Entrevistas
8 novembro 2007
Propinoduto italiano
Caso das teles cresce na Itália e aperta brasileiros
Ao decidir pedir informações à Justiça italiana sobre notícias a respeito do pagamento de propinas a parlamentares brasileiros por parte da Telecom Italia, como anunciou esta semana, a Câmara dos Deputados pode ajudar a esclarecer um intrincado capítulo da história empresarial recente do país.
Os acionistas da operadora de telefonia italiana querem saber quem ficou com os milhões de dólares que os ex-administradores da empresa trouxeram para o Brasil. Em confissões lançadas nos autos já se havia citado subornos a policiais federais, lobistas, jornalistas e, agora, a parlamentares. Nominalmente há poucos citados, como Luís Roberto Demarco, o empresário que criou as lojinhas virtuais do PT, um esquema partidário de arrecadação.
Foi da empresa de Demarco que saiu o arquivo que gerou denúncia do Ministério Público contra Daniel Dantas — alvo da operadora e obstáculo para que os italianos assumissem o controle da Brasil Telecom. Foi ele também que coordenou as ações dos fundos de pensão no mesmo sentido; produziu os questionamentos de comissões parlamentares e tornou-se assistente de acusação do MP contra Dantas.
Os novos dados trazidos pelo processo que corre em Milão revisam os contornos do escândalo. Até então, tinha-se que Dantas recorrera à contratação da empresa Kroll, chegando a investigar estrelas petistas de primeira grandeza. Os italianos tomaram conhecimento da contratação e trouxeram os fatos a público, através da operação que ficou conhecida como "Chacal".
Pelas confissões dos italianos já encarcerados, tornaram-se réus ou aderiram à delação premiada, a história é reescrita. Um dado novo é a tradutora do "serviço secreto" da operadora, Luciane Araújo. Em entrevista exclusiva, ela conta como funcionava o relacionamento com os brasileiros — a quem os italianos chamavam de "canibais" (leia a entrevista ao final da notícia).
O chefe da espionagem da empresa Angelo Jannone, que trouxe o CD para o Brasil com o famoso dossiê, foi preso. Também passou pela prisão, o vice-presidente de Segurança da Telecom Italia, Fabio Ghioni, autor da “formatação” do CD. Mario Bernardini, outro protagonista ativo do esquema optou pela delação premiada. Ele foi dono de empresas que, terceirizadas, faziam arapongagem, com exclusividade, para a TI.
Bernardini tornou-se importante testemunha do caso. Segundo ele, os executivos da operadora italiana, a quem ele serviu até 2006, usaram a estrutura da empresa para criar uma rede internacional de espionagem para compra e venda de informações. O Ministério Público italiano, segundo o jornal “La Repubblica”, está rastreando o pagamento a "lobistas especializados em comunicação próximos a políticos brasileiros, importantes servidores públicos, mas também simples policiais".
Na fase de instrução, os promotores e juízes acabaram descobrindo uma brasileira que trabalhou com Bernardini. Luciane Araujo, a tradutora e intérprete encarregada de traduzir as comunicações e informações trocadas entre brasileiros e italianos. Seus dois primeiros depoimentos foram dados na condição de testemunha. Nas duas convocações seguintes ela foi ouvida como informante.
Luciane não só repete o que já haviam dito Bernardini e Jannone, sobre o pagamento a brasileiros que os ajudavam, como conta em detalhes que, em troca do dinheiro, os colaboradores enviavam, regularmente, informes das investigações da Polícia Federal movidas contra Daniel Dantas e seus parceiros.
Segundo se divulgou à época, a Polícia Federal “montou um grupo de elite, com técnicos de vários órgãos especializados em finanças, para analisar todas as operações do Banco Opportunity no Brasil e no exterior. Integram o grupo peritos da própria PF e do Ministério Público, e auditores fiscais da Receita Federal, do Banco Central e da Previdência”. A própria PF divulgou na ocasião quem foi o autor do roteiro das investigações: Luís Roberto Demarco.
Pelo depoimento da tradutora de Bernardini, Demarco era uma espécie de repassador de pagamentos a outras pessoas. Luciane Araujo narra desentendimentos por conta de atraso do ordenado. Em uma das ocasiões, os prejudicados teriam sido jornalistas ligados a Demarco. A rusga chegou a tal ponto que Mario Bernardini ficou com medo de voltar ao Brasil e ser preso pela PF. Sempre nas palavras de Luciane, seu chefe pediu ao lobista brasiliense Alexandre Paes dos Santos para fazer uma verificação do risco. Bernardini sabia que do dossiê, divulgado pouco antes no Brasil, seu nome fora suprimido para que ele pudesse continuar espionando sem maiores preocupações. Mas temia o parceiro.
A checagem concluiu que para informar as artes do italiano, Demarco teria que confessar as suas. E Bernardini pôde continuar vindo ao Brasil. No segundo semestre de 2004, o detetive alugaria um avião, na falta de helicóptero, em Salvador para filmar e fotografar uma fábrica de pneus. O motivo era a suspeita de que Daniel Dantas era o dono oculto da empresa.
Márcio Chaer é diretor da revista Consultor Jurídico
Revista Consultor Jurídico, 8 de novembro de 2007
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