Realidade virtual traz os mesmos problemas do mundo real
Em tempos de processo eletrônico, a internet entrou de vez no cotidiano dos advogados, juízes e promotores. Mais recentemente, a discussão sobre o bloqueio do YouTube, além das discussões sobre o Orkut, e surge a promessa de uma nova onda: o Second Life[1], criado pela Linden Lab em 2003.
Trata-se de um jogo que, no jargão dos aficionados, é chamado de MMORPG, Massive Multiplayer Online Role Playing Game. Jogo pela Internet no qual o participante pode criar um personagem virtual, à sua imagem e semelhança — ou não, chamado de avatar, e começar a levar uma “segunda vida” junto com os demais avatares que perambulam por lá.
Não se trata propriamente de novidade, podemos falar do Ultima Online, Everquest, World of Warcraft e Ragnarok, entre outros. O diferencial é que o Second Life terá uma versão em português, e está gerando uma grande expectativa naqueles que pretendem fazer do jogo um novo modelo de negócios.
É o velho Banco Imobiliário misturado com TheSims, com o plus da interação online e em tempo real. Alguns milhares de brasileiros já criaram seus avatares e estão participando do jogo, que já conta com quase 3 milhões de inscritos. Com uma ressalva: os requisitos de sistema limitam a participação de detentores de PCs populares, pois é exigida uma máquina robusta com placa 3D e conexão banda larga.
A participação inicial é gratuita, mas a coisa começa a ficar mais séria a partir do momento que você precisa obter lindens, a moeda que faz girar a economia desse território digital. Quanto mais lindens, maiores as possibilidades do seu “eu virtual”. Claro que podem ser comprados com cartão de crédito e outros meios de pagamento, como também podem ser recebidos em retribuição a uma atividade laboral do avatar, vejam só.
No Second Life o ambiente virtual é subdividido em terras, ou ilhas, onde se reúnem pessoas que falam a mesma língua, e têm interesses comuns. E consta que os brasileiros já são a quarta população que ali “habita”. Essa população tem crescido numa taxa de 50% ao mês, taxa essa de fazer inveja até mesmo à espécie dos leporídeos.
Assim, já foram criadas cidades que imitam a realidade, inclusive São Paulo e sua famosa Avenida Paulista. O preço dos terrenos é relativamente baixo e promete uma supervalorização se o jogo “pegar”. Várias empresas estão interessadas em anunciar e vender seus produtos, inclusive as agências de notícia da Reuters e da brasileira G1 já estão lá cobrindo as novidades.
Em um despretensioso passeio, seu avatar vai se deparar com produtos conhecidos no mundo real e outdoors de empresas — mesmo que em São Paulo estejam limitados, bem como adentrar seus shows-rooms, onde poderá conhecer toda a gama de produtos e serviços oferecidos por aquele fornecedor, aos próprios avatares, ou mesmo aos personagens reais que os animam, atrás dos teclados de computadores — pessoas de carne e osso, como você e eu.
Como no mundo antigo, as terras e ilhas têm donos, que vendem terrenos e garantem a ordem no pedaço. Podem vender ou ceder espaço aos seus “conterrâneos”, e impor a ordem, suspendendo, ou mesmo banindo os avatares inconvenientes. Criou-se também a hipotética figura do sem-terra ou sem-teto virtual, que poderá ficar mendigando por lindens.
É como se fosse um e-feudalismo. Mas será que o “senhor avatar feudal” poderá impor sua vontade soberanamente por muito tempo, ou será que terá de ceder a pressões da “vassalagem virtual”, ou das empresas, que estão ali gastando seus lindens? Ou mesmo da empresa detentora do jogo, lembrando que há leis “reais” que imperam sobre essa empresa.
Caso a sanha capitalista extrapole os limites do desejável no jogo, poderá acabar provocando um “nomadismo virtual”, ou e-emigração. Mas até lá, muitos lindens irão circular, e todos os participantes estarão investindo pelo menos seu tempo nessa nova brincadeira coletiva.
O que a torna mais interessante é o fato de que o programa visualizador (interface do usuário final), está sendo disponibilizado em open source[2], ou código aberto. "O código é lei”, teoria de Lawrence Lessig, encaixa-se como uma luva. Salvo algum bug ou erro de sistema, o usuário só pode fazer o que é determinado pelas linhas de código que compõem o software.





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Por Omar Kaminski
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