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Crise do ensino

Ninguém se preocupa com valorização moral do ser humano

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O desespero de uma mãe, que veio implementado pela reprovação da filha no terceiro ano do ensino médio, na cidade de Palmeira das Missões, no Rio Grande do Sul, foi a exposição pública da derrocada do ensino médio no Brasil. Não por conta da violência atribuída ao desespero da mulher, que invadiu a escola completamente destemperada. Não é esse em absoluto o tom do debate. Porém, há um fato indiscutível que precisa ser digerido pela opinião nacional. O episódio da violência e o descontrole da mãe da aluna, impedida de matricular a filha na universidade justamente por conta da retenção no último ano do ensino médio, revelam um paradoxo de critérios que atinge centenas de famílias brasileiras.

A diferença é a visibilidade provocada no caso do Rio Grande do Sul, já que o inusitado da invasão da escola acabou expondo um problema que se repete ano a ano, nas já conhecidas avaliações de encerramento de curso e conselhos de classe. E a realidade acaba revelando, na grande maioria dos casos, completa falta de critério na aprovação e reprovação de alunos, aptos ao início da academia, por vezes, como era o caso gaúcho, já aprovados nos exames vestibulares e considerados prontos para o início do ensino superior. Na maioria dos casos, os tais critérios estão ligados exclusivamente ao conhecimento pessoal da família e à maior ou menor simpatia que por ela nutrem os integrantes dos órgãos colegiados.

Por incrível que pareça, o leitor irá identificar imediatamente ao menos um ou dois casos de seu próprio conhecimento. Seguem-se critérios falhos e desconexos. Nos conselhos de classe as situações são variadas. Por vezes, catastróficas. Em recente oportunidade, um aluno versado nas ciências humanas, estudioso da poesia de Fernando Pessoa e da obra de Érico Veríssimo, foi implacavelmente retido dado o desinteresse demonstrado pela matemática e pela física. Outro, acabou derrotado, à mercê da luta por tratamento médico de sua hiperatividade, que, além de tudo, incomodava professores e diretores, inclusive pelo caráter contestador que o problema imprimia em seu comportamento.

Critério? Haveria algum, se os orientadores de plantão não afagassem, como é o caso de se ver quase rotineiramente, centenas de adolescentes que, durante o ano letivo, se viam envolvidos em situações concretas de tráfico e consumo de substâncias entorpecentes na escola e em suas adjacências ou eventos externos. Ou em pequenos furtos em salas de aula. É essa a lógica da progressão no ensino brasileiro. Lógica perversa, é evidente.

Sob tal ponto de vista e tendo como parâmetro a realidade do tráfico e dos furtos nas escolas o aluno com vocação para o crime estará pronto para a vida se demonstrar mínima habilidade cartesiana. Pelo critério dos conselhos de classe, tudo se vence, tudo se supera, menos a dificuldade e a falta de aptidão em determinadas áreas do conhecimento humano. Diante de tal quadro, como não enxergar com olhos condescendentes o desespero da mãe de Palmeira das Missões? Ele representou, em última análise, a investida de quem simplesmente não tem voz no colegiado do ensino médio, invariavelmente prestigiado pelos organismos estaduais de educação, sua instância revisora quase que insuperável.

Ninguém, na grande maioria dos casos, está minimamente preocupado com a preparação e valorização moral e ética do ser humano. Na maioria das escolas nem mesmo diagnósticos médicos são respeitados, para fazer relevar qualquer aproveitamento insuficiente. Pelo contrário. Avalia-se exclusivamente pela ótica canhota das deficiências. Não se pondera o conjunto das boas qualidades e nem os dados objetivos, igualmente técnicos, do sucesso nos vestibulares. Prestigia-se, sem pensamento crítico coerente, a denominada pedagogia da repetência, apontada pelo pesquisador Sérgio Costa Ribeiro, do Laboratório Nacional de Computação Científica.

Acalenta-se, sem reflexão, o grave problema gerado pelo fenômeno na educação brasileira, com nefastas conseqüências para a formação da juventude. O ser humano gestado no ensino médio brasileiro deve privilegiar a ética e a correta formação moral, independentemente da maior ou menor aptidão para as ciências exatas ou humanas. Está aí o grande referencial a ser considerado. Entretanto, na contramão, são minimizados os problemas decorrentes da educação média e fundamental, justamente no momento em que o país passa por grave crise de identidade, provocada justamente pela falta de ética na política e corrupção no setor público.

Pode parecer comparação estranha. Não é. O fato demonstra a possibilidade de construção, para as gerações futuras, de um arsenal de homens imperfeitos, que, porque não foram barrados na matemática, na física ou na história, — e só por esse motivo — se viram aptos, no dia-a-dia das escolas, ao desempenho de atividades criminosas, acobertados pela omissão e pela complacência dos conselhos de classe. No mínimo, é risco grave e iminente, a menos que as instâncias dos tais colegiados atinjam profissionalismo, hoje inexistente, e busquem o compromisso com a formação integral de seus alunos. É esperar para ver o resultado.




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 é promotor de Justiça em São Paulo, mestre em Direito Processual Penal pela PUC-SP e professor associado da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Revista Consultor Jurídico, 12 de janeiro de 2008, 0h00

Comentários de leitores

16 comentários

Na análise do promotor que escreveu esse artigo...

Landel (Outro)

Na análise do promotor que escreveu esse artigo, vemos não só o problema da educação. Ele é só um dos problemas a que o nosso sistema político nos levou. Mais corretamente dizendo, nosso atual sistema de vandalismo politico, que acabou se refletindo em uma situação idêntica nos diversos setores da vida nacional. O povo brasileiro, como alguns preferem dizer, não é desonesto. É correto e trabalhador. Desonesto é quem se reúne a portas fechadas e condena um magistrado envolvido em corrupção a ser aposentado com vencimentos integrais. Claro, os que se reuniram para isso também são magistrados. Se alguém entende da lei de Gérson são eles. Acontece que o nosso povo foi envolvido ao longo desses últimos 22 anos por um sistema político que prometia liberdades e na verdade defendia apenas a libertinagem e pirataria dos políticos, de vereadores a senadores. Magistrados e judiciário também se beneficiaram disso, é necessário dizer. E não acharam nem um pouco censurável que leis injustas fossem criadas contra a população do Brasil, jogando-a numa verdadeira arena de gladiadores. Afinal, leis injustas foram redigidas a favor deles, chamadas, para disfarçar, de prerrogativas. Em países como os EUA ou na Europa, ditos de primeiro mundo, um magistrado enfiado em corrupção, é imediatamente despojado de seu cargo e enfiado na prisão. Aqui é aposentado. Chamam isso de prerrogativa. O resultado dessa legislação de compadres é esse. O que acontece hoje nas escolas é apenas um reflexo disso. Outros argumentam que o famoso acôrdo MEC-USAID foi o responsável pela decadência do ensino. Nada disso. Em nenhuma linha desse acôrdo estava escrito que seria permitido a estudantes menores de idade matarem professores, traficarem drogas e depredarem as escolas impunemente. E pior ainda para os dirigentes de hoje, na época do regime militar, além de serem efetivamente avaliados e postos a prova no final do ano, os estudantes tinham a preocupação de passarem no exame final. Estudavam mesmo. Hoje para quê estudar, se vai passar de qualquer jeito? Se há até mães pedindo a reprovação dos seus filhos no judiciário, pela absoluta incapacidade dos filhos de se dizerem estudantes? E isso só porque os governos civis criaram esse sistema de progressão continuada para poderem, em épocas de eleição, dizer que seu governo aprovou 95% dos alunos. Na verdade não aprovou. Eles são passados para o próximo ano mesmo que mal consigam soletrar o próprio nome. E mais impressionante, na época do regime militar, com a censura então imposta e com a tecnologia da época de rádios AM e TV preto e branco, os estudantes do primário e do colegial tinham mais visão crítica, humanista e filosófica no que lhes era possível do que nos dias atuais. Hoje, com celulares, Internet, TV de alta definição e liberdade, os estudantes mostram-se incrivelmente estúpidos, classificados nos últimos lugares em concursos internacionais de ensino, achando que o máximo é enfiar um boné na cabeça, usar um absurdo calção colorido que até um palhaço teria vergonha de usar, com um tênis rídiculo e entrarem na sala de aula de camiseta nos ombros, seminus e mascando chiclete, cantando pagode ou funk. Os professores simplesmente não podem fazer nada porque estão acuados. Uma professora foi morta com um tiro na cabeça por um aluno drogado. O que aconteceu com o aluno? Nada, o todo-poderoso promotor só pôde aplicar-lhe a pena de medidas sócio-educativas. Fosse na época do regime militar já estaria preso, condenado a anos de prisão. No interior de SP, uma servente foi jogada ao chão e teve os dois braços quebrados por alunos e o que aconteceu a eles? Nada, a não ser mais medidas sócio-educativas. Uma professora foi agredida por uma aluno na frente da classe toda. E o que lhe aconteceu? Nada. Mais medidas sócio-educativas. Os mesmos alunos que fazem isso, que enfiam a mão na cara de uma professora não enfiam a mão numa fiação de 1.000 volts, porque sabem que terão resposta imediata. O mesmo aluno que dá um tiro na cabeça de uma professora, nem sequer pensa em dar um empurrão em algum membro do PCC, porque sabe que a resposta virá na mesma hora. Cabe aqui fazer uma pergunta. O que tinham de diferente, na época do regime militar, as medidas sócio-educativas daquele tempo que realmente funcionavam? Tenho mais de 40 anos e me lembro que na época, além de estudarmos mesmo, pensando no exame final, fora as travessuras de escola que qualquer aluno faz, não íamos para a marginalidade ou coisas ilegais. Sabíamos que haveria punição. A figura do chamado juiz de menor naquele tempo era algo a se temer em caso de alguém praticar um delito. E hoje o que acontece? O transgressor pode até chutar o mesa do promotor e fica tudo por isso mesmo. Isso se for levado até ele, porque depois de entrarem na escola armados, que diretor ou professor vai enfrentá-los? Ou sequer chamar-lhes a atenção? O que vemos hoje transcende a simples observação de que temos um excesso de alunos mal comportados ou criminosos. Temos isso porque eles assistem os noticiários, conhecem as leis, sabem que nada acontecerá a eles. E depois de verem num noticiário, a entrevista descontraída de mais um senador corrupto à beira de sua piscina, falando que não se importa de ter mais de 10 processos contra ele, porque não dão em nada mesmo e logo depois saberem que mais um magistrado envolvido em corrupção terminou "punido" com a aposentadoria por seus pares, o que mais eles podem fazer? Nem todos fazem isso, a grande parte dos alunos não, mas os maus, mal-intencionados, marginais mesmo, fazem de tudo que podem porque sabem que é essa estrutura política e judiciária que vai protegê-los, deixá-los impunes. Um sistema legislativo pode ser o professor de uma nação. Um sistema judiciário também pode ser o professor de uma nação. Ambos ensinando o que pode haver de melhor para um povo. Ou de pior. No caso do Brasil, até a derrubada desse sistema, ficamos com o pior. Se magistrados e outros estão preocupados assim com o problema da educação e da valorização do ensino, das pessoas, da moral e do ser humano enfim, não é preciso falar mal da escola. É só olharem bem para dentro de suas próprias repartições de trabalho e tratarem de fazer a tarefa de casa. Os professores agradecem. Landel - http://vellker.blog.terra.com.br

No texto abaixo, onde se lê cumprido leia-se cu...

MMello (Promotor de Justiça de 1ª. Instância)

No texto abaixo, onde se lê cumprido leia-se cumprida.

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MMello (Promotor de Justiça de 1ª. Instância)

Vejam a Lei do Gérson cumprido a risca por uma Promotora de Justiça: Promotora bate o carro com 92 pontos na carteira Sáb, 12 Jan, 11h25 A promotora do Juizado de Falências e Concordatas de Curitiba, Lais Letchacovski, teve seu carro apreendido na sexta-feira pela Polícia Rodoviária Estadual, após se envolver em um acidente na rodovia BR-277. A polícia apreendeu o carro depois que descobriu que a promotora tinha 92 pontos acumulados em sua carteira de habilitação (quase cinco vezes o limite de 20 pontos permitido pelo Código Brasileiro de Trânsito), além de multas que somavam R$ 1,5 mil. PUBLICIDADE Ao todo são 21 irregularidades, sendo quatro gravíssimas e as multas variam desde furar sinal vermelho a falar ao celular durante a direção. Segundo a reportagem da RPC, a descoberta foi possível porque o carro que Laís dirigia apresentou uma pane a oito quilômetros do local do acidente. O carro ficará apreendido no pátio da Polícia Rodoviária Estadual até que tudo seja regularizado. Para a reportagem, Laís disse que usa motorista particular no cotidiano e estava dirigindo na estrada por uma questão de emergência e que neste mês fará um curso de reciclagem no Detran. http://br.noticias.yahoo.com/s/12012008/25/manchetes-promotora-bate-carro-92-pontos-na-carteira.html

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