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Saída para a crise

É preciso um pacto de convivência, diz José Eduardo Cardozo

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Em entrevista à Consultor Jurídico, o deputado José Eduardo Martins Cardozo (PT-SP) afirma que a melhor saída para a crise política é a punição de todos os culpados de transgressões éticas e um pacto de convivência mínima entre todos os partidos. “Se não houver um entendimento para uma eventual eleição de um novo presidente da Câmara, o resultado será um novo desastre”, diz.

Mesmo sem disfarçar a imensa frustração com a débâcle do seu próprio partido, Cardozo acredita que soluções permanentes para a crise dependem de uma ampla reforma política na qual esteja contemplada a valorização dos partidos. Para isso, ele acha imprescindível a exigência da fidelidade partidária e de um sistema eleitoral menos volátil. Embora considere difícil, diz que o ideal seria a adoção do voto distrital misto.

Cardozo é um caso raro de petista que tem passado pelas CPIs que assolam o país sem fazer feio. Primeiro porque ele está na banca de investigadores e não de investigados. Sem manchas em sua reputação ética, Cardozo é o sub-relator de contratos da CPMI dos Correios, que investiga o mensalão e outras supostas falcatruas de seus companheiros de partido. Em segundo lugar, porque, com sua atuação isenta e seus conhecimentos de advogado, ele tem contribuído muito para que a CPI avance.

Esta postura, da qual ele poderia se orgulhar, só lhe rende problemas dentro de seu próprio partido. A maior resistência a que ele seja o candidato de consenso numa cada vez mais provável substituição de Severino Cavalcanti (PP-PE) parte justamente dos setores do PT mais comprometidos com o mensalão. A rejeição é recíproca: Cardozo não admite concessões para aqueles que, segundo ele, traíram os princípios éticos do partido.

Participaram da entrevista o diretor de redação Márcio Chaer, o editor-executivo Mauricio Cardoso, e os repórteres Leonardo Fuhrmann, Aline Pinheiro e Adriana Aguiar.

Leia a entrevista

ConJur —Tem pizza no forno das CPIs?

José Eduardo Cardozo — Todos os órgãos em geral são corporativos. O Parlamento tem uma dose de corporativismo impressionante. Se a sociedade relaxar, eu acho que não demora muito para sair a pizza. E o forno fica permanentemente quente. Hoje eu acho que ninguém ousa propor um acordo, mas o resultado vai depender muito da energia que a sociedade passar.

ConJur — E se não for pizza, o que vai sair de todo esse processo?

José Eduardo Cardozo — É difícil prever. Uma possibilidade é que haja uma grande desagregação que pode deixar o Legislativo paralisado por um ano e meio. Outra possibilidade é os partidos se conscientizarem da gravidade da situação, aplicarem as punições que têm que ser feitas e buscarem um pacto de convivência mínima. Se os partidos não se conscientizarem de que é hora de buscar consensos para eleger o sucessor do Severino na Presidência da Câmara, essa eleição vai ser um desastre. No entanto, sinto que hoje há um clima de busca de consenso, há um clima de construção de uma identidade: “gente, vamos fazer a casa funcionar”. Não dá para colocar a disputa partidária à frente da instituição nesse momento. Se nós conseguirmos um processo desse tipo, podemos ter um final bom, com a utilização da energia gerada pela crise para promover mudanças.

ConJur — Em nome de fazer a limpeza na política, não está se perdendo uma oportunidade para mudar o sistema?

José Eduardo Cardozo — Pois é. Quando você cinge a discussão a dezoito, vinte deputados, a este ou aquele ministro, se o presidente sabia ou não sabia, você está deixando de potencializar a crise para buscar soluções mais definitivas. As causas disso tudo são muito mais profundas. É questão de tempo para outros escândalos se repetirem em maior ou menor intensidade. Vamos lembrar do Fernando Henrique Cardoso. O governo conseguiu evitar a CPI mas a questão da compra de votos para a reeleição foi evidente naquela época. Se o problema fosse enfrentado, talvez não tivesse acontecido de novo agora. A questão é: ou enfrentamos os problemas do ponto de vista estrutural, sem prejuízo de cortar as cabeças que têm que ser cortadas, ou vamos repetir as crises ciclicamente a cada cinco, dez anos. É inevitável.

ConJur — Na CPI, quando o senhor fala isso, dizem que quer defender o governo.

José Eduardo Cardozo — São duas discussões que correm paralelas: punição dos que erraram e correção dos erros para que esses erros não se repitam futuramente.

ConJur — Como é ser governo em uma CPI?

José Eduardo Cardozo — O que mexe um pouco mais com a gente é o lado emocional. Uma coisa é você estar investigando pessoas com quem você nunca conviveu, e outra é você colocar no banquinho pessoas que estavam ao seu lado e você não desconfiava que faziam certas coisas. É emocionalmente pesado.

 é diretor de redação da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 18 de setembro de 2005, 14h42

Comentários de leitores

6 comentários

Em relação ao último Comentário o problema não ...

JPLima (Outro)

Em relação ao último Comentário o problema não é querer a volta do FHC, o nosso problema, digo para quem votou no Lula como eu, é que o PT e Lula diziam que mudariam às coisas que o FHC e o PSDB faziam, e não mudaran nada. Ao contrário, o Governo Lula e o PT continuam fazendo a mesma coisa que o Governo FHC fazia. No Governo do Lula e do PT temos: Corrupção, taxação dos inativos, juros altos, não tem Política Social, mentiram em relação ao salário mínimo e a produção de empregos. Por fim, a incopetência do PT e Governo Lula foi tão grande que permitiram eleger o um "Coronel" de quinta categoria para a Presidência da Câmara, o qual o Governo Lula foi obrigado a pedir apoio. Em fim, pode até não ser o FHC, mas o "PT nunca mais".

É excesso de ingenuidade crer que o PT tenha ac...

Comentarista (Outros)

É excesso de ingenuidade crer que o PT tenha acabado ou vá acabar devido à crise. É que, para quem vota no PT, as críticas de um Jorgem Borhausen da vida, por exemplo, equivale a um certificado de qualidade política em favor do político criticado... Por outro lado, em uma tosca comparação de governos, pode-se perceber que o Brasil realmente ainda não chegou ao fundo do poço. É que, aproveitando-se da crise, alguns "intelectuais" defendem a volta de FHC, com sua produtiva política de crescimento econômico e desenvolvimento social, independência do FMI, honestidade política (leia-se a "transparente" emenda da reelição), geração de empregos, representatividade política internacional invejável (leia-se o fato de um ministro brasileiro ter sido obrigado a tirar os sapatos - em revista íntima - para poder entrar nos EUA durante o governo tucano), etc, etc, etc. Assim, resta o consolo da volta, ou seja: Volta FHC! O Brasil te merece...

Honestamente , conheço muito pouco...

hammer eduardo (Consultor)

Honestamente , conheço muito pouco o Deputado Cardoso porem pelo que tenho visto no "CPI-Pizza-Show", creio que a situação para os petistas "ainda" honestos deve ficar bem desagradavel daqui para a frente. Creio que se juntarmos todos , da pra acomodar tranquilamente num VW SP-2. Paralelamente tambem fica dificil acreditar que politicos minimamente informados e participantes do outrora partido das vestais , estejam completamente "por fora" da bandalheira em escala industrial que se instalou atraves dos "estrelas-vermelhas". Ao menos por coerencia e graças a notoria estupidez e truculencia daquele Lenin de boteco do zezinho dirceu, os mais puros foram defenestrados e montaram o tal do PSOL que ao menos "por enquanto" , ainda não meteu a mão no balde da imundicie. Aguardo ansioso por pessoas de notorio bom-carater, para não dizer ingenuidade , como o Senador Eduardo Suplicy, que façam as malas e partam para outras terras politicas onde as ideias originais possam ser preservadas. O ridiculo é ver figuras histericas e pateticas como aquela figurinha da "senadora" ideli salvati querendo defender o indefensavel ou tentando empastelar o andamento da CPI, preconceitos a parte, seria de se perguntar se ela não tem um tanque de roupa a sua espera em casa. Creio que o mais importante hoje é que se apure MESMO tudo para que o Brasil possa ao menos tentar sair desse oceano de lama um pouquinho melhor , afinal ficou claro que o pt não passa de um partideco igual ou pior que os demais, ponteado aqui e ali por uns pouquissimos que podemos colocar a mão no fogo. Lava a alma dos Brasileiros a menção de fatos isolados como o da maravilhosa Paula Toller do conjunto Kid Abelha que agora em suas apresentações dedica ao presidente(??????) luLLa a sua canção NADA SEI , melhor impossivel, basta ouvir a letra!

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