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Opinião

Custo Brasil da falta de segurança pública é elevado

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Já que ocupar o degrau mais alto do pódio na triste estatística mundial do país com o maior número absoluto de homicídios não está afetando as autoridades e a população brasileira, com mais de 58,5 mil homicídios registrados no ano passado, será que se fizermos uma abordagem econômica da falta de segurança poderemos, finalmente, chamar a atenção das pessoas para a grave situação da segurança pública brasileira?

Muitas vezes ouvimos o termo “custo Brasil” e logo o relacionamos à falta de infraestrutura de estradas, ferrovias, portos e aeroportos. Então, se relacionarmos o termo à falta de segurança pública?

Para qualquer bem, serviço ou produto que compramos/contratamos sabemos da elevada carga tributária cobrada, inclusive dos impostos sobre impostos incidentes desde sua origem até a venda ao consumidor final. Entretanto, não paramos para pensar nos custos embutidos pela falta de segurança.

No Brasil se costuma dizer que o alto custo dos produtos se deve somente às altas taxas tributárias e condições de transporte/armazenamento, mas vemos que ele aumenta ainda mais por causa da contratação, em todas as fases da cadeia produtiva, de serviços e seguros, bem como aquisição de equipamentos, necessários por causa da insegurança pública.

Desde o início da cadeia produtiva, passando pela distribuição, até à venda ao consumidor, o empresário investe em segurança para garantir a entrega de seus produtos e para que seus clientes se sintam seguros no ambiente de compra. A questão é: quem pagará o custo adicional provocado por isso tudo? O consumidor, claro.

Alguns problemas enfrentados pelos profissionais da segurança pública são: excesso de trabalho, má gestão, carga horária extenuante que causa cansaço e afastamento do seio familiar, péssimas condições de trabalho, falta de equipamentos de proteção individual e de terceiros, baixos salários, falta de perspectiva e oportunidade profissionais, falta de apoio biopsicossocial, vícios e baixa qualidade de formação profissional e humanizada.

Este sucateamento proposital dos órgãos de segurança e a falta de reforma do arcaico e burocrático modelo de segurança pública brasileiro refletem na baixa qualidade do trabalho apresentado pelos policiais.

A quem é garantida a segurança pública neste cenário catastrófico?

Por outro lado, as indústrias da segurança privada e eletrônica crescem cada vez mais diariamente em resposta à esta política de degradação da segurança pública. A quem interessa o sucateamento e, consequentemente, terceirização da segurança pública?

A falta de segurança pública reflete ainda no crescimento vertiginoso dos condomínios horizontais e verticais fechados que promovem falsa sensação de segurança. Entretanto, movimenta grandes cifras no mercado imobiliário.

Da mesma forma a indústria bélica, através de parlamentares defensores do belicismo, se aproveita do caos provocado pela insegurança pública para estimular a discussão da flexibilização do porte e compra de armas. A quem realmente interessa o armamentismo?

O ataque aos direitos humanos, reduzindo-o à pastoral carcerária, reproduzindo a frase de que “bandido bom é bandido morto”, como se tivéssemos o direito ao justiçamento, ou à pena de morte, não contribui em nada na formação de uma sociedade civilizada e sequer não aponta o caminho para a solução do problema da violência, ao contrário, estimula-a ainda mais, a violência pela violência, o “olho por olho, dente por dente”.

Outra falácia é a teoria de que a redução da maioridade penal reduzirá a ocorrência de delitos envolvendo menores de 18 anos.

A solução não é simples, mas existe e mexe principalmente com o interesse de grupos econômicos e políticos que estão se sobressaindo ao de toda a população que, diga-se de passagem, paga muito caro diariamente com centenas de vidas. Este é o verdadeiro Custo Brasil.

Alexandre Cavalcanti Barretto Ferreira é agente especial da Polícia Federal há 19 anos, ex-Diretor de Relações do Trabalaho da Fenapef, Integrante do FOSEG-RN (Fórum de Segurança Pública do RN) e Associado à OPB (Ordem dos Policiais do Brasil).

Revista Consultor Jurídico, 30 de março de 2016, 6h03

Comentários de leitores

4 comentários

"O Brasil é hoje um grande lugar..."

E. COELHO (Jornalista)

"O Brasil é hoje um grande lugar para você desperdiçar sua vida. O brasileiro não é respeitado como cidadão. O Estado não lhe fornece um mínimo de segurança individual.

Sua vida, sua propriedade e seu bem-estar são ameaçados todos os dias. As chances de progresso pessoal estão cada vez mais limitadas. Quase tudo que o governo diz é mentira. Tudo o que tem é roubado: tiram de seu bolso em impostos o dinheiro que você ganhou com seu trabalho, e não devolvem, em troca, os serviços que têm a obrigação de prestar.

O tesouro nacional transformou-se em patrimônio particular de quem manda no governo. O mérito pessoal é visto como um insulto, e a recompensa material por ele, é tratada como um delito social. Quem não é descrito como 'pobre' é automaticamente culpado. O Brasil é um País ruim para educar os filhos. Aqui o homem mal dorme bem."

Trecho do artigo "A vida é frágil", do jornalista J.R. Guzzo, publicado na edição deste fim de semana da revista Veja
http://didocarvalho.blogspot.com.br/2015/04/a-vida-e-fragil.html

Lição antiga...

Sérgio Renault (Advogado Autônomo)

Excelente texto. Apenas uma observação diante da falência da segurança publica:

" Em comunidades novas e selvagens, onde impera a violência(Brasil), um homem honesto pode proteger a si mesmo, e até que sejam concebidos outros meios para garantir sua segurança(hj inexistentes), seria a um só tempo algo tolo e perverso persuadi-lo a entregar suas armas enquanto os homens q são perigodos p/ a comunidade conservan as deles"
T. Roosevelt -Conferência internacional do premio Nobel 1910.

Pura Verdade parte 2

Elvys Barankievicz (Advogado Sócio de Escritório - Empresarial)

Se tivéssemos segurança de verdade, será teríamos um mercado muitíssimo maior (como nos países escandinavos onde até 50% da população trafega de bike)?
É muito difícil fazer uma conta precisa e responder, mas a intuição sozinha é suficiente para dizer que o custo da insegurança é enorme, sem contar a dignidade e vidas perdidas, este um custo inestimável.
Portanto, muito oportuno o artigo. Apenas faço uma pergunta ao articulista: em que evidência se apóia para afirmar que o desmantelamento da segurança é proposital? Chegou a fazer algum estudo formal sobre isso? Não sei se posso concordar, às vezes tenho impressão que decorre do caos, de incompetência generalizada mesmo, até porque, desmantelar intencionalmente dá trabalho e exige muitas competências. De qualquer forma, ótimo artigo.

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