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Opinião

A parasitária relação entre futebol e Estado: 8x1

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"O eminente Senhor Coelho Neto, há tempos, defendendo-o de ataques de ignorantes e bárbaros, citou Spencer sem felicidade; mas tal cousa não quer dizer nada, porquanto basta a opinião do notável homem de letras, para convencer toda a gente que o esporte beltrão, como diz nas seções esportivas dos jornais, merece os favores excepcionais que os governos lhe dão e ainda vão dar."[1]

Lima Barreto em crônica intitulada Vantagens do Footbal, publicada na revista Careta em junho de 1920, ácido e irônico como ele só, fazia críticas ao patrocínio público ao futebol.

Qual não seria a surpresa do escritor — se vivo fosse — ao deparar-se com a seguinte nota lançada na internet [2]:

"O Diário Oficial da União divulgou em sua edição desta terça-feira os valores que a Caixa Econômica Federal pagará pelo patrocínio de alguns clubes do futebol brasileiro. A lista traz nomes como Flamengo, Cruzeiro, Atlético-MG, entre outros. Veja os valores abaixo:

Flamengo - R$ 25 milhões
Cruzeiro - R$ 12,5 milhões
Atlético-MG - R$ 12,5 milhões

Sport - R$ 6 milhões
Vitória - R$ 6 milhões
Atlético-PR - R$ 6 milhões
Coritiba - R$ 6 milhões
Figueirense - R$ 4 milhões
Chapecoense - R$ 4 milhões
CRB (Série B) - R$ 1 milhão

O Corinthians, que também estampou a marca da Caixa em seu uniforme, ainda negocia a renovação de contrato que tem validade até o fim de janeiro. A expectativa da direção corintiana é receber mais do que os R$ 30 milhões atuais."

Pasmo talvez ficasse com o pronunciamento oficial da presidenta da República sobre o compromisso governamental com os clubes de futebol, vazado nos seguintes termos:

"A cada dia, a Caixa aprimora sua atuação e seu compromisso em favor das brasileiras e dos brasileiros, apoiando a execução de politicas sociais como o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e também o financiamento de obras decisivas para a melhoria da nossa infraestrutura.

O apoio ao esporte nacional é uma das expressões do compromisso da Caixa com o povo brasileiro. A marca da Caixa está presente em várias modalidades esportivas olímpicas e paraolímpicas. Neste ano de Olimpíada no Brasil, é muito importante essas políticas que levam à garantia da sustentabilidade dos treinamentos. Ajuda a construir histórias de sucesso e viabiliza a conquista de muitas medalhas pelos nossos atletas.

Hoje, ao firmar esses contratos de patrocínio, a Caixa reafirma novamente sua parceria com o futebol brasileiro".

Por certo deitaria ele — Lima Barreto — pena afiada e pesada questionando o relacionamento e trânsito entre "os dinheiros" público e privado, ainda mais em termos de patrocínio ao futebol, esporte pelo qual guardava pouco ou nenhum afeto.

Ora, não é de hoje então que há severa insistência em promover-se tal confusão entre o público e o privado, mais ainda, em verificarmos a perseverante necessidade em se dar muletas a um esporte que em termos de gestão é claudicante e sofre permanentes questionamentos, sendo em muito questionável em distintas esferas: legislativa, administrativa, previdenciária, tributária, civil, trabalhista, criminal, etc., com escândalos ora espocando cá, ora acolá.

A paixão do povo pelas partidas de ludopédio não é motivo bastante a explicar a razão de tal permanente "passar de mãos à cabeças"; até porquê mesmo com a edição de normas que busquem sanar e moralizar as entidades futebolísticas [3], ficamos com a impressão de que o "auxílio financeiro estatal" cria um moto perpétuo, um ciclo vicioso donde: endividam-se os clubes, sangram-se os cofres públicos para estancar a sangria. E o apaixonado torcedor, que se confunde com a figura de contribuinte, pouco nota os efeitos nefastos dessa conduta.

Em tempos difíceis de hoje acreditamos ser o momento de rever investimentos públicos em determinados segmentos ou áreas da sociedade, como esse que se dá no e ao futebol.

Mesmo sujeito às vaias da geral — que até foram banidas dos estádios padrões FIFA — defendemos o fim desse "panem et circenses".

Opa, enquanto escrevíamos: gol da Alemanha!


Referências
[1] Lima Barreto / seleção e prefácio Beatriz Resende. - São Paulo : Global, 2005. - (Coleção melhores crônicas / direção Edla van Steen)

[2] http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2016/01/19/diario-oficial-divulga-patrocinios-da-caixa-veja-quanto-seu-clube-ganhara.htm

[3] Programa de Modernização do Futebol Brasileiro.

 é advogado e especialista em Administração Pública pela EBAP-FGV.

Revista Consultor Jurídico, 20 de janeiro de 2016, 17h33

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