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Interesse protegido

Ministério Público não precisa participar de audiência de adoção

Ministério Público não precisa participar de audiência de adoção, se interesse do menor foi preservado e respeitado o Estatuto da Criança e do Adolescente. O entendimento é da 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça. A Turma negou o recurso do Ministério Público catarinense, que queria adiar um ato de adoção por não ter participado da audiência que decidiu pela guarda da criança.

Segundo o processo, em novembro de 2002, um casal pediu a adoção de um menor com o argumento de que estava inscrito no cadastro de adotantes da comarca de Joinville e preenchia os requisitos necessários à colocação da criança em família substituta. De acordo com o casal, a mãe da criança foi ouvida pelo serviço psicológico e pelo juiz a para verificar se tinha condições de entregar o filho.

A guarda provisória foi concedida. O casal firmou o termo de guarda. O serviço social opinou pela concessão do pedido de adoção. O MP estadual argüiu a nulidade dos termos porque eles foram lavrados sem sua presença. A primeira instância afastou a nulidade por considerar que deu ao MP a oportunidade para atuar no feito. Além disso, não foi desrespeitada a manifestação de vontade dos pais biológicos do adotado.

O Ministério Público apelou ao Tribunal de Justiça. Argüiu, novamente, a nulidade dos atos judiciais praticados, já que não participou da entrevista psicológica com os pais biológicos da criança. O Tribunal de Justiça de Santa Catarina negou a apelação por entender inexistente prova de prejuízo ao menor.

O caso chegou ao STJ. O MP alegou a obrigatoriedade de sua intervenção quando há interesse protegido pela lei, principalmente nas ações de perda ou suspensão do pátrio poder.

O relator, ministro Humberto Gomes de Barros, destacou que o menor, cujos pais manifestaram vontade de entregá-lo para adoção, teve reconhecido o direito de ser colocado no seio de uma família, ainda que substituta, com plenas condições de criá-lo e educá-lo. Livrou-se, assim, de integrar o rol de crianças abandonadas nas ruas.

Para o ministro, o serviço de psicologia do Serviço Social Judiciário emitiu parecer no qual afirmou que a mãe estava consciente e segura com relação à decisão de encaminhar seu filho para adoção por intermédio do Juizado. Gomes de Barros ressaltou que nada indica que tenha havido complô entre o juiz e o serviço social para comprometer a vontade expressa dos pais biológicos. Para ele, o Tribunal não enxergou nulidade do ato processual nem prejuízo para o menor, pela não-intervenção do MP no ato. Para a Corte local, o interesse do menor foi preservado e o fim social a que se destina o ECA foi atingido.

Leia a decisão

RECURSO ESPECIAL Nº 847.597 - SC (2006⁄0112925-5)

RELATÓRIO

MINISTRO HUMBERTO GOMES DE BARROS: A.G.E e C.A. E pediram a adoção do menor M.A.V em 08⁄11⁄2002. (fls. 02⁄03)

Alegaram que estavam inscritos no cadastro de adotantes da Comarca de Joinville e preenchiam os requisitos necessários à colocação do menor em família substituta e ao pedido de adoção.

Narraram que a mãe da criança foi ouvida pelo serviço psicológico e pelo juiz (ECA, Art. 166), a fim de verificar sua decisão de entregar o filho para adoção. Pediram o deferimento da adoção, a oitiva do Ministério Público e a concessão liminar da guarda provisória da criança.

O juiz deferiu a guarda provisória da criança, estabeleceu estágio de convivência e determinou a realização de estudo social. (fl. 12)

Os adotantes firmaram o termo de guarda (fl. 15) e o Serviço Social opinou favoravelmente pelo deferimento do pedido de adoção (fls. 16⁄17).

O Ministério Público Estadual teve vista dos autos e argüiu nulidade dos termos de fls. 10 e 11, porque foram lavrados sem sua presença (fl. 19)

O juiz afastou a nulidade, dizendo que deu ao Ministério Público a oportunidade para atuar no feito. Além disso, não foi maculada a manifestação de vontade dos pais biológicos do adotado. Em assim dizendo, julgou procedente o pedido de adoção. (fls. 20⁄24)

O representante do Ministério Público, em apelação, argüiu nulidade dos atos judiciais praticados, porque não participou da entrevista psicológica com os pais biológicos da criança.

O Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina negou provimento ao recurso, em acórdão que diz:

"ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE - ADOÇÃO - OITIVA DOS GENITORES DO ADOTANDO EM JUÍZO - DESISTÊNCIA DO PÁTRIO PODER - PROCEDÊNCIA DO PEDIDO DE ADOÇÃO - INSURGÊNCIA - AUSÊNCIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO - ARGÜIÇÃO DE NULIDADE - PREJUÍZOS AO ADOTANDO - INEXISTÊNCIA - ARGÜIÇÃO AFASTADA - ASPECTO TELEOLÓGICO DO ECA - RECURSO IMPROVIDO - SENTENÇA MANTIDA.

Inexistente prova de prejuízo ao menor, inacolhe-se argüição de nulidade do feito, mormente quando atingido o aspecto teleológico do ECA, que é o bem estar do adotando." (fl. 53)

Nesse recurso especial (alíneas "a" e "c"), o Ministério Público do Estado de Santa Catarina queixa-se de ofensa aos Arts. 166, parágrafo único, 202 e 204, do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069⁄90).

Sustenta que é obrigatória a intervenção do Ministério Público quando há interesse protegido pela lei, principalmente nas ações de perda ou suspensão do pátrio poder.

Houve contra-razões.

O Ministério Público Federal, em parecer do e. Subprocurador-Geral da República, Dr. Henrique Fagundes, opinou pelo provimento do recurso especial. (fls. 83⁄87)

RECURSO ESPECIAL Nº 847.597 - SC (2006⁄0112925-5)

ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE - ECA. ADOÇÃO. INTIMAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO PARA AUDIÊNCIA. ART. 166 DA LEI 8.069⁄90. FIM SOCIAL DA LEI. INTERESSE DO MENOR PRESERVADO. DIREITO AO CONVÍVIO FAMILIAR. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO. NULIDADE INEXISTENTE.

Não se declara nulidade por falta de audiência do Ministério Público se - a teor do acórdão recorrido - o interesse do menor foi preservado e o fim social do ECA foi atingido.

O Art. 166 da Lei 8.069⁄90 deve ser interpretado à luz do Art. 6º da mesma lei.

VOTO

MINISTRO HUMBERTO GOMES DE BARROS(Relator): O Ministério Público não participou de audiência onde os pais biológicos de uma criança dada em adoção, concordaram expressamente com a colocação do filho em família substituta. Queixa-se, no recurso especial, de nulidade do ato.

Para o Tribunal a quo não houve nulidade. É que a ausência do Ministério Público não acarretou prejuízo ao menor. Em tais casos, deve-se levar em conta os fins sociais do Art. 6º da Lei 8.069⁄90.

O Ministério Público insiste na argüição de nulidade. Alega que a questão envolve interesse público. A nulidade, por isso, é absoluta e o prejuízo presumido e independente de comprovação.

Acrescenta que a intervenção do Ministério Público visa proteger o adotante, e suas relações familiares com o adotado, contra futuras investidas de pais arrependidos.

No caso, diz o MP, a decretação de nulidade e repetição dos atos na forma regular protegeria o adotado e os adotantes contra eventual arrependimento dos pais biológicos, que não encontrariam fundamento para nulificar o ato.

O dispositivo da Lei 8.069⁄90 prequestionado diz:

"Art. 166. Se os pais forem falecidos, tiverem sido destituídos ou suspensos do pátrio poder, ou houverem aderido expressamente ao pedido de colocação em família substituta, este poderá ser formulado diretamente em cartório, em petição assinada pelos próprios requerentes.

Parágrafo único. Na hipótese de concordância dos pais, eles serão ouvidos pela autoridade judiciária e pelo representante do Ministério Público, tomando-se por termo as declarações."

É, pois, obrigatória a intervenção do Ministério Público nos processos em que haja interesse de incapazes (CPC, Art. 82, I).

Contudo, nem sempre é necessário proclamar a nulidade. Mesmo diante da omissão, se o ato atingir sua finalidade e não causar prejuízo à parte que seria protegida pelo MP, não há razão para anular-se o ato.

O Art. 166 da Lei 8.069⁄90 não pode ser interpretado isoladamente. Em sua exegese é necessário levar em conta o Art. 6º, a dizer que são importantes na interpretação da lei, os fins sociais a que ela se destina e "a condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento".

No caso dos autos, o menor, cujos pais manifestaram vontade de entregá-lo para adoção, teve reconhecido o direito de ser colocado no seio de uma família, ainda que substituta, com plenas condições de criá-lo e educá-lo. Livrou-se, assim, de integrar o rol de crianças abandonadas nas ruas.

O serviço de psicologia do Serviço Social Judiciário, emitiu parecer onde afirmou que a mãe do adotando se mostra consciente e segura com relação à decisão de encaminhar seu filho para adoção através do Juizado. (fl. 09)

Nada indica tenha havido complô entre o Juiz e o Serviço Social para macular a vontade expressa dos pais biológicos. O Tribunal a quo não enxergou nulidade do ato processual, nem prejuízo para o menor, pela não-intervenção do MP no ato.

Para a Corte local, o interesse do menor foi preservado. O fim social a que se destina o ECA foi atingido.

A ausência do Ministério Público - disse o acórdão recorrido - não causou qualquer prejuízo ao incapaz, não havendo nulidade a ser declarada. Dizer o contrário, em REsp, seria maltratar a Súmula 7.

O STJ, no julgamento do REsp 26.898⁄SP, relator Ministro Dias Trindade, proclamou: "Não se declara nulidade, por falta de audiência do MP, se o interesse dos menores se acha preservado, posto que vitoriosos na demanda".

No mesmo sentido: Ag Rg no Ag 423.153⁄ALDIR PASSARINHO.

Na terminologia da Turma, não conheço do recurso especial.

Revista Consultor Jurídico, 9 de abril de 2008, 12h02

Comentários de leitores

1 comentário

Acertada a decisão do Judiciário, pois os inter...

Hidalgo (Professor)

Acertada a decisão do Judiciário, pois os interesses da criança prevaleceram, o que é princípio básico do ECA. Afinal, a anulação da decisão somente traria prejuízos à criança. Questionável é o posicionamento do Ministério Público, pois, o meu ver, o promotor que foi intimado da audiência e não compareceu deveria ser responsabilizado administrativamente, haja vista que recebe polpudos subsídios para cumprir suas obrigações funcionais. Não devemos fazer desta decisão uma jurisprudência a ser aplicada a todos os casos de adoção. Estamos tratando de uma caso muito específico com todas as particularidades que o cercam e onde, certamente, a anulação da audiência não viria atender os interesses da criança. Diferente, por exemplo, foi o caso de adoção da menina Maria Eduarda e sua irmã. No processo de adoção delas não foi realizado nenhum dos exames médico ou psiquiátrico e nem os laudos sociais e psicológicos exigidos pela legislação antes da concessão da guarda. E como isso não foi levantado pelo Ministério Público na audiência antes da concessão da guarda, ou mesmo depois? Simples: NÃO HOUVE AUDIÊNCIA ANTES OU DEPOIS DA CONCESSÃO DA GUARDA, que foi concedida apenas 9 dias após ter sido solicitada. Resultado: meses depois o pai adotivo matou Maria Eduarda (com um ano e onze meses) com chutes e mordidas, na frente de sua irmã de 04 anos. Dois dias depois da morte da menina, sem analisar o processo de adoção, o juiz corregedor da época disse à imprensa que o caso foi uma “fatalidade”. A meu ver “FATALIDADE” É MARIA EDUARDA TER NASCIDO NEGRA, POBRE E SEM FAMÍLIA QUE A DEFENDESSE. Um grupo de pessoas tenta tornar público o que o Judiciário e o Ministério Público não disseram à imprensa e para isso criou o site www.mariaeduarada.org

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