Leia a denúncia do MPF contra financiador do Corinthians
Na ligeireza de denunciar o suposto financiador do futebol do Corinthians, o russo Boris Berezovsky, como um barão do crime organizado e da lavagem de dinheiro internacional, o Ministério Publico Federal consegue exatamente a proeza inversa. Provou que os US$ 32.541.940 que a MSI, o fundo de investimentos acusado de ser a fachada para as falcatruas do bilionário russo, investiu no time paulista ingressaram no país dentro da mais estrita legalidade, com o devido registro no Banco Central.
A exemplo do Ministério Público do Estado de São Paulo, que apresentou denúncia similar em abril de 2005, o MPF baseia sua denúncia no perfil pretensamente criminoso de Berezovsky, que, é apontado, com base em afirmação do presidente corintiano Alberto Dualib, como o principal investidor da MSI. É até possível que Berezovsky não seja flor que se cheire. O problema é que o MPF não consegue demonstrar isso, tarefa que possivelmente esteja muito além de sua competência.
O MPF relata a espantosa evolução patrimonial e ascensão no mundo dos negócios do russo, mas não prova nenhum crime: Conta que Berezovsky passou de um modesto professor de matemática com salário equivalente a US$ 300 dólares a dono de um patrimônio de US$ 20 milhões de dólares no espaço de cinco anos. “Ou seja, um rendimento de 80.000% (oitenta mil por cento) em cinco anos. Sem dúvida uma cifra espantosa e insuperável mesmo para países de tradição capitalista”, diz a denúncia. Espantosa, sem dúvida, mas lícita até que se prove o contrário.
Mais adiante o MPF levanta suspeitas também em relação às preferências políticas do investidor: “Entre 1992 e 1999, Berezovsky viu ampliar seu poder econômico e ganhou ascendente influência política durante os dois mandatos sucessivos de Boris Yeltsin. Participou ativamente na candidatura de Vladimir Putin, sucessor de Yeltsin, eleito em 2000. Na mesma campanha, já um milionário influente, também Berezovsky foi eleito representante no Duma, casa legislativa da Federação da Rússia”.
E finalmente mostra como Berezovsky se torna um asilado político na Inglaterra: “Ainda em 2000, com a prisão de seu associado empresarial Nikolai Gluchkov, e temendo o mesmo destino, fugiu da Rússia, tendo passado pela França e posteriormente obtido asilo político na Inglaterra”.
A denúncia cuida também de colocar no rol das malfeitorias de Berezovsky as supostas tratativas que teria mantido com o ex-ministro José Dirceu para obter asilo político no Brasil e para comprar a Varig, então em estado pré-falimentar.
E possível que ilicitudes pululem na prodigiosa história de sucesso empresarial do magnata russo, que soube aproveitar as oportunidades de negócio no turbulento processo da transformação da antiga União Soviética socialista para a Rússia com economia de mercado. Mas não há nos dados apurados e denunciados pelo MPF nada que leve a esta conclusão. Como não há nenhum dado objetivo para sustentar a afirmação de que o iraniano Kia Joorabchian, o administrador da MSI junto ao Corinthians, é o “testa de ferro” de Berezovsky.
A denúncia do MPF abunda em dados surpreendentes sobre Berezovsky, seus parceiros misteriosos e seus negócios nebulosos. Falha apenas em demonstrar que é ilegal a origem do dinheiro que pavimentou o caminho do Corinthians para o título de campeão brasileiro de 2005? E como ninguém demonstra que o dinheiro tem origem legal, depois desta segunda denúncia a dúvida continua: de onde veio o dinheiro.
Leia a denúncia do MPF
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Excelentíssimo Senhor Juiz Federal da 6ª Vara Criminal da 1ª
Subseção Judiciária do Estado de São Paulo
O Ministério Público Federal, pelos Procuradores da República signatários, vem respeitosamente à presença de Vossa Excelência oferecer DENÚNCIA em face de:
1. Boris Abramovich Berezovsky, que também usa o nome de Platon Elenin, russo, casado, nascido em 23.01.1946, portador do passaporte britânico nº C00165789, com endereço comercial em 2nd floor, Interpark House, 7 Down Street, Londres W1J7AJ;
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Por Maurício Cardoso
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