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Paradoxo da Corte

Quando é oportuna a sustentação oral perante os tribunais

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A oralidade no processo civil, que teve na obra de Chiovenda lugar de inegável destaque, reúne como corolários: a) a prevalência da palavra; b) a imediatidade; c) a identidade física do juiz; e d) a concentração de determinados atos processuais numa única oportunidade.

Piero Calamandrei, muitos anos depois, reafirmando, quase que integralmente, os alicerces da clássica teoria de seu mestre, sublinha que, de fato, o mérito de ter sobrelevado, na Itália, as vantagens da oralidade é todo de Chiovenda, que, com um admirável apostolado, iniciado em 1906 e que perdurou até a sua morte, fez-se pregoeiro daquela reforma inspirada no processo oral, que acabou triunfando não apenas na legislação italiana, como, igualmente, mundo afora, em inúmeros outros diplomas processuais.

Em nosso sistema processual, antes mesmo da influência da dogmática italiana que, mais tarde, iria marcar de forma indelével a legislação e a doutrina pátrias, a tradição jurídica luso-brasileira já conhecia, na seara forense, a “audiência” como ato de interlocução entre o juiz e os advogados das partes, que acorriam ao foro para apresentar, diretamente ao magistrado, alegações e requerimentos. Todos esses atos processuais ficavam registrados pelos escrivães, que os transcreviam nos respectivos autos do processo.

Inspirando-se praticamente no mesmo modelo do sistema oral clássico, que coloca as partes e seus advogados frente a frente com o juiz, embora deixando de exigir a identidade física deste, o nosso novo Código de Processo Civil, em particular no artigo 358, prestigia a oralidade.

Todavia, como tal princípio não vigora perante os tribunais e, ainda, diante da dificuldade crescente, ao menos na experiência jurídica paulista, de o advogado ter acesso pessoal aos desembargadores, a sustentação oral tem sido considerada o momento ideal para que a parte seja ouvida por intermédio de seu procurador.

Ao completar 40 anos de exercício profissional, tenho observado que, em regra, na maioria das vezes jovens advogados abusam da paciência dos magistrados que atuam nos tribunais, porque, na véspera do julgamento, procuram “despachar” nos gabinetes, sendo certo que, ao ensejo do julgamento, às vezes no dia seguinte, repetem, na sustentação oral, a mesma exposição então feita.

Assim é que a sustentação na sessão de julgamento acaba ficando banalizada. Essa é, de fato, uma irretorquível conclusão de todos nós, que participamos do dia a dia da vida forense.

Seja como for, a possibilidade de sustentação oral vem prevista, de forma expressa e detalhada, no artigo 937 do Código de Processo Civil: “Na sessão de julgamento, depois da exposição da causa pelo relator, o presidente dará a palavra, sucessivamente, ao recorrente, ao recorrido e, nos casos de sua intervenção, ao membro do Ministério Público, pelo prazo improrrogável de 15 (quinze) minutos para cada um, a fim de sustentarem suas razões, nas seguintes hipóteses, nos termos da parte final do caput do art. 1.021: I – no recurso de apelação; II – no recurso ordinário; III – no recurso especial; IV – no recurso extraordinário; V – nos embargos de divergência; VI – na ação rescisória, no mandado de segurança e na reclamação; VIII – no agravo de instrumento interposto contra decisões interlocutórias que versem sobre tutelas provisórias de urgência ou da evidência; IX – em outras hipóteses previstas em lei ou no regimento interno do tribunal. § 1º A sustentação oral no incidente de resolução de demandas repetitivas observará o disposto no art. 984, no que couber. § 2º O procurador que desejar proferir sustentação oral poderá requerer, até o início da sessão, que o processo seja julgado em primeiro lugar, sem prejuízo das preferências legais. § 3º Nos processos de competência originária previstos no inciso VI, caberá sustentação oral no agravo interno interposto contra decisão de relator que o extinga. § 4º É permitido ao advogado com domicílio profissional em cidade diversa daquela onde está sediado o tribunal realizar sustentação oral por meio de videoconferência ou outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em tempo real, desde que o requeira até o dia anterior ao da sessão”.

Dentre outras hipóteses previstas em lei, destaca-se o caput do artigo 942, que também admite a sustentação oral quando se verifica o denominado julgamento estendido, isto é, quando houver dissenso entre os desembargadores, por ocasião do julgamento da apelação, da ação rescisória ou do agravo de instrumento sobre decisão parcial de mérito.

A mens legis nessa situação propicia a intervenção oral do advogado, em subsequente sessão de julgamento, mas desde que não tenha estado presente pelo menos um dos dois desembargadores que passam a integrar a turma julgadora. Evita-se, com esse sábio expediente, desnecessária repetição.

Ressalte-se que a sustentação oral, de um modo geral, é recomendada para que o procurador da parte possa ressaltar questões de fato determinantes do julgamento do recurso. Usar a tribuna apenas para repetir matéria de direito acaba sendo contraproducente diante do velho aforismo iura novit curia!

Contudo, a sustentação oral também poderá ser útil para suscitar alguma questão de direito de conhecimento ex officio, até então não arguida nos autos, como, por exemplo, a falta de pressupostos de constituição e desenvolvimento válido do processo, da perempção, litispendência e coisa julgada, e, ainda, da exceção de prescrição.

Já sob outro enfoque, a sustentação oral deve ser, tanto quanto possível, sintética e objetiva. Revelando conhecimento do processo, o advogado, em poucos minutos, deve reiterar, demonstrando convicção, o ponto fulcral deduzido nas razões ou contrarrazões recursais.

É de todo aconselhável que o advogado, falando em pé perante o tribunal, esclareça, de logo, o objeto do processo. Deve revelar, em rápidas palavras, o conteúdo da decisão recorrida, o escopo do recurso e os fundamentos que embasam a sua manifestação, em prol do direito de seu constituinte.

Como bem escreve Luiz Fernando Valladão Nogueira em minudente artigo específico sobre esse tema (Sustentação oral no novo CPC), a advocacia deve ser exercida, com plenitude e sabedoria. Por essa razão, a indispensabilidade do advogado foi alçada como princípio constitucional. “Esta indispensabilidade, contudo, é uma moeda com duas faces: o advogado deve exigir a sua presença, em todas as etapas e tipos de processos; mas o advogado, de igual forma, deve se mostrar indispensável, sobretudo através de permanente qualificação e estudo, evidenciando, sempre que possível, o quanto ele é importante para a credibilidade do próprio Poder Judiciário.”

 é professor titular e diretor da Faculdade de Direito da USP e membro da Academia Brasileira de Letras Jurídicas.

Revista Consultor Jurídico, 20 de fevereiro de 2018, 8h05

Comentários de leitores

5 comentários

Iludido advogado autônomo

Iludido (Advogado Autônomo - Civil)

Em tese e indo direto para a prática, a sustentação oral quando bem engendrada com arte, funciona. Porém, deixando os desembargadores dormindo sem importuná-los, é provável que eles assistem o pleito. Lado outro, com o voto já pronto, talvez não queiram mexer no processo mais, a uma. A duas, às vezes pede vista e aí tudo bem. Mas lembre-se que não deixa de ser um afronta ao julgador que já (!) tomou conhecimento de todo o objeto e não acha por ciúme que modificar por causa de uma lebre levantada pelo advogado sustentante . È, vale e não vale, a depender da sorte do dia se o julgador estiver com pressa ou não dormiu bem à noite. Você sabe disso!

Irretocável o artigo. Parabéns Dr. Tucci.

Rodrigo Zampoli Pereira (Advogado Autônomo - Civil)

Concordo com 100% do artigo. Foi no cerne da questão. A sustentação oral na minha opinião é importantíssima quando o Advogado (a) entende que aquele processo é pertinente para realizá-la. Já virei o jogo, (2x1), no Tribunal Superior do Trabalho (julgamento inesquecível), onde meu cliente começou perdendo o julgamento. Uso aqui algumas frases do Jornalista Luís Carlos Prates, de Santa Catarina, onde na minha opinião se encaixa neste texto, onde ele diz mais ou menos assim: "temos que entrar na bola dividida, sem medo de quebrar o pé", "temos que incendiar (sentido figurado) nossas ações", "numa decisão (seja qual for) não adianta dizer: eu sou bonzinho, eu sou casado, eu tenho filhos (as), eu vou a missa", "temos que babar na gravata, tremer o beiço", onde a sustentação oral muda o jogo SIM.
Quando é possível fazê-la pessoalmente no tribunal, prefiro, do que via on-line, sendo este último recurso também de grande valor. A sustentação exige preparo, muito preparo, estudo, muito ESTUDO DO PROCESSO e vale a pena realizá-la.
A minha experiência diz isso. Aos colegas mais novos, assistam as sessões dos tribunais, se possível pessoalmente, ou via on-line ao vivo ou no youtube.
Parabéns Professor Dr. José Rogério Cruz e Tucci pelo brilhante artigo, e por compartilhar sua experiência conosco.

Atenciosamente,
r/>Rodrigo Zampoli Pereira
OAB-MT 7198
OAB-SP 302569

www.rodrigozampolipereira.jur.adv.br

Despreparo

César Augusto Moreira (Advogado Sócio de Escritório)

O professor colocou muito bem a questão do preparo do Advogado para o exercício da profissão. Temos visto, infelizmente, que não poucos colegas se apresentam às sessões de julgamento dos Tribunais para fazer sustentação oral sem o mínimo preparo, sem conhecer o processo, sem conhecer o direito, sem preparo psicológico, tendo, por isso, um desempenho sofrível, fazendo com que as sessões se alonguem e fiquem cansativas para todos os que delas tomam parte (advogados, juízes, público etc), pois, na sua fala partem do nada e vão para lugar nenhum. Assim, tenho que faria bem à OAB que regulasse essa forma de atuação dos Advogados, até porque acaba se medindo o nível da Advocacia pela atuação dos Advogados. A OAB deveria exigir que os advogados que queiram fazer sustentação oral se capacitem para tanto oferecendo, inclusive, essa capacitação na ESA, pois dessa forma estará contribuindo para a melhor distribuição da Justiça e valorizando a Classe.

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