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Livro Aberto

Os livros do advogado e professor Jacintho Câmara

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Caricatura: Jacintho Arruda - Spacca

"Sem preconceitos. O que gosto leio, o que não gosto não leio." O advogado Jacintho Arruda Câmara, professor de Direito Administrativo da PUC-SP e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Direito Público, valoriza mesmo é um bom texto que conte uma boa história de jeito original. Não tem problemas em dizer que já leu best-seller para os quais muitos leitores jurídicos fazem cara feia, e conta que hoje em dia é atraído por personagens com vida interior rica, algo que o aborrecia quando jovem, e queria "algo mais pra fora do que pra dentro".

Dentre todos os estilos que leu e lê, Câmara gosta de biografias jornalísticas. Cita Minha Razão de Viver, de Samuel Wainer, Cobras Criadas, de Luiz Macklouf Carvalho, e Irmãos Karamabloch, de Arnaldo Bloch. A preferida é O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, sobre Nelson Rodrigues. "Todo biógrafo tem que mentir um pouco", reconhece. Segundo ele, o fato de o pai ser jornalista só influenciou por dar acesso a essas obras.

Jornalismo à parte, quem o fez "ter gosto" pela literatura foi Graciliano Ramos. De toda obra do alagoano, que o advogado leu quase por completo, a que mais o toca é Angústia. "Apesar do texto ser pesado, e tratar de sentimentos densos, o livro me pegou pela forma, que acho sensacional, especialmente pelos períodos curtíssimos. Eu já estava com certa ambição de começar a escrever e pensei que se pudesse escolher um jeito de fazê-lo seria esse", contou.

Angústia, de Graciliano Ramos - 28/06/2011

Dos romances, o advogado lembra do húngaro Sándor Márai, "um grande romancista, daqueles autores que gostam de pesquisar a alma humana". As Brasas é o seu preferido. O livro conta a história de um triângulo amoroso entre dois grandes amigos e a mulher de um deles, na época da recessão em Budapeste.

De Márai o professor também já leu Divórcio em Buda e Veredicto em Canudos. O primeiro é a história de um juiz húngaro que se separa da mulher, e o segundo foi inspirado em Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Câmara também cita o português Gonçalo Tavares, de quem leu Jerusalém. O advogado se espantou pela pouca idade do autor (41 anos) e achou interessante uma entrevista em que o autor disse ter passado dos 20 aos 30 anos escrevendo por prever que quando publicasse sua obra teria que divulgá-la e por isso seria impedido de escrever mais.

Civilização e cultura, de Câmara Cascudo

Dos livros históricos o advogado recomenda Império à Deriva, do australiano Patrick Wilcken. O livro foi fonte de 1808, de Laurentino Gomes, e também conta a vinda da família real portuguesa ao Brasil. O advogado leu os dois, mas prefere o livro de Wilcken por ter buscado as "fontes primárias".

De sua terra natal, o potiguar lembra de Câmara CascudoCivilização e Cultura o surpreendeu ao encontrar no folclorista "um rigor científico preciso, com conceitos semióticos e epistemológicos muito sofisticados, que normalmente não são apresentados".

Do Rio Grande do Norte, outro escritor que o marcou, agora no campo jurídico, foi Seabra Fagundes. Câmara conta que leu O Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário no último ano da faculdade, e ficou impressionado e influenciado para seguir a área do Direito Público. Só no mestrado se deparou com o tamanho do jurista.

Atualmente, o professor está lendo três obras: 2.666, do chileno Roberto Bolaño, Os Irmãos Karamabloch, de Arnaldo Bloch, e O primeiro ano — como se faz um advogado, de Scott Turow. Este último livro conta as angústias de um estudante de Harvard, e os métodos de ensino.

Quanto aos best-sellers, o advogado não destaca nenhum por hoje não saber mais diferenciá-los. "São muito bem escritos, mas também muito parecidos. Qualquer um da prateleira é agradável, é como ler uma revista, se tiver um por mês dá pra ler", diz.

Formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o advogado se mudou para São Paulo para cursar o mestrado na PUC-SP em 1995, e dois anos depois já começou a dar aulas na instituição. É autor de Obrigações do Estado Derivadas de Contratos Inválidos e Tarifas nas Concessões, respectivamente dissertação de mestrado e tese de doutorado.

Primeiros anos
Sítio do Pica-Pau Amarelo - Monteiro Lobato - DivulgaçãoA leitura sempre foi muito presente na sua vida já que seu pai era jornalista. A primeira lembrança de Câmara é a coleção de obras completas de Monteiro Lobato, "passei muitos anos lendo aquilo", lembra. Contos folclóricos regionais também estiveram presentes.

Recomendo
Quase memória, Quase romance, de Carlos Heitor ConyUm dos melhores livros que Câmara leu foi Quase memória, Quase romance, de Carlos Heitor Cony, tanto que costumava dar de presente a amigos. "Gosto do jeito de escrever, a forma como o autor narra suas memórias a partir da relação com o pai, que talvez seja uma relação geral entre pais e filhos. Ele relata de maneira tão engraçada e própria, sem faltar nem sobrar nada."

Jurídico
Na área jurídica, a dica é Elementos de Direito Administrativo, de Celso Antonio Bandeira de Melo. Ele conta que leu a obra por acaso, quando ainda estava na faculdade, no Rio Grande do Norte, e ainda não tinha a menor ideia de quem seu futuro orientador era. "Achei muito diferente do que havia lido. Foi o embrião do atual Curso de Direito Administrativo. Prefiro porque é mais enxuto e elaborado", explica.

O professor conta que gostaria de ter lido no primeiro ano de faculdade Os Grandes Sistemas de Direito Contemporâneo, de René David. Segundo ele, a obra explica de maneira muito geral como funciona o Direito no sistema europeu e no anglo-saxão. "Dá para ler como se fosse um romance. É uma leitura que ajuda a compreender o Direito. O papel de uma sentença, de uma lei. Encontrar literatura jurídica para quem ingressa na faculdade é um problema. Os livros de introdução são sofisticadíssimos, herméticos, difíceis de ler. Bons para quem começa uma pós-graduação", explica.

 é repórter da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 30 de junho de 2011, 12h19

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