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Embargos culturais

"A paz dura pouco", de Chinua Achebe, a corrupção e a decadência

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"Que consolo um morto poderia ter se soubesse que seu assassino vivia dilacerado pelos remorsos?" Essa questão, que não tem resposta fácil, porque os mortos já se foram, sugere uma relação entre ação e resultado. A responsabilidade moral de quem age é pessoal e intransferível. O arrependimento, como forma de redenção, não alcança aqueles que nossos atos dilaceram.

Esse esquema moral, que vincula ação, remorso e perdão, é um dos argumentos que sustenta a narrativa de "A paz dura pouco", do escritor nigeriano Chinua Achebe (1930-2013). Enfatizo, no entanto, que não se trata de um livro de explicação simplificada. Cada um recebe de uma forma.

O autor é um dos principais nomes da literatura africana contemporânea. Seus romances exploram corajosamente conjunto de estereótipos que marcam visões etnocêntricas da África, bem como pretenso universo de tabus e de idolatrias. No contexto de um etnocentrismo que radica em Max Weber haveria pretensa e infundada concepção de que no contexto africano não haveria direito, haveria costumes; não haveria línguas, haveria dialetos; não haveria religiões, haveria crendices; não haveria literatura, haveria relatos esparsos. Um mundo encantado, porque ainda não moldado na racionalidade ocidental. Eu repudio essa compreensão. A África é muito mais do que noções estereotipadas de uma unidade inexistente, que se pretende evidente com um mapa recortado simetricamente. Esse mapa, sabemos, é o resultado da Conferência de Berlim (1883) e da partilha da África pelo homem europeu, que se dizia portador de um fardo civilizatório.

Em "A paz dura pouco" Chinua Achebe explora os temas da corrupção, dos privilégios, do preconceito, da arrogância, de costumes ancestrais, dos conflitos étnicos, do patrimonialismo, da relação entre metrópole e colônia e, principalmente, agora de um ponto de vista mais impressionista e intimista, a trajetória de uma personalidade que se transforma rapidamente. É o registro da decadência humana. Retoma-se, indiretamente, bem entendido, o arquétipo bíblico da expulsão do paraíso.

O moralista anticorrupção corrompe-se. Chinua Achebe desvenda um aspecto da condição humana. Cabe ao leitor decidir se o personagem anticorrupção (e corrompido) corrompeu-se por livre arbítrio ou por determinismo cósmico. Tinha o controle de suas ações? O leitor tem um dilema para enfrentar. A resposta (se encontrada) viria em forma de prêmio de autoanálise. O cotejo de nossas vidas com os problemas dos personagens oportuniza uma revisão crítica das linhas mestras de nossos próprios atos.

"A paz dura pouco" é a trajetória de um talentoso nigeriano, ainda que teimoso. É personagem regido pela ética da convicção (faço o que quero porque acho certo) e não pela ética da responsabilidade (faço o que é melhor, e o que suscita melhores resultados para todos). Agraciado com bolsa de estudos para estudar na Inglaterra, traiu os doadores, estudando língua inglesa, em detrimento de direito. Os financiadores formavam uma sociedade de nigerianos simples e trabalhadores que se esforçavam para dotar bolsas para que nigerianos pudessem estudar na Inglaterra.

Esperavam, assim, que os estudantes, além de devolverem os valores das becas, desempenhassem papeis importantes na sociedade e na política. Na Nigéria os brancos dominavam o espaço de decisão, cabendo aos nigerianos um pequeno espólio. Os nigerianos dominados se dividiam em dois grupos: os que alcançavam o mundo do trabalho dos brancos, geralmente com cargos públicos, e a massa, alijada de qualquer acesso a um trabalho leve e burocrático, que não entendiam como uma atividade para nigerianos. Ao longo de "A paz dura pouco'” essa divisão de funções é muito nítida.

Os agraciados que iam para a burocracia detinham todo tipo de privilégios. Compravam automóveis subsidiados. Gozavam quatro meses de férias. Furavam filas. Eram cidadãos de classe superior. Distanciavam-se inclusive de suas origens. Em todas as esferas da ação pública os papeis e requerimentos somente andavam na base do presente, da gorjeta e da promessa. O problema, para os oficiais corruptos, não era a corrupção; era a dificuldade que o agente público enfrentava para não entregar o produto que o corruptor lhe havia encomendado e antecipadamente liquidado.

O personagem central retorna da Inglaterra convicto de que esse estado de coisas deveria mudar. Trabalhará em um escritório que avaliava pedidos de bolsas de estudo no exterior. Inabalável em sua fé de reforma nacional, fez de sua ação um combate a qualquer forma de intervenção de terceiros em suas atividades. O país, no entanto, tinha suas próprias regras. O carro subsidiado dependia de um seguro cuja aquisição vinculava o comprador em várias operações das quais não conseguia se desvencilha: uma rede da qual não consegue se escapar. A sobrevivência na vida burocrática variava na razão direta da disposição do burocrata em se deixar aliciar. Um drama estrutural que abalava qualquer convicção de ordem moral. Esse, creio, é o ponto mais substancial desse romance: os limites que se poderia opor às vantagens que se ofereciam àqueles que se vendiam. Um grande livro para um debate ético.

A vida pessoal do burocrata amplia o magnetismo centrípeto da ação corruptora. A mãe doente. O pai (um pastor protestante) deslocado em uma sociedade refrataria à lógica da pregação evangélica. Uma paixão impossível, resultado do preconceito e de conflitos tribais cuja explicação é simplesmente inexistente. Simplesmente, é assim. Há uma apatia no enfrentamento de questões pessoais. O drama transcende para problemas de ética médica. A vedação legal da interrupção da gravidez fomenta riquíssimo mercado de medicina intrusiva. Um problema de saúde pública (central) passa a ser questão regulamentar e estatística. Alguns são penalizados. Não se pensa, em nenhum momento, na dimensão trágica e desumana da escolha. Um problema universal.

Há na referência narrativa amorosa do romance uma impossibilidade étnica que não compreendemos no contexto da lógica capitalista. Nesse último contexto, nosso, o casal não se fecha (apenas) na hipótese do distanciamento econômico. Ricos e pobres não se casam por causa dessa lógica. A pressuposição do acasalamento (do ponto de vista agora biológico, e não sentimental) seria, na comunidade descrita em "A paz dura pouco", referência de ordem também biológica, porque simplesmente ancestral. Há um peso forte do passado em culturas desesperadas por estabilidade em um mundo hostil.

O leitor é presenteado com pensamentos e aforismos que revelam aspectos da sabedoria africana. Senti, em algumas passagens, que estava lendo o moçambicano Mia Couto. Ilustro com excertos como "se você que comer um sapo, deve procurar um sapo verdadeiro", "um homem que vive às margens do rio Níger não deve lavar as mãos com cuspe", "uma pessoa que não tem um lugar seguro no chão não devia começar a procurar uma esteira para deitar", "o começo do choro é sempre difícil", ou "a mãe dos percevejos pedia que seus filhos não perdessem a coragem quando lhe jogavam água fervendo, porque tudo que está quente acaba ficando frio". Há uma compreensão realista da existência, centrada na intelecção de que as coisas não mudam muito, afinal, "um pássaro que voa da terra e vai pousar num formigueiro continua na terra".

"A paz dura pouco" é livro encantador que também vale pela exemplificação de aspectos até prosaicos da vida nigeriana. Em algum momento o personagem inquieta-se com o volume de cachorros atropelados nas ruas. Entende que, de acordo com o costume local, atropelar um cachorro seria indicativo de sorte. Os animais que se cuidassem, se soltos pelas ruas. Descreve-se uma obsessão com automóveis e roupas, que certamente ilustrariam reflexões sobre a fetichização das mercadorias.

O autor discute o problema da corrupção e especula (com sucesso) que a ordem que se instaurou não era (necessariamente) uma reprodução da ordem local. A divisão dos cargos elevados entre os europeus teria fixado as linhas gerais de um sistema de toma e entrega que os locais teriam simplesmente reproduzido. Na argumentação sutil de Chinua Achebe, acredito, causas e efeitos não se confundem. A explicação para o trato privado com a coisa pública não estaria na natureza dos colonizados.

Institutos e arranjos institucionais foram transferidos da metrópole e de algum modo adaptados. Há um comportamento local de mimese, no qual o colonizado despreza as virtudes do colonizador, aderindo, sem discutir, a seus piores vícios e comportamentos. Tem-se uma cena na qual um serviço é oferecido a um viajante. Há dois preços: um deles, com nota fiscal, o outro, sem a devida nota. Esse último é muito mais em conta. Tomador e prestador intuem que levam vantagens. Essa prática, execrável, não é monopólio de uma certa cultura do jeitinho. Lê-se, em passagem lírica até, que "seria bom se viessem e vissem homens, mulheres e crianças que sabiam como viver, cujo prazer de viver ainda não tinha sido morto por aqueles que pretendiam ensinar à outras nações como se devia viver". Difícil um recado anticolonialista mais direto do que esse.

Um outro tema que sobressai é referente à transposição religiosa das práticas dominantes na Europa. A implantação do protestantismo, com o consequente (e necessário) recrutamento de líderes locais realiza-se no plano de um sincretismo surpreendente. A tradição religiosa importada será associada e acomodada ao paganismo local. Histórias folclóricas serão amalgamadas com relatos bíblicos.

Chinua Achebe propõe uma avaliação entre a tábua de valores e a ação realista do personagem principal. Os personagens são ambíguos, ainda que essa ambiguidade seja encantadora. É uma realidade, e não uma abstração. Em Chinua Achebe, ao contrário de da humilhante posição de escritores que escrevem de cabeça baixa com modelos estrangeiros, constata-se fala local que reivindica problemas universais. A exemplo dos imaginários passos de uma sonhada bailarina pirilampo, em "A paz dura pouco" tudo é graça, beleza, encantamento, curiosidade, espera, lição, aprendizado




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 é livre-docente pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e doutor pela PUC-SP.

Revista Consultor Jurídico, 31 de janeiro de 2021, 8h00

Comentários de leitores

1 comentário

Chinua achebe

O ESCUDEIRO JURÍDICO (Cartorário)

Nome completo Albert Chinualumogu Achebe
Nascimento 16 de novembro de 1930
Ogidi, Protetorado britânico da Nigéria
Morte 22 de março de 2013 (82 anos)
Boston, Estados Unidos
Residência Enugu, Nigéria
Nacionalidade Nigéria Nigeriano
Alma mater Universidade de Ibadan
Ocupação Escritor
Principais trabalhos Things Fall Apart, There Was a Country - A Personal History of Biafra
Prémios Prémio Internacional Man Booker (2007)
Chinua Achebe (Ogidi, 16 de novembro de 1930 – Boston, 22 de março de 2013) foi um romancista, poeta, crítico literário e um dos autores africanos mais conhecidos do século XX. Achebe escreveu cerca de 30 livros (romance, contos, ensaio e poesia), alguns dos quais retrataram a depreciação que o Ocidente faz sobre a cultura e a civilização africanas, bem como os efeitos da colonização do continente pelos europeus, mas também escreveu obras abertamente críticas à política nigeriana" (Fonte Wikipedia).

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