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Protestos e desesperança

Eleitorado não se vê representado por políticos

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Se a lei permitisse, a maioria dos brasileiros não votaria. Pesquisa Datafolha recente estima que 57% dos eleitores não votariam no próximo dia 5 de outubro, ao passo que 61% são contra o voto obrigatório. Surpreendentemente, a oposição cresce na proporção do aumento da idade, da renda e da escolaridade. Os números representam uma superação dos resultados obtidos em pesquisas anteriores.

Um outro recorde apontado, caso a eleição fosse hoje, é o percentual de 16% de votos nulos ou brancos — com destaque dos que têm ensino superior (22%) e moradores da região sudeste (21%) — e de 8% de indecisos, totalizando 24% de eleitorado distanciado ou desinteressado dos presidenciáveis lançados pelos partidos. A maioria (58%) justifica o branco ou nulo pela percepção de despreparo dos candidatos; outros (29%) como forma de protesto.

Aliás, a desconfiança acerca do despreparo dos candidatos é exposta até mesmo por aqueles que dizem já haver escolhido o candidato em quem votar, na falta de opção melhor. No caso, os eleitores de Dilma surgem como os mais fiéis, pois, comparativamente, tem a menor porcentagem daqueles que votam por ausência de candidato melhor, além de uma maior proporção dos que veem a presidenta como a candidata ideal.

Como sempre, não faltam especulações de cientistas políticos acerca do fenômeno. Entre os condicionantes aventados, estão o descrédito nas instituições, a fadiga com um calendário eleitoral de breves interregnos, a correlação equivocada entre voto e satisfação com o atual governo, a sensação de impotência de parte de um eleitorado que se percebe como não decisivo para o resultado das eleições.

Não é preciso ser especialista para concluir que no âmago da crise da política brasileira se acha uma profunda desconfiança em relação a todas as formas de organização — em especial as representativas — inseridas no nosso acanhado, inepto e bisonho sistema democrático. O ceticismo face aos políticos e aos partidos políticos, o qual tem sofrido um aumento progressivo pari passu com o crescimento ostensivo dos votos brancos e nulos nas eleições, é forma óbvia de protesto ou crítica à representação política que, em países onde o voto não é obrigatório, é realizada pela pura e simples abstenção.

O eleitorado não mais consegue se ver representado por líderes e partidos políticos, a exemplo do que se constatou nas manifestações de junho do ano passado. Sabe-se que o poder político tem sofrido contestações, e não apenas no Brasil. A diferença é que aqui a política tem passado por um processo corrosivo e acintoso de mercantilização que, eleição após eleição consolida uma "partidocracia" e um governismo que só aprofundam o fosso entre o cidadão médio e a classe política.

O debate público e programático foi esvaziado, o fisiologismo é praticado às escâncaras, as decisões políticas são tomadas nos escaninhos do poder, e as disputas, muitas tão somente aparentes, são marcadas por artificialismos e superficialidades que nada acrescentam. Para agravar a situação, as oposições não tem conseguido convencer o eleitorado com alternativas de poder descompromissadas com as alianças entre partidos e os interesses dos grandes doadores de campanha, esses na base de muitos escândalos de corrupção que ora assolam o país.

Apesar de tudo, o partido político persiste uma organização essencial aos regimes democráticos, a assegurar o caráter pluralista de representação no parlamento. A história é rica em exemplos do quanto é arriscada a supressão dos partidos — o mais notório antecedeu à eclosão do nazismo. Resta, portanto, repensar o partido, depurá-lo dos palanques multíplices, dos acordos regionais ideologicamente distintos ou mesmo contraditórios, das elites que se concentram na defesa dos próprios interesses e se mostram ineptas para atender as demandas da sociedade.

Resta ainda ouvir um discurso que proponha um projeto de institucionalização agregado a uma mobilização social ampla, a transmitir credibilidade, poder de aglutinação de forças polarizadoras, firmeza de princípios e propósitos, inclusive o de reformar o próprio sistema político e realizar os anseios democráticos por efetiva participação e transparência e ética na política. Tarefa que, convenhamos, é deveras difícil em curto prazo. Não é sem razão que tantos protestam ou se desesperançam.

 é advogado, professor, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC-SP.

Revista Consultor Jurídico, 19 de maio de 2014, 9h14

Comentários de leitores

1 comentário

Voto obrigatório

GFerreira (Advogado Assalariado - Trabalhista)

Realmente a pesquisa representa a opinião dos percentuais divulgados, pois para engrossar o couro e reforçar a pesquisa penso da mesma forma, não vejo quem pode me representar, uma vez que o meu candidato foi condenado na ação penal 470 e está preso.
Me arrependi, mas é um pouco tarde para isso.
Agora vamos em frente e quem sabe apareça algum nome que realmente faça a diferença, e que se escolhida deixe de olhar para o próprio umbigo e olhe para a nação.
Só para desabafar, é vergonhoso a conduta de alguns parlamentares que são contra a CPI daquilo ou daquilo outro.
É vergonhoso para alguém que ocupa funções públicas relevantes emitir parecer favorável à compra de uma refinaria sem ter conhecimento profundo de todo conteúdo da negociação.
Espero que venham políticos melhores.
Espero que as manifestações cessem nas ruas e aconteça de verdade nas urnas, ai sim daríamos uma lição de democracia e cidadania.
Política é vocação, e foi transformada em profissão, bem remunerada e voltada para os interesses dos políticos em desfavor da sociedade.
Ética não há, interesse e corporativismo avultam flagrante.
E a sociedade paga a conta.
Só um exemplo, em São A prefeitura gastou 29 milhões de reais com o carnaval, ao passo que alega falta de recuso e tenta de todas as formas aumentar o IPTU.
Mais um, não tem recurso mais firmou contrato com uma empresa para fornecer dezenas de radares, em nome da segurança no trânsito, enquanto isso, as ruas não verdadeiras armadilhas cheias de buracos etc. afinal de contas pagamos IPVA de 4%, mais PIS, COFINS, CSSL, IPI, ICMS, CIDE, IR, INSS, IPTU, taxa de toda natureza, e o governo diz que não tem recurso.
Desse jeito a percentagem dos que votam por obrigação só tende a aumentar.
Vida a democracia

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