Entrevistas
18 julho 2005
A força do Estado
A Polícia Federal é uma das duas muletas do governo Lula
A Polícia Federal está no olho do furacão. Nos últimos três anos realizou centenas de operações e efetuou mais de mil prisões. Para uma parte da sociedade, esta hiperatividade significa a mais ostensiva e eficiente frente de combate à corrupção e ao crime organizado. Para outra parcela, no entanto, esta afoiteza representa uma séria ameaça aos direitos fundamentais da pessoa e ao Estado Democrático ou, quando muito, uma cortina de fumaça para encobrir as trapalhadas do governo.
O delegado especial de Polícia Federal Armando Rodrigues Coelho Neto, por razões óbvias faz parte do primeiro grupo. Mas nesta entrevista concedida à equipe editorial da Consultor Jurídico, em sua sede em São Paulo, Coelho Neto não se furtou a debater o papel da Polícia Federal nos fatos recentes da vida política brasileira. Participaram também da entrevista o diretor de redação Márcio Chaer e o editor Rodrigo Haidar.
Para Coelho Neto, a PF cumpre seu papel com patriotismo e devotamento. Se há excessos eles devem ser coibidos, mas têm um argumento: a corrupção generalizada que permeia a sociedade brasileira. Coelho Neto fala de uma posição privilegiada: ele é o presidente da Federação Nacional de Delegados de Polícia Federal. Fala também do alto de uma experiência de 27 anos vividos a serviço da instituição.
Sua visão não é estritamente a de um policial. O delegado é também jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É autor de um livro com tema jornalístico: “Radio Comunitária Não é Crime”. E é também o editor-chefe da revista Impacto, do Sindicato de Delegados de Polícia Federal no Estado de São Paulo.
Leia a entrevista
ConJur — A Polícia Federal protege a sociedade brasileira?
Coelho Neto — A Polícia Federal tenta proteger a sociedade brasileira dentro dos limites constitucionais de suas atribuições. Essa é a resposta mais objetiva que se tenta dar. Se você fosse me perguntar se ela está atendendo à realidade brasileira, eu diria que ela cumpre neste momento um papel extremamente importante, mas está muito aquém da realidade, seja do ponto de vista geográfico, seja do ponto de vista da diminuição da criminalidade que o Brasil alcançou.
ConJur — Ou seja, crime demais, polícia de menos.
Coelho Neto — Essa é a afirmação mais correta. A realidade da Polícia Federal é de muita luta. A gente não costuma divulgar nosso efetivo para não expor a fragilidade da instituição. Nos sentimos orgulhosos pelo fato de sermos tão poucos e estarmos dando uma resposta tão expressiva e eficiente para a sociedade.
ConJur — Mas o senhor não pode dizer de quanto é esse contingente?
Coelho Neto — Na prática, somos menos de dez mil homens.
ConJur — Precisaria de quanto?
Coelho Neto — No mínimo triplicar esse efetivo. Temos vivido um momento de muitas operações. Cada vez que Brasília tenta montar uma operação de grande porte, desfalca as superintendências do país inteiro. De repente os colegas saem em aviões da FAB [Força Aérea Brasileira], dormem em alojamentos precários, vão para o meio do mato, em condições assim. Temos uma realidade cruel. São diárias baixíssimas, condições muito precárias do ponto de vista da logística. Mas a Polícia Federal enquanto instituição e com a dedicação dos seus servidores vem dando uma resposta excelente.
ConJur — O governo não está usando politicamente toda essa visibilidade da Polícia Federal para fazer marketing?
Coelho Neto — Antes de responder, eu gostaria de fazer duas considerações. Até um tempo atrás a Polícia Federal trabalhava e quem aparecia era o Ministério Público. A Polícia Federal trabalhava, a CPI aparecia. Isso gerou um sentimento de insatisfação muito grande dentro da PF. Havia um sentimento dentro da própria categoria de que a Polícia Federal deveria ter um pouco mais de visibilidade. A segunda questão parte de uma afirmação do Paulo Lacerda [diretor-geral da Polícia Federal]. Quando ele examinou o plano de segurança do Presidente Lula para traçar o seu plano de trabalho, a Polícia Federal aparecia como uma caixa preta. Surgiu então a idéia de que as operações da Polícia Federal deveriam ter visibilidade. Houve um casamento preliminar entre essas duas questões. Efetivamente, era necessário dar visibilidade.
ConJur — E quanto ao uso político da Polícia Federal?
Coelho Neto — Eu não diria que o governo Lula está usando a Polícia Federal. Eu diria, sim, que hoje em dia o governo Lula tem duas muletas: uma é a Polícia Federal e a outra é o Palocci. A diferença é que a Polícia Federal pode até cair, menos o Palocci. Porque se o Palocci cair, o Lula cai junto. Mas não tenho duvida que a Polícia Federal faz a agenda positiva do governo.
Maurício Cardoso é diretor de redação da revista Consultor Jurídico
Revista Consultor Jurídico, 18 de julho de 2005
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