT, e de débitos dos partidos que participaram da coligação no passado. “Como os partidos destinatários dos recursos também não contabilizaram essas dívidas, os recursos tinham que ser entregues em espécie, já que a movimentação no sistema financeiro deixaria um registro de operações que não tinham sido contabilizadas”, explicou Valério.

Marcos Valério termina seu depoimento dando explicações sobre uma série de nomes constantes na lista de pessoas autorizadas a fazer saques nas contas de suas agências de publicidade SMPB e DNA, que entregara à Procuradoria-Geral da República um dia antes (1/8).

Aparecem na lista os nomes de Jacinto Lamas e Valdemar Costa Neto, do PL, Zilmar Fernandes da Silveira, a sócia do marqueteiro do presidente Duda Mendonça, do falecido presidente do PTB José Carlos Martinez, dos advogados Aristides Junqueira e Pedro Fonseca, do deputado Vadão do PP de São Paulo, do prefeito petista de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Marcos Valério informa que o deputado José Borba, líder do PMDB na câmara, recebeu a sua parte do dinheiro em Brasília, no Banco Rural, “mas se recusou a assinar os recibos”.

Marcos Valério informou também que não tem curso superior — portanto não tem direito a prisão especial. Mais uma vez ele fez uma proposta de delação premiada, oferecendo informação e colaboração em troca de uma redução de pena. Valério aproveitou a ocasião para entregar aos procuradores que o ouviram seu passaporte, como um sinal de que não tem intenção de fugir do país.

Confira a íntegra do depoimento de Marcos Valério:

No dia 02 de agosto de 2005 compareceu espontaneamente nesta

Procuradoria-Geral da República o senhor Marcos Valério Fernandes de Souza, brasileiro, casado, empresário, portador da CI nº X.XXX.XXX/SSP/MG e do CPF nº XXX.XXX.XXX-XX, com endereço residencial à Rua Xxxxxxx xx Xxxxx, 000, X. Xxxxxxx, Belo Horizonte/MG, acompanhado de seu advogado, Dr. Marcelo Leonardo, OAB-MG 00.000, na presença da Subprocuradora-Geral da República Dra. Cláudia Sampaio Marques, do Procurador-Regional da República, Alexandre Espinosa Bravo Barbosa e da Procuradora da República Raquel Branquinho P. M. Nascimento e prestou os seguintes esclarecimentos:

 é diretor de redação da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 4 de agosto de 2005, 17h27

Comentários de leitores

2 comentários

Se ele quer a delação premiada é porque sabe de...

Marin Tizzi (Professor)

Se ele quer a delação premiada é porque sabe de muita coisa que não disse nesse interrogatório. Que tal concordar com a delação pelo bem da nação.

O Conjur tem de cumprir seu mister. Agora, esse...

Francisco Lobo da Costa Ruiz - advocacia criminal (Advogado Autônomo - Criminal)

O Conjur tem de cumprir seu mister. Agora, esse negócio de o MPF divulgar a integra de um depoimento está, no mínimo, esquisito. De qualquer forma, a "mensagem" foi passada. É bom lembrar que na delação premiada o conteúdo de um depoimento depende de submissão ao crivo de um juiz, ao contrário do que pretendem mostrar ser "direito absoluto" dos promotores. Assim, existe a hipótese de a "delação" não ser acolhida para os fins previstos na lei especial que rege a matéria. Portanto, mais um motivo para que não houvesse divulgação do depoimento, salvo, se com desiderato certo, que pode ser até maquiavélico. São hipóteses, nada mais, ficando para reflexão...

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