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Senso incomum

Urnas eletrônicas, razão cínica e negacionismo. Ou conspiração?

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O ministro Gilmar Mendes teve uma sacada genial. Como já não existem argumentos que convençam terraplanistas sobre o tema "urna eletrônica", o ministro partiu para a ironia, dizendo "Helio Negão e Bia Kicis eleitos são a prova de que a urna eletrônica não tem fraude".

Bingo. Pelo jeito, o ministro Gilmar se deu conta de que, nestes tempos de "tudo vira narrativa", a velha tese de que "contra fatos não há argumentos" está superada pela fake-tese de que "contra argumentos não existem fatos".

Bom, Nietzsche já havia instalado o niilismo ao dizer que "não há fatos; só existem interpretações" (ao que Eco contra-argumenta dizendo: seria ele mesmo, Nietzsche, uma interpretação?). Nietzsche, o mesmo quem, dizem, tinha medo de vaca. Mas a vaca não é uma interpretação?! (Aqui, o estagiário levanta a plaquinha para avisar que é uma piada.)

Peter Sloterdijk contrapõe o bem-humorado kynicism grego, por vezes mal-educado, ao cinismo moderno. E propõe uma crítica da razão cínica (Kritik der Zynischen Vernunft). Genial.

E como ele faz isso? Ele pega a clássica frase de Marx "Sie wissen das nicht, aber sie tun es" (Eles não sabem o que fazem, mas fazem mesmo assim), para "eles sabem o que fazem e continuam fazendo do mesmo modo". Isto é: a pessoa sabe muito bem da falsidade, tem plena ciência de um determinado interesse oculto, mas, mesmo assim, não renuncia à falsa tese.

Isto é: mesmo sabendo que a urna eletrônica é confiável, etc, etc, continuam a dizer que é corrompível. Isso é cínico. Por isso precisamos de uma crítica a essa "razão cínica". Talvez o ministro Gilmar tenha colocado os pressupostos iniciais para essa construção tupiniquim da Kritik der Zynischen Vernunft. Desvelar o cinismo dos cínicos é tarefa de quem acredita que fatos existem. E importam. Eu sou daqueles que acredita em fatos. Aliás, de há muito inverto a frase clássica de Nietzsche "não há fatos, só há interpretações" para "só existem interpretações porque existem fatos".

Só um contra cinismo para mostrar a um negacionista que vacinas funcionam, que a terra é esférica e coisas desse quilate.

Voltando à urna eletrônica: como teria sido a conspiração para que Bolsonaro continue a sustentar que as eleições passadas foram fraudadas? Afinal, ele venceu essas eleições. Fosse o caso de fraude, por qual razão os fraudadores teriam deixado que ele ganhasse? Desculpem-me, mas há limites nas discussões. Há limites para tudo. Até para o ridículo. Fatos existem, sim.

Afinal, para não alongar a conversa, por qual razão os conspiradores (fraudadores) deixaram Hélio Negão e Bia Kicis (sem contar uma infinidade de deputados que hoje denunciam a "fraude da urna eletrônica") se elegerem e não alteraram o algoritmo? Incompetentes esses fraudadores. Poxa. Fizeram uma fraude e deram um tiro no pé?

É muita conspiração. E uma conspiração tiro-no-pé.

O mais "brilhante" disso tudo é que, se há uma tese conservadora quase que por definição, é o senso de realidade. Os conservadores à brasileira (ou assim auto proclamados), porém, distorcem a realidade para encaixá-la nas narrativas.

Ora, se a verdade é relativa, a própria frase "a verdade é relativa" é... relativa. Então, que me deixem em paz com minha ortodoxia não-relativista num planeta redondo (isso é fato!).

Continuarei fazendo como Keynes que, após dar uma opinião, foi perguntado sobre um cenário no qual os fatos seriam outros. Keynes disse o seguinte:

"Quando os fatos mudam, eu mudo de opinião. E o senhor, o que faz?"

Pois é.

Permito-me, assim, lançar as bases, na linha da ironia feita pelo ministro Gilmar, da nova Crítica da Razão Cínica Brasileira (CRACIBRA). Uma epistemologia do cinismo.

Absolutamente necessária.




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 é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito. Sócio do escritório Streck e Trindade Advogados Associados: www.streckadvogados.com.br.

Revista Consultor Jurídico, 15 de julho de 2021, 8h00

Comentários de leitores

38 comentários

Narrativas

Gabriel Severo de Oliveira (Estudante de Direito)

O que interessa é a narrativa para manter a base eleitoral mobilizada diante da iminente derrota.

Seriam auditadas todas as urnas ou apenas um percentual com base em algum modelo estatístico/atuarial?

A primeira hipótese me parece inviável. E, adotando a segunda, com certeza não faltariam as denúncias bombásticas no Whatsapp sobre algo como "somente 5% das urnas são auditadas!" ou "em Itapipoquinha da Serra do Noroeste não foi auditada a urna!".

Com a perda de tração das notícias falsas (que se servem muito bem mas têm o inconveniente de eventualmente esbarrarem com a dura realidade), o interesse da pós-política é, agora, tumultuar o processo eleitoral. Podem mudar como bem desejarem, seja o voto em papel, pedrinha escura ou pedrinha clara em urna de argila, todos em uma praça levantando os braços, enfim, pode mudar até mesmo pra cara ou coroa, ao final, se o lado da barbárie perder, não vale. E a horda seguirá babando o ódio.

P.S: Fico feliz de ver um juiz da comarca onde resido sendo firme na defesa do processo eleitoral e das urnas aqui neste espaço.

Fatos e Interpretações

Rejane G. Amarante (Advogado Autônomo - Criminal)

FATO -

(...) "Em meio a questionamentos sobre a segurança das urnas, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciou o descarte de 83,4 mil urnas. Recentemente o órgão lançou edital para a contratação de uma empresa para reciclar os equipamentos."(...)

(...) "Segundo o TSE, as urnas foram usadas nas eleições de 2006 e 2008 e ficaram ultrapassadas. Elas não possuem o mecanismo de chip que garante a segurança digital. O Tribunal disse ainda que não há espaço nos depósitos para manter os equipamentos."(...)

FONTE -
https://www.contrafatos.com.br/tse-descarta-834-mil-urnas-eletronicas-apos-fim-da-vida-util/

MINHA INTERPRETAÇÃO - Acho muito suspeito.

***Cada urna é usada numa seção eleitoral que, em média, tem 350 eleitores. Se multiplicarmos o número de 350 eleitores pelo número de urnas a serem "descartadas", ou seja, 83,4 mil, chegaremos ao resultado de 29.050.000. Isto é, 29 MILHÕES de votos manipuláveis, uma vez que o próprio tribunal reconhece que as urnas não têm o chip de segurança digital.

Favor ler as datas com atenção

Daniel André Köhler Berthold (Juiz Estadual de 1ª. Instância)

Urnas eletrônicas usadas nas eleições de 2006 e 2008 são, agora, em 2021, consideradas inseguras. Depois daquelas eleições, já tivemos as de 2010, 2012, 2014, 2016, 2018 e 2020.
Se uma pessoa, hoje, compra computador para substituir o que usava em 2008, pode-se dizer que seja esbanjadora? Afinal, por que trocar de equipamento, só porque se passaram 13 anos? Nesse tempo, nem apareceram novidades na área de Informática, não é mesmo?

Dr. Berthold, quem diria ...

Rejane G. Amarante (Advogado Autônomo - Criminal)

Resolveu sofismar.

Crítica da razão cínica a la Kant

Ricardo D N Pereira (Advogado Autônomo)

Quanto eu penso que a matéria de crítica à razão está concluída (vide crítica à razão pura e crítica à razão prática de Kant), eis que a pós-modernidade nos oferece a crítica da razão cínica! Ótimo contra-argumento aos não-argumentos, estes sem qualquer rigor metodológico em tema de epistemologia.

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