Consultor Jurídico

Caso CRT

Livro conta em detalhes alvo de investigação da Kroll

As atividades da Brasil Telecom são limítrofes, de fato com as da CRT. Em outras palavras, à frente de um só vendedor existe um só comprador. Poderiam concorrer à aquisição da CRT, teoricamente, algumas pequenas empresas telecomunicações que operam na área. Mas elas nao dispoem de meios financeiros. Por isso, a adquirente nao pode ser senao a Telecom.

No início de 1999, acontece um fato curioso. Carla Cico, administradora que acompanhou, por conta da Telecom, a privatização da Telebras, vira a casaca: vai trabalhar para o Opportunity (em 2001, é nomeada administradora delegada da Brasil Telecom), justamente quando Bernabé dá um basta às atividades internacionais.

No entanto, Colaninno chega à Telecom e divide as atividades internacionais, confiando a Giulia Nobili a parte de desenvolvimento de negócios, ou seja, as fusões e aquisições, e a Cicchetti – que voltara ao topo, depois da saída de Stecco – a gestão das participações. Nobili acompanhou os processos de privatização na América do Sul, passando por diversos bancos de negócios, e cuidou, em particular, das disputas para a Entel na Bolívia e para o Brasil. Esse esquema da Telecom Itália, quando, em janeiro de 2000, as negociações entre Telefonica e Brasil Telecom para a venda da CRT entram em cena.

A Salomon Smith Barney, a mesma que pouco tempo antes acompanhou a Telefonica nas disputas pela rede fixa, assiste dessa vez a Brasil Telecom: a adquirente. Ela estimou que a CRT pode valer de 600 a 850 milhões de dólares. Essa avaliação foi discutida durante uma reunião da qual participaram, pela Telecom, o diretor financeiro Massimo Saverio Brunelli e Giulia Nobili, e, pelo Opportunity, o presidente Daniel Dantas e Cico.

Dantas e Cico insistem para que não se ofereçam mais de 650 milhões ele dólares à Telefonica Nobili é favorável a aumentar o valor. No fim, concordam que a oferta máxima para negociar com os espanhóis seja de 730 milhões de dólares. O conselho administrativo da Brasil Telecom, a quem cabe conduzir a negociação com a telefonica, manifesta-se a favor dessa soma. Mas enquanto os acordos estão em curso em março de 2000 Nobili volta ao Rio para comunicar a Dantas que o presidente da Telecom Itália, Roberto Colaninno, e o da Telefonica, Juan Villalonga, chegaram a um acordo para fechar a operação em 850 milhões de dólares.

A Brasil Telecom, portanto deve adquirir: a CRT por 850 milhões de dólares. É estranho. Colaninno entrou na Telecom prometendo eficiência, demonstrou se um hábil negociador e depois, longe da Itália,vai pagar uma soma superior à acordada com os sócios brasileiros, que estão, além do mais, convictos de poder conseguir um preço mais baixo.

Essa versão dos fatos, que foi contada por fontes brasileiras, contrasta, entretanto, com as informações obtidas de fontes italianas. O encontro entre Colaninno Dantas -- segundo essa outra versão -- remontaria a julho de 1999. O que o desencadeara teria sido uma deliberação, que Colaninno julga transparentee se recusa a confirmar, com a qual a Brasil Telecom decidiu ceder como garantia suas ações numa empresa de Dantas.

Naquele momento desencadeia-se entre os dois uma guerra legal que dura dois anos e meio e passa por reviravoltas bem desagradáveis. Numa das suas visitas ao Brasil, a polícia prende três delinqüentes encarregados de espionar Colaninno, que nas suas visitas posteriores terá escolta policial e será obrigado a dormir em hotel com um segurança à porta do quarto.

No momento em que a Brasil Telecom está negociando pela CRT, os dois administradores da Telecom Itália que ocupam o conselho da companhia brasileira percebem que Dantas está na verdade procurando atrapalhar a aquisição da sociedade riograndense.

Não é verdade, nessa versão dos fatos, que Colaninno se encontre com Villalonga e concorde com um preço mais alto. São Giulia Nobili e Carmelo Furci -- membro do conselho da Brasil Telecom -- que se encontram com os responsáveis da Telefonica para a América do Sul, e é Nobili quem revela ao mesmo conselho as condições colocadas pelos espanhóis para a conclusão do negócio.

A reunião decisiva realiza-se em Brasília, na sede da Anatel, a agência nacional controladora das telecomunicações, A Anatel convidou a CRT -- que se arrisca a ter a licença revogada -- e a Brasil Telecom a encerrar os acordos. Uma vez que os espanhóis não pretendem baixar de determinada cifra, Giulia Nobili aceita concluir o negócio por 850 milhões de dólares.

Pede então ao presidente da Brasil Telecom, Enrique Neves, para firmar o contrato. Mas ele se opõe. O conselho de administração da Brasil Telecom, encarregado das negociações, autorizou-o, na verdade, a não gastar mais de 730 milhões de dólares. E a operação é concluída com 800 milhões de dólares. Neves é obrigado a assinar. E o Opportunity, naquele momento, inicia uma ação legal contra a Telecom Itália, destinada a prolongar-se pelos anos




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Revista Consultor Jurídico, 24 de julho de 2004, 18h54

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