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Diploma de jornalismo

Regulamentação do jornalismo deve atender ao interesse social

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Não se trata de uma caracterização alheia às formas de organização profissional e aos compromissos com a sociedade. Cornu ressalta que a apresentação nos termos acima está intimamente associada aos seus preceitos éticos e à regulamentação profissional. Nessa mesma linha, o professor do Instituto Francês de Imprensa, da Universidade de Paris II, Claude-Jean Bertrand, em A Deontologia das Mídias, de 1997, afirma:

“A excepcionalidade de que goza o jornalismo, dentre as instituições democráticas, consiste em que seu poder não repousa num contrato social, numa delegação do povo por eleição ou por nomeação com diploma ou por voto de uma lei impondo normas. Para manter seu prestígio, e sua independência, a mídia precisa compenetrar-se de sua responsabilidade primordial: servir bem à população.” 25

No Brasil, a idéia do acesso livre e desembaraçado à profissão tem sido apontada como uma visão anacrônica, baseada em antigos pressupostos liberais que surgiram em condições históricas totalmente diferentes das atuais, em que a complexidade da informação cresceu, modificando profundamente o mundo das comunicações e tornando necessária a formação específica dos seus profissionais. Desse modo, têm sido desprezadas as opiniões contrárias de importantes jornalistas brasileiros como Cláudio Abramo (1923-1987)26 e Mino Carta, 27 e até de estrangeiros, como Ben Bradlee, editor-chefe do Washington Post por 26 anos, inclusive durante o Caso Watergate. 28

No entanto, essa concepção tida como anacrônica aqui ao sul do equador tem sido corroborada por diversas avaliações e debates recentes. É o que mostrou o resultado da famosa iniciativa de um grupo de 25 editores reunidos em na Universidade Harvard, em Massachusetts, nos Estados Unidos, em junho de 1997, que, preocupados com a crise de credibilidade da mídia, deram origem ao Committee of Concerned Journalists, organizando 21 fóruns de debates com cerca de 3 mil convidados, dos quais 300 jornalistas. O resultado desses debates foi apresentado no livro Os Elementos do Jornalismo, de Bill Kovach e Tom Rosenstiel. No que se refere ao acesso à profissão, eles afirmam que

“A pergunta que as pessoas deviam fazer não é por que alguém se diz jornalista. O ponto importante é se esse alguém está de fato fazendo jornalismo. Será o trabalho o respeito aos princípios da verdade, à lealdade aos cidadãos e à comunidade de modo geral, a informação no lugar da manipulação ― conceitos que fazem o jornalismo diferentes das outras formas de comunicação?

A implicação importante disso tudo é esta: o significado de liberdade de expressão e de liberdade de imprensa é que eles pertencem a todos. Mas comunicação e jornalismo não são termos mutáveis. Qualquer um pode ser jornalista, mas nem todos o são.

O fator decisivo não é que tenham um passe para entrar e sair dos lugares; o importante está na natureza do trabalho.” 29

O acesso à profissão sem a obrigatoriedade de formação específica existe não só nos Estados Unidos, mas também na Alemanha, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Chile, China, Colômbia, Dinamarca Espanha, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Japão, Luxemburgo, Peru, Polônia, Reino Unido, Suécia, Suíça e em vários outros países (ver Apêndice). Michel Mathien, professor de ciências da informação e da comunicação da Universidade de Strasbourg III, na França, mostra em seu livro Les Journalistes, de 1995, que em quase toda a Europa, apesar de não haver requisito de formação, existe regulamentação de acesso à profissão.30 Nesses países prevalece a concepção de que a liberdade de expressão, como necessária para o exercício da cidadania, é incompatível com impedimentos para que qualquer cidadão possa, sem desembaraço, não só ingressar na profissão, mas até mesmo ter seu próprio veículo de comunicação.

Informações como essas não estão disponíveis só em livros. Nos últimos anos, com a Internet, um mínimo de curiosidade jornalística ― ou simplesmente de real interesse em buscar a verdade ― teria levado muitos jornalistas e estudantes a informações importantes sobre a formação profissional, entre elas as mais variadas opiniões, como as de Joaquim Fidalgo, jornalista e professor na Universidade do Minho, em Portugal:

“O jornalismo ensina-se? Não tenho bem a certeza se sim ou se não e, sobretudo, ‘como’. Mas o jornalismo aprende-se, disso estou bem convicto ― e por mim falo! Aprende-se com outros jornalistas, aprende-se com livros, aprende-se com práticas e confronto de experiências, aprende-se com o tempo, aprende-se à conversa com quem não é do ofício mas dele usufrui e dele exige, aprende-se nas secretarias das redacções. Então, por que não também nos bancos de uma escola?”

(...)

“O erro maior de certas correntes de ensino do jornalismo está em reduzi-lo à transmissão e prática de um conjunto de técnicas. Nada é mais fácil do que aprender a escrever correctamente uma notícia, de acordo com as exigências estandardizadas de uma comunicação rápida e eficaz. Aprende-se depressa, pode aprender-se mecanicamente, aperfeiçoa-se com o treino repetido. E então quando há algum talento ― que também se educa e desenvolve, é bom frisar ―, resolve-se este "saber fazer" em duas penadas.” 31




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 é jornalista.

Revista Consultor Jurídico, 24 de junho de 2005, 14h18

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