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Trabalho Contemporâneo

Pátria amada, Brasil! — Mirando o futuro sem se esquecer do passado

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Não haveria dia melhor para registrar meu orgulho de ser brasileiro e servir ao país desde meus 15 anos de idade. Retornando de férias, abro uma pequena exceção para dar um tom mais pessoal à coluna desta semana, fazendo quase que um desabafo de quem percebe certas mudanças preocupantes na forma que vivemos e nos relacionamos, com uma pitada de Direito.

Sou de família de classe média da zona norte do Rio de Janeiro, quatro irmãos criados de forma bastante tradicional em colégio religioso, cujos pais abdicaram de praticamente tudo em prol da educação dos filhos.

O sonho dos meus pais era formar cidadãos responsáveis, importantes para a sociedade, com autonomia e senso de dever com o próximo, praticando a bondade ou, no mínimo, não prejudicando ninguém pelo caminho trilhado.

Havia um código moral, valores bem assentados, pais atuantes e preocupados com a formação do caráter, além da natural atenção aos resultados escolares. Entendíamos a importância da estrutura forjada em nosso lar, passando pelo respeito à família e demais instituições, como a escola e seus professores, chegando à pátria.

Sete de setembro era uma data especial, era dia de acompanhar o desfile militar, na rua ou pela televisão. Na escola cantávamos o Hino Nacional, com o orgulho de fazer parte de uma nação. Desde cedo entendíamos o conceito de compormos algo maior e que cada um deveria contribuir com sua cota para a construção desta coletividade.

Adolescente, fomentei o sonho de integrar as Forças Armadas, escolhendo a Aeronáutica por causa da vontade de ser piloto de avião. Confesso que minha vocação, na época, foi bastante influenciada pelo filme "A força do destino", a tenra idade permitia esse tipo de orientação.

O fato é que batalhei bastante para realizar minha pretensão, foram dois anos estudando em jornada dupla, escola e curso, até ser aprovado no concurso da Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAr), tomando posse em 1988. Decidi o que queria sozinho e tive o apoio dos meus pais, que acreditaram em mim e custearam meus estudos.

Lembro não só da alegria que senti, mas principalmente do orgulho que meu pai teve em ver minha aprovação. Em janeiro daquele ano, fomos de carro para Barbacena, apenas eu e ele, para que me apresentasse iniciando minha carreira como militar. E foi ali, no quarto do Hotel Grogotó, no primeiro minuto depois da meia-noite, que meu pai falou a frase que jamais esqueci: "Filho, parabéns, agora você é federal!".

Os olhos dele brilhavam, eu me enchi de felicidade e assumi o papel a mim destinado, compreendendo que começava uma longa carreira pública onde realizaria sempre o meu dever. Entendi logo que seria um servidor público, alguém que abdica de algumas possibilidades na vida para cumprir uma missão.

Dentro da EPCAr, e depois na Academia da Força Aérea (AFA), aprofundei o sentimento que já nutria pelo país e desde cedo internalizei o Código do Cadete, que continua forjado em meu caráter: coragem, lealdade, honra, dever, pátria. Aos 15 anos jurei cumprir este código que norteia minhas atitudes até hoje.

Resolvi deixar a caserna, já com 19 anos, ao perceber que pilotar aviões não era minha vocação, mas mantive os valores que aprendi e o sentimento que aprofundei pelo nosso querido país.

Ingressei na faculdade de Direito e logo após fiz concurso público para continuar trabalhando, primeiro como técnico de Finanças e Controle no Ministério da Fazenda, depois como técnico judiciário e analista judiciário no Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro, e, uma vez formado, como juiz do Trabalho no Paraná, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, minha terra natal.

Somando tudo, já são aproximadamente 34 anos de serviço público federal aos 49 anos de idade e continuo me emocionando em cada cerimônia em que se entoa o Hino Nacional. Lembro sempre quando e onde tudo começou, renovando meu ânimo para continuar servindo ao país pelo brilho dos olhos do meu saudoso pai.

Neste ano, infelizmente, vejo que o 7 de setembro não mais é compreendido por boa parcela da população. A guerra ideológica, que também existe dentro da seara do Direito do Trabalho — e que tanto já aqui denunciei —, macula uma das datas mais importantes para formação do sentimento de patriotismo e do vínculo para construção de uma nação.

Usar o verde e amarelo, levantar a bandeira brasileira, conhecer e cantar o hino são manifestações que todos nós, adultos e crianças, deveríamos cultivar nas escolas e nos lares. Não podemos deixar ninguém se apropriar da narrativa quando o tema é o destino de nosso país e o culto às tradições que nos sustentam para o futuro.

Sim, eu sei que este último parágrafo evoca uma filosofia conservadora. Apesar de não gostar de rótulos, pois qualquer grupo ideológico automaticamente limita as possibilidades de seus integrantes, não nego que simpatizo com várias ideias defendidas pelo conservadorismo, principalmente no que diz respeito ao reconhecimento de que as mudanças em sociedade devem acontecer, mas não através de rupturas violentas.

A construção e a reconstrução de valores devem ocorrer naturalmente, sem imposições, mirando o futuro sem se esquecer do passado. Uma pauta básica de valores morais, testados longamente pela sociedade, possui o papel de ser um norteador para as ações, permitindo que novas ideias surjam a partir da natural evolução da própria sociedade.

Estamos perdendo a construção das bases que, no passado, trouxeram bons frutos, entre eles o sentimento de patriotismo. A confusão criada pela chamada "guerra cultural" vem afastando as pessoas do cenário, silenciando cidadãos de bem, produzindo uma massa de omissos.

Precisamos resgatar os balizamentos para criar limites às novas gerações, centrados nos valores cristãos que fazem parte da nossa formação cultural. Independentemente de religião, o código de ética do amor cristão precisa voltar aos corações das famílias.

Claro que a opção pelo afastamento é compreensível. Eu mesmo já sofri bastante por expor minhas ideias neste espaço. Fui xingado, investigado, perseguido e quase punido simplesmente por produzir artigos científicos expondo minhas opiniões, que são contrárias ao politicamente correto da área trabalhista.

A comemoração da nossa independência precisa ser um símbolo da retomada de esperança em um futuro melhor, que somente será construído lentamente a partir da educação, que começa no lar e no seio da família.

Cada um de nós precisa relembrar sua missão na vida, retomar a percepção daquilo que realmente importa, abdicar de certos desejos em prol do cumprimento do dever ético. Não mudaremos nossa realidade a partir de nenhum salvador, mas pela contribuição de cada indivíduo imbuído do espírito coletivo fundado no amor ao próximo.

Desejo a todos, portanto, um ótimo feriado. Que possamos reconectar o país ao caminho da paz e da prosperidade, afastando de vez o fantasma da fome e erradicando as desigualdades, seguindo o lema da ordem e do progresso.

Sigo, aqui, exercendo minha missão sem esquecer dos olhos do meu pai, a quem posso garantir que jamais deixarei de ser "federal".




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 é juiz do Trabalho no TRT-RJ, mestre e doutor em Direito pela PUC-SP e diretor da escola associativa da Associação Brasileira de Magistrados do Trabalho (ABMT).

Revista Consultor Jurídico, 7 de setembro de 2021, 9h38

Comentários de leitores

2 comentários

Para refletir...

Eduardo. Adv. (Advogado Autônomo)

As condições referidas no artigo não poderiam ser as mais adequadas para que indivíduos, em igualdade de condições, lograssem êxito.
Que todas as escola públicas tivessem, nas suas merendas, a mesma qualidade dos "rancho" oferecido nas escolas de oficiais das PMs e das FFAA.
Quem dera o Direito (ao) do Trabalho (digno!) fosse capaz e efetivo para que muitos tivessem, talvez, além do mínimo existencial também alguma chance real de propiciar melhores chances à prole.

Comentário

Afonso de Souza (Outros)

O direito AO trabalho não pode ser um direito a ser garantido pelo estado (em que pese todas as pessoas normais desejarem trabalho, e digno, para si mesmas e para os outros).

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