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Jornalismo atípico

Revista mostra como se desfaz reportagem para atacar

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A revista CartaCapital desta semana publicou metade de uma reportagem sobre processo judicial, já encerrado, que acusa de falcatruas o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. O texto da revista menciona este site.

A metade da reportagem que a revista ficou devendo aos leitores é a que deveria informar o lado da defesa no litígio. Textos apenas com acusação, sabem os profissionais do ramo, são tão autênticos quanto um jogo de futebol com um time só em campo ou uma luta de vale-tudo em que apenas um lutador sobe ao ringue: já se tem o resultado antes da peleja.

No trecho que fala desta publicação, o jornalista investigativo da revista, em meio a um amontoado de insinuações criminosas, diz que detalhe importante da trama é que uma especialista em informática e administração que trabalhou no Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), do ministro, “é sobrinha de Márcio Chaer, diretor do site Consultor Jurídico”. O desmazelo apontado seria o seguinte: Gilmar Mendes “usou uma servidora pública contratada por ele, quando presidente do CNJ, para tocar um trabalho paralelo em sua empresa privada”.

Este redator não tem sobrinha nenhuma em Brasília, não conhece a moça, seus pais ou parentes — há apenas coincidência de sobrenome. Feita averiguação, o que jornalistas profissionais fazem sem dificuldade, constatou-se: é fato, a moça trabalhou no IDP até 2007 e quase 1 ano depois foi contratada no Conselho Nacional de Justiça. Não acumulou funções, não foi contratada pelo ministro e, é claro, não guarda nenhum parentesco com ninguém deste site.

O autor da lambança é Leandro Fortes, dono de um itinerário atípico na profissão. Ele foi da Aeronáutica no governo militar; na administração FHC era considerado aliado pelas hostes tucanas (quando trabalhou no jornal O Globo e na revista Época). Na era Lula foi trabalhar para o governo. Mas nem sempre se deu bem. Acabou demitido de O Globo e do jornal O Estado de S.Paulo “por inépcia”. Na Radiobrás respondeu ação por assédio moral. Nessa trajetória de adesão, CartaCapital veio a ser um desdobramento natural da carreira. Ali, seus talentos e suas características são valorizadas e bem aproveitadas para os propósitos da publicação.

Procurado para se manifestar, justificar sua conduta e explicar as áreas nebulosas de sua trajetória, Leandro Fortes parece ter se assustado. Gaguejou, silenciou e desligou o telefone abruptamente assim que este interlocutor se identificou. Nova tentativa. A ligação foi rejeitada. No recado, como costumam fazer jornalistas que querem fazer reportagens inteiras, ficaram gravadas as perguntas e um número de telefone para resposta, que não veio. Foram feitas mais duas tentativas. Em ambas o telefone foi desligado pelo não tão incisivo jornalista.

Leandro Fortes chegou a Brasília apresentando-se como sargento da Aeronáutica. Há dúvidas a respeito. Até onde se sabe, sua maior patente na Força Aérea foi de cadete na Escola Preparatória de Barbacena. Ele é lembrado nas redações por momentos emocionantes do jornalismo, como quando foram divulgadas como verdadeiras as falsidades do famoso “dossiê Cayman”. Fortes chegou a ser denunciado pelo Ministério Público Federal por ataques contra os policiais federais que investigaram a origem do dossiê.

Precisão e acurácia não parecem ser características de seus textos. Entre um desmentido e outro, como quando levou a revista Época a publicar que uma reunião de trabalho no Palácio do Planalto tivera a participação de um torturador — o que não acontecera —, Fortes deixou de herança à revista uma condenação de R$ 40 mil, mais uma vez por notícia errada. Esta, contra o atual presidente do Tribunal Regional Eleitoral. A revista também arcou com outra condenação, de R$ 38 mil, devido a reportagem assinada pelo jornalista, que deu a entender que o advogado Marcos Malan, irmão do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, fez parte de um esquema de tráfico de influência para atrapalhar o andamento de um processo administrativo no Banco Central — segundo o juiz do caso, sem provas e distorcendo declarações. Ainda cabe recurso. 

Recentemente investiu contra três profissionais respeitáveis de Brasília: atacou o chefe da sucursal da revista Veja, Policarpo Júnior; o assessor de imprensa do Tribunal Superior do Trabalho, Renato Parente; e o diretor da sucursal da revista Época, Eumano Silva, seu desafeto e a quem Fortes atacou, reconhecidamente, por vingança. Diferentemente de seu algoz, Eumano detém o respeito de dez em cada dez jornalistas de Brasília.

A fraude estampada na CartaCapital desta semana é um prodígio e pode ser resumida em três parágrafos. Gilmar Mendes, um dos três sócios do IDP, encomendou uma auditoria para entender o que acontecia com a escola. A conclusão foi que a administração precisava ser profissionalizada. O sócio-gerente não quis sair e recorreu à Justiça.

Escorou suas razões justamente na auditoria que condenou sua gestão. Mas imputou a Gilmar Mendes as mazelas pelas quais só quem tinha a caneta (o administrador) poderia responder. O gestor, Inocêncio Mártires Coelho, foi derrotado em todas as tentativas judiciais.

Sem alternativa, vendeu sua parte por R$ 8 milhões — valor que os sócios restantes tomaram emprestado em banco privado, que não hesitou aceitar a garantia do prédio, avaliado em valor bem superior ao do empréstimo. Para o atilado Leandro Fortes, hoje apelidado pelos muitos ex-amigos de Brasília como “sargento Demóstenes”, isso tudo foi altamente suspeito. Não foi difícil fazer parecer convincente, contando apenas metade da história.

(O autor agradece e incorpora ao texto a correção do leitor que utiliza o pseudônimo "Observador": aluno da Escola Preparatória de Cadetes do Ar é considerado praça especial cuja patente equivale a terceiro-sargento; enquanto cadetes são os alunos da Academia da Força Aérea. Evidentemente, a ilação de que Leandro Fortes tenha sido rejeitado na carreira é apenas uma hipótese.)

 é diretor da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 15 de junho de 2012, 7h47

Comentários de leitores

15 comentários

O necessário recato

Honyldo (Consultor)

Sem dúvida, a matéria da Carta Capital exala segundas intenções e nos leva às seguintes conclusões:
a) nossa imprensa está a refletir o momento que vivemos, cujo melhor retrato é o trânsito porque, sendo público, é revelador da moral brasileira predominante:vale tudo!;
b) os senhores da justiça devem retornar ao recato de antigamente para restabelecerem o respeito público de então, limitando-se a reproduzir seus conhecimentos em aulas praticadas em escolas e universidades, evitando assim, o uso do status funcional e influência pessoal na formação de entidades particulares, com a desnecessária exposição à conflitos comerciais inerentes, situação presente, grotescamente aproveitada pelo órgão da imprensa (sic).

Provando do próprio veneno

Marcos Alves Pintar (Advogado Autônomo - Previdenciária)

Não entendo porque o CONJUR reclama da reportagem parcial. Há alguns anos esta mesma Revista divulgou uma notícia a respeito de um habes corpus que impetrei no STF, na qual o Ministro Dias Toffoli negou a liminar. O CONJUR nunca me ouviu para publicar a notícia, a ainda por cima, inseriu na reportagem outro caso, atribuível a outro advogado, que nada tinha a ver comigo, divulgando exclusivamente o que havia sido sustentado equivocadamente pelo Ministro Dias Toffoli (cuja decisão, para o CONJUR, parece ser mais importante do que as alegações da defesa). Porém, esta mesma revista nada falou quando a decisão liminar do Ministro não foi referendada pela Turma Julgadora. Assim, porque reclamam quando outros veículos de mídia divulgam notícias dando ênfase aos argumentos de apenas uma das partes?

Pra onde correr?

Valéria Corrêa (Defensor Público Estadual)

Em termos históricos, acabamos de sair de um regime autoritário, de total desrespeito para com o cidadão. Contudo, mesmo assim, ao invés de tentativas de maximização da liberdade e dos direitos fundamentais, o que se percebe é uma mídia na contramão da democracia. Refiro-me a todos os lados dessa mídia, que desvirtua cada vez mais o conteúdo da liberdade de expressão e ainda não descobriu efetivamente seu papel numa sociedade democrática.

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