Segunda Leitura

Estratégias nas profissões jurídicas dos 40 aos 70 anos

Autor

  • Vladimir Passos de Freitas

    é professor de Direito no PPGD (mestrado/doutorado) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná pós-doutor pela FSP/USP mestre e doutor em Direito pela UFPR desembargador federal aposentado ex-presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Foi secretário Nacional de Justiça promotor de Justiça em SP e PR e presidente da International Association for Courts Administration (Iaca) da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e do Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário (Ibrajus).

7 de maio de 2023, 10h07

Ocupar espaço no mercado de trabalho é o sonho de todos, ou quase todos, estudantes de Direito. Quase todos, porque alguns ali estão sem qualquer vocação, mais para atender o desejo dos pais ou para obter o título de bacharel em Direito, que lhes dará alguma vantagem na profissão que exercem ou, simplesmente, porque desejam ser estudantes eternos, passando de um para outro curso, valendo-se de bolsas, até onde for possível.

Os 40 anos são um marco na vida de todos. Não por acaso diversas obras tratam do tema há décadas, podendo ser citada para os homens, a título de exemplo, "A Crise do Homem na Meia Idade — Recomeçando a Vida aos 40".[1] O nosso corpo não será o mesmo e não adianta argumentar que a Jane Fonda tem mais de 80 e está linda.[2] Mas, por óbvio, uma vida bem regrada, acompanhamento médico e boa alimentação ajudam muito.

As consequências da chegada aos 40 não são idênticas para homens e mulheres. Porém para ambos, como regra geral, esta idade traz perda de massa muscular, tendência à dilatação da barriga, redução do metabolismo, perda da densidade óssea, surgimento de cabelos brancos e, para os homens, redução dos níveis de testosterona.

Se as coisas mudam do ponto de vista físico, por vezes causam reflexos graves no psicológico (quarentões passam a comportar-se como adolescentes, adotando roupas e falando como jovens). E se alteram com tanta força o comportamento das pessoas, por óbvio podem interferir nas suas atividades profissionais. Dali para a frente as mudanças se sucederão, valendo fazer a separação em decênios que, por óbvio, não são marcos imutáveis, variando conforme as pessoas.

Aos que optaram por exercer a advocacia privada, os 40 anos já sinalizaram se a escolha foi boa ou não. Se o escritório não avançou, o dinheiro mal dá para pagar as contas, o melhor a fazer é mudar de rumo, por exemplo, preparando-se e adotando uma nova área de atividade jurídica ou mesmo mudando de profissão.

Mas quem chegou aos 40 anos com sucesso, tudo caminhando bem e com boas perspectivas, também precisa mudar. Isto tem sentido? Sim. O mudar, aí, é no sentido de inovar, de atualizar-se, de adaptar-se a novos desafios. Por exemplo, se for uma advogada de família, fazer uma pós em psicologia social poderá ser uma boa medida. Mudar é o que fazem as empresas permanentemente, pois a imobilidade já significa ficar para trás.

Nas carreiras públicas o foco será outro. A remuneração está garantida ao fim do mês, portanto a questão é de realização pessoal e não de sobrevivência. Com 40 ou mais anos, a pessoa já tem noção de seus limites, se avançará na luta por altas posições ou se optará pela acomodação. E aí surge uma questão essencial, nem todos são iguais.

Alguns têm ambições legitimas de ocupar posições na alta hierarquia. Outros, por temperamento, preferem permanecer em posições mais cômodas, seguindo a rotina de uma vida mais tranquila. O que não pode é um inquieto talentoso permanecer na mesma rotina por toda a sua vida, pois ficará, com certeza, frustrado e infeliz.

Aos 50 anos entra-se em uma nova etapa. Na minha opinião, nela estão as pessoas com o maior potencial de uma rica produção profissional, pois já possuem boa experiência de vida, podem estar em ótimas condições físicas e emocionalmente estão mais estáveis, inclusive. Mas a procura por um geriatra é imperiosa. Esta é a hora, não aos 70 como alguns supõem. Ele deverá conduzir todas as prescrições médicas para que o paciente tenha uma vida saudável.

Spacca
Ainda nas carreiras públicas, os cinquentões já perceberam que não é fácil mudar o mundo. Mais realistas, quando vocacionados adaptam-se ao sistema, sem renunciar aos seus ideais. Economicamente, se souberem conduzir bem as suas finanças, acham-se em condições de estabilidade. Nada lhes falta, pois os vencimentos são superiores aos das demais áreas.

Mas a forma de ascensão não é a mesma. Carreiras mais novas, como a Defensoria Pública, podem possibilitar acesso rápido à cúpula. Em outras, o acesso é mais demorado. Um juiz pode levar de 25 a 30 anos para chegar ao Tribunal. Na Justiça Federal alguns entram sabendo que jamais irão ao TRF, pois a fila é grande e os cargos, poucos. Que fazer?

O melhor a fazer é não se acomodar, tornando-se um desagradável insatisfeito. O jurisdicionado nada tem a ver com as frustrações de quem quer que seja. Ademais, exercer a profissão com má vontade é o caminho certo para uma vida infeliz.

Em tal situação, a solução será: a) procurar participar de uma área do Direito de seu especial interesse, aprimorando-se em cursos de mestrado/doutorado; b) ter uma experiência no exterior, valendo-se da permissão que muitos tribunais dão, voltar com títulos, conhecimentos, utilizando-os a favor da sua Justiça e em proveito próprio (oportunidades que surjam); c) se a insatisfação é muito grande e a aposentadoria está longe, fazer um concurso para o foro extrajudicial, com possibilidades de ganhos bem maiores.

Chegam os 60 anos. Os sonhos são menos ambiciosos. Decepções com o sistema ou com pessoas marcaram algumas passagens. A possibilidade de aposentar-se está mais próxima. É possível manter o ideal? A alegria? A resposta é sim, se não naturalmente, pelo menos como forma inteligente de viver. O geriatra agora não é opção, mas obrigação.

Aos sessenta e pouco, os que se cuidaram bem e tiveram a vida sem grandes problemas estressantes têm condições físicas muito favoráveis. Apesar da lei brasileira dar aos de 60 anos a condição de idoso, a verdade é que alguns têm força, experiência e vontade para fazer as coisas. Neste caso, a situação é ótima.

Todavia, muitos, a maioria mesmo, estão desencantados. Já viram muitas coisas na vida, assistiram entrar e sair governo prometendo melhores dias, quando, na verdade, a corrupção, o número de moradores de rua e outras mazelas aumentam dia após dia. A partir daí, a tendência é se tornarem burocratas, meros repetidores de práticas antigas. E no caldo do desencanto, poderão ceder às tentações. Não me refiro a receber dinheiro, mas sim às formas mais suaves de entregar-se.

Um emprego para o filho, um cargo em comissão para a filha, uma vaga na creche para o neto, o empréstimo de uma casa na praia, esses favores da vida com os quais a sua consciência será complacente. E que, claro, serão cobrados com juros e correção monetária. Aí pode perder-se toda uma carreira feita com dignidade.

Os que chegam aos 70 anos trabalhando, dividem-se em dois grupos: a) aposentados apegados ao poder, receosos de perder prestígio e parte do que ganham em atividade; b) uma minoria de abnegados que exercem um papel muito relevante, pois amortecem os arroubos dos mais jovens e passam a experiência tida na carreira.

Poucos se preparam para o dia de limpar as gavetas e dar adeus. As mulheres levam a situação com mais sabedoria. Geralmente possuem outros interesses, são mais desapegadas do poder, mantém relações mais próximas com a família e dedicam-se a outras atividades. Os homens não costumam preparar-se e, um dia, veem-se fora da arena, excluídos das conversas, não encontram quem ouça as suas façanhas de anos atrás.

Aos 70 anos ou mesmo alguns anos antes, é importante preparar-se para o Dia D. É importante começar a: a) cultivar outros interesses (de cinema a pescaria); b) iniciar uma faculdade ou o curso com que sonhava; c) aproveitar o convívio com a família; d) escrever as suas memórias; e) dedicar-se à genealogia da sua família; f) ler os livros sempre adiados; g) assistir clássicos ou novos bons filmes; h) tudo o mais que a imaginação possa ofertar.

Mas a opção poderá ser outra: completa ociosidade. A estes vale a lembrança de Montaigne sobre a ociosidade, para quem "caracolando como um cavalo, cria ele cem vezes maiores preocupações do que quando tinha um alvo preciso fora de si mesmo".[3]

O importante é colocar a carteira funcional na gaveta e não comentar com ninguém o que fez ou não fez. Esqueça. As pessoas, principalmente os jovens, não têm interesse em façanhas ocorridas há mais de um mês. Fazer novas amizades, participar de um clube de servir, atuar como voluntário, tudo isto poderá ser fonte de alegria. Quando descobrirem sua função dirão, elogiando: "Imagine, ela foi procuradora do Estado e nem fala nisto, é uma pessoa muito simples".

E quando o dia chegar, saia de cabeça erguida, com orgulho do dever cumprido e de não ter contribuído para um Brasil pior.


[1] MAYER, Nancy. A Crise do Homem na Meia Idade – Recomeçando a Vida aos 40. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1978.

[2] El Pays. Oito décadas de Jane Fonda. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/14/cultura/1513272689_133791.html. Acesso em 5 mai. 2023.

[3] MONTAIGNE, Michel Seignevr. Ensaios. Capítulo VIII, Da ociosidade. São Paulo: Ed. 34, p. 71

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    é professor de Direito no PPGD (mestrado/doutorado) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná; pós-doutor pela FSP/USP, mestre e doutor em Direito pela UFPR; desembargador Federal aposentado, ex-Presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª. Região. Foi Secretário Nacional de Justiça, Promotor de Justiça em SP e PR, presidente da International Association for Courts Administration (Iaca), da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e do Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário (Ibrajus).

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