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Jornalismo e poder

Imprensa e autoridades ganham com condenações

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*Texto originalmente publicado na edição do dia 25 de julho de 2014 do jornal Folha de S.Paulo.

Um ótimo filme, de 1951, é um retrato do jornalismo da época. Mas vale até hoje. Com Kirk Douglas, dirigido por Billy Wilder, "A Montanha dos Sete Abutres" mostra como as coisas realmente funcionam.

Kirk Douglas é Charles Tatum, repórter decadente em busca de emprego. Um dia, soube que um escavador tinha ficado preso num desabamento, na montanha dos Sete Abutres, numa pequena cidade dos EUA. Tatum decide apostar no caso: a vítima, embora imobilizada por terra e por pedras, tem condições de dar entrevistas. E transforma o salvamento, que poderia ser rápido, em algo demorado. Precisava do tempo para transformar o caso numa grande notícia.

Enquanto rodam as lentas engrenagens do salvamento, Tatum engrandece o drama. Muita gente vai à montanha ver o espetáculo. Aparecem os vendedores de cachorro-quente e pipoca, os serviços paralelos, uma roda-gigante. Ganham todos, e a todos interessa a farsa: o povo se diverte, os vendedores faturam, as autoridades estão felizes com o turismo, os jornais vendem, o repórter decadente vira estrela.

Ganham todos? Nem todos: a saúde da vítima se deteriora. Um dia, morre de pneumonia. O parque em volta da montanha é desmontado, os turistas vão embora. O repórter, arrependido, decide contar a história real. Transforma-se então na segunda vítima: é demitido. Como sempre, e até hoje, todos acreditaram em suas mentiras. Ninguém acredita quando conta a verdade.

O filme tem 63 anos. O jornalismo continua o mesmo — mas com maior força de difusão, com a internet, que espalha uma notícia, mesmo falsa, por tantos lugares que se torna impraticável desmenti-la.

Um grande veículo publica uma notícia (vazada por autoridades anônimas, apresentada como "documentos a que a reportagem teve acesso"), com a defesa da parte atingida (normalmente resumidíssima, mas, embora nem sempre, existente). Centenas de clientes que compram a notícia republicam a informação ignorando a defesa.

Um famoso procurador de Justiça sugeriu a seus colegas que usassem a "relação simbiótica" com a imprensa para que os juízes fossem mais facilmente persuadidos a atendê-los. Relação simbiótica? Sim, é o que ocorre quando dois organismos distintos se aliam para fortalecer-se.

Como no filme, todos ganham com a simbiose: repórteres, que têm a matéria pronta, com tudo o que as autoridades querem dizer; autoridades, com a divulgação garantida e sem contestação; veículos, que ganham prestígio como justiceiros. Mas há quem não ganhe com isso.

Os atingidos, mesmo inocentes, têm a reputação para sempre prejudicada; empresas são preteridas por concorrentes, têm o crédito reduzido ou eliminado, e estarão a caminho da falência. Quantas empresas já fecharam por isso? Quantas foram atingidas por manobras de concorrentes mais bem relacionados? Quantos empregos se perderam? Algum repórter já foi verificar isso?

Monta-se tudo para que o acusado seja considerado culpado. Frase recente de um grande jornal sobre um empresário que sofreu denúncias e foi inocentado mostra isso: "Apesar das acusações, a Justiça Federal absolveu Fulano". Absolvição, para o redator (e para a opinião pública já trabalhada), é um absurdo.

Lembremos Théo de Barros e Geraldo Vandré, em "Disparada": "Porque gado a gente marca/ tange, ferra, engorda e mata". Mas com gente deveria ser diferente.

 é jornalista e diretor da Brickmann&Associados.

Revista Consultor Jurídico, 25 de julho de 2014, 11h34

Comentários de leitores

4 comentários

Opinião "trabalhada"...

Observador.. (Economista)

Belo artigo.Mas o articulista se esqueceu de uma outra vertente. A opinião trabalhada para a sociedade se sentir eternamente confusa e desamparada.Sem saber em quem acreditar.Quando não se crê em ninguém, nem em suas próprias convicções, o céu é o limite para os lobos de plantão.
Nossa legislação trabalha para confundir o povo.No final, a "Opinião Pública" é sempre vista como algo perverso (quando interessa) e o "Clamor Popular" é sempre travestido de "linchamento" (quanto interessa também).Enquanto isso, toda espécie de desmandos acontecem na escuridão da dúvida gerada em todos.
Ao fim e ao cabo, temos apenas um povo perdido.Sem saber em que ou em quem acreditar.

Justamente

Marcelo-Advogado (Advogado Autônomo - Consumidor)

Se existe um tom de ironia quanto à questão que reflete no julgamento do mensalão não sei, mas o que foi dito é verdade. Aliás, a dois dias atrás comentei exatamente o que foi dito do texto acima, numa chamada em que, num único dia, a Conjur publicou três artigos favoráveis a banco sem nenhuma contra-apresentação de matéria com defesa do consumidor em seu âmago. Estranhamente, não foi publicado minha posição. A própria Conjur, como vemos, é uma mídia falastrona, que destoa a realidade com reportagens tendenciosas. Mas, entende-se: como não se aliar ao poder se é dele que vem o ganha pão?

Mas.... A vida é assim

Fernando José Gonçalves (Advogado Sócio de Escritório)

Não é só nessa relação a envolver "acusado", "autoridades" e "mídia" que as coisas ruins tendem a se eternizarem, enquanto que as boas, geralmente, são nuvens passageiras. Na vida, quase tudo obedece a tal critério. Há até um ditado popular que bem exterioriza esse lado cruel da existência, que assim reza: "Uma das coisas que mais me entristecem é ver que o que fiz de bom ninguém se lembra e o que fiz de mal nunca se esquecem"

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