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Embargos Culturais

Paulo Rónai, o homem que aprendeu o Brasil

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"Paulo Rónai, o homem que aprendeu o Brasil", de Ana Cecília Impellizieri Martins, ganha, de longe, no quesito melhor biografia de 2020 (1). A felicidade na escolha do biografado contribui para essa constatação, o que se confirma com a qualidade da narrativa, com as fontes, e com a paixão da biógrafa pelo sujeito-objeto da pesquisa. A autora quebra qualquer preconceito da historiografia positivista, para a qual a qualidade da narrativa predicaria na neutralidade do narrador. A autora não é neutra. Descreve o biografado com ênfase e afeto. É essa, creio, a qualidade que faz dessa biografia uma grande biografia.

Paulo Rónai nasceu em Budapeste (1907) e faleceu no Rio de Janeiro (1992). Filólogo, tradutor, ensaísta, crítico, latinista, professor, autor de imensa obra, Rónai é nome importantíssimo em nossa história cultural. Judeu, sofreu perseguição na Hungria, aliada ao governo nazista, ao qual se deve a perda — entre tantos outros — da primeira esposa, Magda, com quem se casou por procuração, e que não conseguiu vir para o Brasil, onde o marido a esperava.

Na Hungria, Rónai teve que trabalhar em campo de prisioneiros. Não esmoreceu, e segundo a biógrafa fez "da leitura um antídoto contra o horror de seu aprisionamento". Quanto à primeira esposa, explica a biógrafa, Rónai jamais saberia o que exatamente ocorrera: "assassinada como muitos judeus húngaros às margens do Danúbio? Jogada no rio gelado para compor a monstruosa estatística de desaparecidos?" Mais um drama entre milhões de dramas ocorridos.

Rónai entusiasmou-se pelo português. Nossa língua lhe parecia um latim falado por crianças ou por velhos desdentados, dada a multiplicação de vogais. Um amigo teria lhe dito que o português era "uma língua alegre e doce como um idioma de passarinhos". Rónai traduziu para o húngaro alguns poetas brasileiros. Conheceu o poeta e diplomata Ribeiro Couto, a quem se deve empenho excepcional na obtenção de um visto e de um bolsa de estudos. Deveu muito também ao diplomata Otávio Fialho. Rónai chegou no Brasil em 1941. O ponto central dessa fascinante biografia consiste no empenho da autora em explicar como o húngaro Pál Rónai tornou-se o brasileiro Paulo Rónai. E conseguiu.

O livro de Ana Cecília revela ao leitor, na reconstrução da trajetória de Rónai, a superação por meio do estudo e do trabalho. O biografado obcecou-se com o Brasil, aprendendo nossa língua, ainda na Hungria. Autodidata, metódico, focado, Rónai (conta-nos Ana Cecília) recebeu uma carta de felicitações de Getúlio Vargas. Bem entendido, num tempo no qual o Itamaraty era duríssimo com pretensões judaicas (a tal da Circular Secreta nº 1127, de 7 de junho de 1937). O papel de Oswaldo Aranha nesse contexto ainda acende polêmicas. A restrição da imigração, por intermédio do Decreto nº 3175, de 7 de abril de 1941, baixado por Vargas, era um grande obstáculo. A passagem de Stefan Zweig entre nós, e alguma conivência com a propaganda getulista, leva ao limite essa dramática questão. Zweig suicidou-se em Petrópolis. Ana Cecília de algum modo compara Zweig com Rónai, e poderíamos acrescentar Otto Maria Carpeaux, austríaco que dividia ampla gama de interesses com a literatura brasileira.

Tem-se nessa biografia uma série de alusões relativas às amizades que Rónai cultivou: Ribeiro Couto, Aurélio Buarque de Holanda (com quem organizou e publicou a monumental antologia do conto mundial, "Mar de Histórias"), Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa. Segundo Drummond (conta-nos a biógrafa) Rónai era um homem de três pátrias: a Hungria, o Brasil e o sitio "Pois É", em Nova Friburgo, cuja casa foi projetada por Nara Rónai, esposa e companheira de vida de Rónai. Uma mulher encantadora, culta, arquiteta, esportista, exímia nadadora.

A autora teve acesso aos diários do biografado. Colheu com paciência as anotações do filólogo, a partir das quais identificou as tensões e grandes problemas que Rónai enfrentou. O processo de aprendizagem do português é descrito, e nesse ponto pode-se acrescentar a leitura do próprio Rónai, “Como aprendi o português”. Rónai viveu em Budapeste, uma cidade marcada por uma cultura erudita e pela presença de uma geração que incluía o filósofo Gyorgy Lukács, o compositor Béla Bartók e o pintor Károly Ferenczy. A capital da Hungria fora também capital de uma monarquia dual (Áustria-Hungria). Nas ruas dessa belíssima cidade conviviam o alemão e o magiar, a par do francês, uma língua franca, um idioma internacional de cultura.

A biógrafa nos conta o interesse de Rónai com Balzac, sobre quem escreveu uma rica biografia. No Brasil, Rónai é um dos responsáveis pela coordenação da tradução e da edição dos vários volumes da "Comédia Humana". Rónai foi convidado por San Tiago Dantas para proferir conferências sobre Balzac na Faculdade Nacional de Filosofia. O pai de Rónai era um livreiro, daqueles que entende do ofício, e a paixão pelos livros certamente radicava nessa referência de família. Miksa, o pai de Rónai, conseguiu abrir a própria livraria com o dote de casamento, aportado por sua esposa, Gisela Lovi. Também nos conta a biógrafa que a livraria do pai de Rónai era um ponto de encontro de advogados. Miksa também vendia livros jurídicos.

Na biografia de Paulo Rónai o pano de fundo da era getulista permite que a autora explore algumas ambiguidades. O governo que "torturava, reprimia e prendia" (Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, e eu acrescento Hermes Lima e Aparício Torelly) era o mesmo governo que promovia e conciliava (e nesse aspecto a presença de Gustavo Capanema no Ministério da Educação, com Carlos Drummond como chefe de gabinete, é disso exemplo).

Há no livro de Ana Cecília passagens dramáticas da vida de Rónai. O biografado auxiliava um tradutor juramentado que traduzia várias línguas, mas que não sabia húngaro. Chamado para a urgente tradução de um documento, Rónai traduziu a notícia que dava conta da morte do próprio pai. Trata-se da tradução mais dolorosa que fez na vida. Há também referências pitorescas. Rónai fora ao Itamaraty onde conheceria Guimarães Rosa. Foi recebido e secamente tratado. Fica sabendo, em seguida, que o Guimarães com quem falou não era o escritor mineiro que procurava, de quem se tornaria grande amigo.

A autora não caiu na cilada do romance histórico, que não é nem romance e nem história. De igual modo, não é refém do impressionismo. Montou um painel com informações relevantes que sintetizam a vida de um grande brasileiro, ainda que nascido na Hungria e que tenha aprendido o português com mais de 30 anos de idade. Como se lê nesse livro encantador, não escolhemos nossos pais e nossas famílias. Mas podemos escolher nossos amigos e nossa pátria, que é justamente onde nos sentimos livres e de bem com nossas vidas. Porque, para onde vamos, nos carregamos.

(1) Dedico esse pequeno ensaio a Paulo Roberto de Almeida, diplomata e escritor, “scholar”, na acepção mais absoluta do termo, lúcido, erudito, instruído e intelectual corajoso.




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 é advogado em Brasília, livre-docente pela USP e doutor e mestre pela PUC-SP.

Revista Consultor Jurídico, 13 de junho de 2021, 8h00

Comentários de leitores

7 comentários

Paulo Rónai

Duval Vianna (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

Esta coluna me leva de volta aos meus anos de ginasial, na década de 1950, no Colégio Municipal (e depois Estadual) Souza Aguiar, no Rio de Janeiro, quando tive o privilégio de ser aluno de Paulo Rónai, não só de Francês como também de Latim, durante os quatro anos do ginásio. Lembro-me do livro adotado — de autoria dele — onde narrava as aventuras dos irmãos Jean e Colette e com os quais aprendíamos as primeiras noções da língua francesa. Era um professor um tanto fechado, rigoroso (quem não demonstrava um mínimo de conhecimento e estudo recebia, nas sabatinas orais, de plano, um “Zêrô” como nota). Entretanto, era mais afável com os que demonstravam interesse na matéria. Por muitos anos ele me acompanhou, pela leitura de suas obras e traduções, período em que pude ter a noção da sua importância na minha formação e na literatura brasileira. Obrigado, Professor.

Paulo Rónai

Eduardo Finn (Delegado de Polícia Estadual)

Parabéns ao autor por trazer o comentário da biografia de um dos maiores intelectuais brasileiros, embora nascido na Hungria, que já tivemos. Fizesse somente a coordenação da tradução da Comédia Humana já estaria indelevelmente assentado no mundo das letras. Afinal, foram 89 volumes, cujos tradutores foram "craques" como Drummond e Quintana, além de outros que nem lembro. Mas além disso, deixou livros didáticos (ensino de Latim, p. ex.), além do citado Mar de Histórias( co-autoria Aurélio B. H.) crônicas e muito mais. E parabéns por citar P. R. de Almeida ao final, que deve ser reverenciado por seus estudos e publicações.

Além dos livros

CESAR FARIA (Outros)

E ainda é pai da Cora Ronai...

Além mar

O ESCUDEIRO JURÍDICO (Cartorário)

As duas guerras mundiais (WI e WWII) permitiram que, muitos europeus aportassem no Brasil e enriquecessem a nossa cultura, aquela que o Presidente da Argentina, Alberto Fernández disse "ter vindo da selva".
E, diante do nosso comportamento durante a pandemia, com pancadões em bairros de ricos e de pobres, todos descumprindo o isolamento social, temos que dar razão ao Presidente portenho, porque os argentinos possuem ganhadores do Prêmio Nobel.
Vejam os ganhadores:
César Milstein, Fisiologia ou Medicina, 1984
Adolfo Pérez Esquivel, Paz, 1980
Luis Federico Leloir, nasc. França, Química, 1970
Bernardo Houssay, Fisiologia ou Medicina, 1947
Carlos Saavedra Lamas, Paz, 1936.

O Brasil é somente para...derrotados!!!

Oswaldo Cruz

CESAR FARIA (Outros)

Quem tem Oswaldo Cruz não precisa de Prêmio Nobel.

Por una cabeza vacía

amigo de Voltaire (Advogado Autônomo - Civil)

Simplesmente cômico ver o atual presidente da Argentina , com aquela tremenda pinta de cucaracho, falando das origens europeias da Argentina. Pobres argentinos, hoje argentinos pobres com saudades do tempo de Gardel. Hoje a Argentina é um Uruguai piorado. Quando V. começa a invocar o passado distante, é porque a coisa tá feia.

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