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Caso DNER

Leonel Rocha, Mino Pedrosa e Ricardo Miranda

O esquema de remessas ilegais de dólares ao Exterior descoberto dentro do Ministério dos Transportes, e denunciado por ISTOÉ na edição de 10 de outubro, chegou na ante-sala do ministro Eliseu Padilha, do PMDB. Depois de flagrar o consultor jurídico Arnoldo Braga Filho – um funcionário público que, até ser afastado no dia 5 de outubro, ganhava R$ 5,2 mil por mês e movimentava milhões de dólares em contas bancárias no Exterior –, o Ministério Público apura agora o envolvimento de outros dois assessores diretos de Padilha.

Raimundo Dantas dos Santos, chefe de gabinete, e Marco Antônio Rossi Tozzati, chefe da Assessoria Parlamentar, cujos gabinetes são vizinhos ao do ministro, estão sendo investigados por envolvimento com doleiros do esquema de evasão de divisas montado no centro do poder em Brasília.

Em uma carta de nove páginas entregue ao MP, o doleiro Charbel George Nicolas, o Charles, entregou seu cliente Arnoldo Braga e outros superdoleiros para se livrar de destino pior. Acusado de desviar para o próprio bolso US$ 1,5 milhão, parte do dinheiro que deveria ter depositado nas contas de Arnoldo, Charles foi ameaçado de morte, fugiu para o Líbano e abriu o bico. O que se sabe agora é que, antes da fuga de Charles, o assessor parlamentar de Padilha se encontrou com Fayed Traboulsi, o maior doleiro da capital e outro elo do esquema, para decidir como pressioná-lo a devolver parte do dinheiro roubado.

ISTOÉ confirmou que Tozzati foi pessoalmente à sede da Trust Exchange Turismo, agência de viagens de Fayed que, como é de praxe, funciona como fachada de sua casa de câmbio clandestina.

Tozzati, falando em nome de Arnoldo e Raimundo, queria saber o que estava sendo feito para pressionar Charles a devolver o que roubara. O contato foi confirmado por mais de uma fonte.

Fayed foi o encarregado por Arnoldo de pressionar Charles e, de acordo com a carta do doleiro ao MP, chegou a ameaçá-lo, acompanhado de policiais a seu serviço, em um encontro no escritório da Trust. O MP tem informações de que Fayed tem uma rede de proteção formada por policiais civis e federais, entre eles Paulo Magalhães Pinto, ex-superintendente da Polícia Federal no DF, que acaba de ser afastado do cargo depois que uma prisioneira sob sua guarda, a cantora mexicana Gloria Trevi, apareceu grávida. Fayed chegou a fazer uma proposta a Charles: podia ficar com parte do dinheiro desviado desde que devolvesse pelo menos US$ 450 mil. Charles, porém, achou mais seguro deixar para trás seu escritório All Travel, localizado no Hotel Nacional, e fugir para seu país de origem.

Já se conhecem pelo menos três contas no Exterior abertas em conjunto por Arnoldo e sua mulher, Elizabeth Alves da Silva Braga – também funcionária pública, só que do Ministério do Planejamento. Uma no Audi Bank, em Nova York, outra no Ocean Bank, em Miami, e uma terceira em um escritório do Audi Bank, em Miami – usado como ponta-de-lança para remessas de dinheiro à Suíça. As contas foram abertas pelo casal junto com o doleiro Charles, que passou a ser o operador do esquema. Segundo a investigação, Arnoldo e seu grupo passaram a fazer grandes depósitos nas contas. Em maio deste ano, Arnoldo entregou US$ 450 mil em dinheiro nas mãos de Charles para que fosse depositado na conta do Audi Bank em Miami. Só que o doleiro resolveu trair o cliente. Desviou os US$ 450 mil e outros US$ 950 mil depositados em Nova York para uma conta clandestina do ABN AMRO Bank no Uruguai. Arnoldo só descobriu que estava sendo roubado quando, ainda no Aeroporto de Guarulhos, após uma viagem, tentou saber por telefone o saldo de sua conta no Audi Bank. Não foi autorizado. No escritório do banco em São Paulo foi informado que seu dinheiro tinha migrado para Montevidéu. Segundo apurou ISTOÉ, essa conta também foi esvaziada e só restaria um saldo de US$ 20 mil. Nos Estados Unidos, o caso já está sendo investigado pelo FBI, a polícia federal americana.

Outros políticos – O MP investiga a abertura de outras contas e também a informação do doleiro, em sua carta-denúncia, de que outras autoridades e políticos estão envolvidos no esquema de remessa de dólares para o Exterior. Segundo Charles, os negócios com câmbio de autoridades e de políticos interessados em esconder fortunas do Exterior são centralizados pelos doleiros Fayed e Kamon. O último atua como doleiro em Brasília há 15 anos e tem escritório no Hotel Continental. O primeiro tem seu escritório no Hotel Manhattan, na mesma loja onde já trabalhou outro doleiro famoso, Chaker Nasr, assassinado misteriosamente há cerca de cinco anos. Fayed comprou o ponto e, de acordo com o denunciante, manteve o funcionário Chico Gordo, apontado como"laranja"no esquema de remessa ilegal de dólares usado por muitos políticos. Fayed esteve envolvido em outro escândalo ligado a políticos: tomou um prejuízo de US$ 200 mil num suposto negócio com o PFL, no qual até agentes da Polícia Federal estavam envolvidos. Além do MP, que já pediu a abertura de inquérito à Polícia Federal, o esquema está sendo investigado pela Corregedoria Geral da União e pelo Congresso.

Revista Consultor Jurídico, 18 de fevereiro de 2002, 18h48

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