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Princípio do in dubio pro natura ganha força no Superior Tribunal de Justiça

Uma das mais recentes inovações da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça em direito ambiental, o princípio in dubio pro natura tem sido usado como fundamento na solução de conflitos e na interpretação das leis que regem a matéria no Brasil. Em alguns casos, o enfoque dado pelo tribunal é na precaução; em outros, o preceito é aplicado como ferramenta de facilitação do acesso à Justiça, ou ainda como técnica de proteção do vulnerável na produção de provas.

Segundo jurisprudência, a natureza indisponível do bem jurídico protegido (meio ambiente) impõe uma atuação mais incisiva e proativa do juiz.Antônio Cruz-Agência Brasil 

Nesse sentido, a jurisprudência do STJ se fundou na orientação da inversão do ônus da prova em casos de dano ambiental – ou seja, compete ao empreendedor da atividade potencialmente perigosa demonstrar que as suas ações não representam riscos ao meio ambiente.

Ao negar provimento ao REsp 883.656 – em que uma empresa condenada por contaminação de mercúrio questionava a inversão do ônus probatório determinada pelas instâncias ordinárias –, o ministro Herman Benjamin, relator, explicou que a natureza indisponível do bem jurídico protegido (meio ambiente) impõe uma atuação mais incisiva e proativa do juiz, “para salvaguardar os interesses dos incontáveis sujeitos-ausentes, por vezes toda a humanidade e as gerações futuras”.

“Por derradeiro, a incidência do princípio da precaução, ele próprio transmissor por excelência de inversão probatória, base do princípio in dubio pro natura, induz igual resultado na dinâmica da prova”, disse o ministro em seu voto.

Dano moral ambiental
Também amparada pelo princípio in dubio pro natura, em 2013, a Segunda Turma do STJ estabeleceu que é possível condenar o responsável pela degradação ambiental ao pagamento de indenização relativa ao dano extrapatrimonial ou dano moral coletivo. No julgamento do REsp 1.367.923, o colegiado confirmou acórdão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que condenou três empresas em R$ 500 mil por dano moral ambiental em razão do armazenamento inadequado de produtos danificados confeccionados em amianto.

Ao STJ, as empresas alegaram que, em matéria de responsabilidade objetiva, tal qual a ambiental, a presença do dano é condição indispensável para gerar o dever de indenizar. Para elas, os danos morais coletivos e difusos devem estar fundados não só no sentido moral individual, mas nos efetivos prejuízos à coletividade, desde que demonstrados.

O relator do recurso especial, ministro Humberto Martins, lembrou que o colegiado já se pronunciou no sentido de que, ainda que de forma reflexa, a degradação do meio ambiente dá ensejo ao dano moral coletivo. Para ele, mesmo que a jurisprudência não contemple a análise específica do ponto em debate, “infere-se que é possível a condenação à indenização por dano extrapatrimonial ou dano moral coletivo, decorrente de lesão ambiental”.

Cumulação
A possibilidade de acumular a condenação de recomposição do meio ambiente degradado com a indenização pecuniária também já foi objeto de diversos recursos no STJ, nos quais a solução se baseou no princípio in dubio pro natura – como no REsp 1.198.727.

O recurso teve origem em ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público de Minas Gerais para obter a responsabilização por danos ambientais causados pelo desmatamento de vegetação nativa (cerrado). O juiz de primeiro grau e o Tribunal de Justiça consideraram provado o dano ambiental e condenaram o réu a repará-lo; porém, julgaram improcedente o pedido indenizatório pelo dano ecológico pretérito e residual.

O relator do recurso, Herman Benjamin, explicou que “os deveres de indenização e recuperação ambientais não são ‘pena’, mas providências ressarcitórias de natureza civil que buscam, simultânea e complementarmente, a restauração do status quo ante da biota afetada (restabelecimento à condição original) e a reversão à coletividade dos benefícios econômicos auferidos com a utilização ilegal e individual de bem supraindividual salvaguardado que, nos termos do artigo 225 da Constituição, é de uso comum do povo”.

De acordo com o ministro, ao juiz, diante das normas de direito ambiental, “recheadas que são de conteúdo ético intergeracional atrelado às presentes e futuras gerações”, incumbe lembrar o comando do artigo 5º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, que dispõe que, ao aplicar a lei, deve-se atender “aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum”.

“Corolário dessa regra é a constatação de que, em caso de dúvida ou outra anomalia técnico-redacional, a norma ambiental demanda interpretação e integração de acordo com o princípio hermenêutico in dubio pro natura”, ressaltou.

Registro legal
Em 2015, ao dar provimento ao REsp 1.356.207, do estado de São Paulo, a Terceira Turma condicionou o registro da sentença de usucapião ao prévio registro da reserva legal no Cadastro Ambiental Rural (CAR), integrando a interpretação da lei ao princípio in dubio pro natura.

O relator do recurso, ministro Paulo de Tarso Sanseverino, explicou que, por uma construção jurisprudencial, firmou-se o entendimento no STJ de que a averbação de reserva legal seria condição para o registro de qualquer ato de transmissão, desmembramento ou retificação de área de imóvel rural.

No entanto, a dúvida gerada nas instâncias ordinárias referiu-se ao caso de aquisição originária por usucapião de imóvel sem matrícula. Nas suas razões de decidir, o ministro destacou o parecer do Ministério Público Federal (MPF), o qual opinou pela necessidade da averbação, uma vez que a reserva legal “ostenta natureza propter rem, ou seja, é inerente ao direito de propriedade ou posse de bem imóvel rural”.

Para o relator, a interpretação dada pelo MPF ao Código Florestal vigente à época dos fatos (Lei 4.771/1965) “está em sintonia com o princípio hermenêutico in dubio pro natura, que deve reger a interpretação ambiental para priorizar o sentido da lei que melhor atenda à proteção do meio ambiente”.

Segundo Sanseverino, esse princípio constitui uma exceção à regra hermenêutica de que as normas limitadoras de direitos – como são as ambientais – devam ter interpretação estrita. “A exceção é justificada pela magnitude da importância do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado”, ressaltou.

O relator afirmou que uma interpretação estrita do dispositivo legal poderia levar à conclusão de que a aquisição originária, por não estar expressamente prevista, estaria excluída da necessidade de averbação da reserva legal no ato de registro. Para ele, a dispensa, no caso de aquisição por usucapião, reduziria demasiadamente a eficácia da norma ambiental.

A interpretação estrita, segundo Sanseverino, conduziria a um “resultado indesejável”, contrário à finalidade protetiva da norma. O ministro observou que é possível tomar a palavra “transmissão” em sentido amplo, abrangendo também a usucapião.

“Esse sentido mais amplo está em sintonia com o princípio in dubio pro natura, pois, havendo diversos sentidos de um dispositivo legal, deve-se privilegiar aquele que confere maior proteção ao meio ambiente”, ressaltou. Com informações da Assessoria de Imprensa do STJ.

Revista Consultor Jurídico, 12 de maio de 2019, 12h31

Comentários de leitores

3 comentários

Princípio da Precaução é Marreta Draconiana

Pedro G. Franzon (Oficial da Aeronáutica)

Atenção operadores brasileiros do Direito! O Princípio da Precaução é uma ferramenta política utilizada pelos globalistas. A ecologia está sendo subvertida pelas instituições da ONU, veiculando traços revolucionários preocupantes. Brasileiros são cooptados e trabalham para a emergência da Nova Ordem Mundial. Pessoas "inteligentes" não se dão conta de que suas ações colocam a Natureza acima da criatura concebida e feita à imagem e semelhança do Criador. O que é o ecocentrismo? Miguel Reale exaltou o antropocentrismo, e ressaltou a pessoa humana como valor-fonte de todos os valores*. Scruton nos ensina que "Quando a lei se torna um instrumento de regulamentação de conduta, em vez de arbitragem de conflito ela muda de caráter...se torna um obstáculo para as ações de risco..."**. A aplicação do Princípio da Precaução "...é o resultado inevitável quando o puro charlatanismo se transforma em lei."** No Brasil estão trabalhando para destruirem toda a cultura judaico-cristã, legado milenar.
*Parecer do Dr. Miguel Reale de 17 de abril de 1998.
** Scruton, Roger, 1944. Filosofia verde: como pensar seriamente o planeta. São Paulo. É Realizações, 2016.
OBS. Sugiro a leitura de Arbitrary&Capricious de Gary Marchant e Kenneth L. Mossman.

Militância

Luiz Carlos de C. Vasconcellos (Advogado Associado a Escritório - Criminal)

O Min. Herman Benjamin, todos sabemos, em questões ambientais, nunca teve a imparcialidade minimamente exigível de um magistrado. É um ativista, um militante togado. Dizer que com essa sua decisão o princípio "in dubio in natura" ganha força é exagero.

O famigerado Princípio da Precaução

Pedro G. Franzon (Oficial da Aeronáutica)

Inúmeras vozes apontam as incongruências deste princípio. Todas as ações humanas envolvem riscos. Evoluímos assim: arriscando, aprendendo, tentativa e erro. Se aplicarmos esse princípio aos militares, eles perdem as batalhas antes de iniciá-las. Ambientalmente, também, não se deve agir diante de uma incerteza de risco. Essa precaução pode inviabilizar um empreendimento, causando um mal maior. Inúmeros são os exemplos.
A Incógnita ambiental do Princípio da Precaução.
(Artigo da Revista Direito Ambiental e sociedade, v. 8, n. 1. 2018 (p. 158-189).
Pedro Sampaio Minassa
Os princípios aparecem como meios para a realização de determinados fins. Neste ponto, em que medida tem sido o princípio da precaução, um meio para realização de um objetivo ambiental? E mais, qual é a teleologia do princípio? Tomando por base os elementos fulcrais que guiam o princípio, temos como principal o risco de dano grave ou irreversível. No entanto, qual é o grau de risco que se deve considerar para efetivar o start precautório? Pois uma vez comprovado minimamente o risco, já não se estará mais diante de um caso de precaução, mas sim de prevenção. (p. 180)
Se a incerteza científica dos riscos é certa, a certeza da incerteza doutrinária e da falta de segurança jurídica causadas por princípios como o da precaução, é mais que comprovada. (p. 186).
Como epílogo desta investigação, indaga-se afinal, aos idealizadores deste princípio, a seguinte máxima do poeta pré-modernista brasileiro Augusto dos Anjos: (e a precaução...) “De onde ela vem?! De que matéria bruta vem essa luz, que sobre as nebulosas cai de incógnitas criptas misteriosas, como as estalactites duma gruta?” (p. 188).

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