Espião italiano envolve Abin e PF em operações escusas
Em julho de 2004, a Folha de S.Paulo publicou uma reportagem trepidante. O jornal apresentou um dossiê demonstrando que o empresário Daniel Dantas, em uma disputa pelo controle de operadoras de telefonia, encomendara uma investigação secreta contra a Telecom Italia que alcançou gente do mercado e do governo. A empresa contratada para essa finalidade foi a multinacional Kroll.
O resultado conhecido desse furo de reportagem, que chegou ao jornal pela empresa italiana, foi a queda de Dantas. Mas algumas questões fundamentais ficaram sem resposta até agora. Afinal, como é que uma investigação secreta como aquela foi parar justamente nas mãos de seus alvos?
A resposta para essa pergunta começa a se desenhar agora, graças a um pesado processo judicial em andamento na Itália. O motivo é fácil de compreender: os acionistas daquele país querem saber o que foi feito dos milhões de euros pagos a brasileiros, sem que a Telecom italiana ganhasse aqui os mercados que pretendia.
Do que descobriu a justiça italiana até agora, já se pode chegar a algumas conclusões. É fato que a Kroll investigou concorrentes, adversários e inimigos de Daniel Dantas. Mas o famoso dossiê de julho de 2004 não é o do dono do Opportunity. O que os italianos divulgaram foi um conjunto de dados, apurações e afirmações produzido por eles próprios. Adequadamente maquiado e adaptado para atingir objetivos específicos, o tal dossiê parece ter sido uma manobra mais ousada do que as mais ousadas manobras atribuídas a Dantas.
Angelo Janonne, o personagem da reportagem, sustentava que o CD da Kroll lhe chegara de forma anônima e ele, de boa fé, entregou o material à PF. Essa versão durou até o início deste ano, quando o hacker contratado para “produzir” o dossiê enxertado, Fabio Ghioni, confessou o delito. A partir desse momento, de testemunha, Janonne tornou-se réu no processo. E ele começou a falar.
As coisas tendem a esquentar. Das primeiras notícias de que o dono do Opportunity investigara até gente do governo, tem-se uma evolução. O que chega agora da Itália é que a tal “gente do governo”, na realidade, é que investigava Dantas. Não em nome do interesse público — já que investigar dentro da lei é sempre saudável — mas para favorecer uma das partes da disputa empresarial, a Telecom Italia. Os acionistas da empresa, agora, querem seu dinheiro de volta. Ou, pelo menos, a responsabilização de quem o recebeu indevidamente.
Acusado, à época, de produzir notícias para beneficiar Daniel Dantas — a ponto de a PF ter inventado a "Operação Gutenberg" cujo único alvo era ele — o jornalista Leonardo Attuch publica esta semana na revista Dinheiro, da Editora Três, reportagem sobre o chefe dos espiões italianos que foi quem trouxe ao Brasil o famoso dossiê de 2004. Pelas mãos do jornalista, fica-se sabendo que autoridades brasileiras andaram praticando atos que não saíram no Diário Oficial. Leia a reportagem:
Confissões de um espião
Por Leonardo Attuch
Depoimento do chefe da espionagem da Telecom Italia à Justiça revela como a empresa se aproximou da Polícia Federal e da Abin na maior disputa empresarial do País, em busca do comando da Brasil Telecom.
Há um ano, às 10h40 do dia 14 de setembro de 2006, o executivo italiano Angelo Jannone compareceu à sede da Procuradoria de Milão, Via Freguglia nº 1 e sentou-se diante do procurador Fábio Napoleone. Jannone, ex-chefe da área de segurança da Telecom Italia, empresa que controla a TIM e é acionista da Brasil Telecom (BrT), falou por mais de três horas. Saiu de lá apenas às 14h25, depois de reler com atenção e rubricar as 25 folhas do depoimento que prestou à Justiça italiana.
No documento secreto, obtido pela DINHEIRO, Jannone narrou fatos que ajudam a decifrar uma das mais complexas disputas empresariais da história do País: a luta pelo comando da Brasil Telecom, que opunha a Telecom Italia ao grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas.
Os pontos mais surpreendentes do testemunho de Jannone dizem respeito à forma como a Telecom Italia se aproximou de duas instituições do governo brasileiro – a Polícia Federal (PF) e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) – numa tentativa de conseguir apoio na guerra comercial empreendida contra Dantas (leia trechos nos destaques ao longo da reportagem). O executivo revelou os contatos que manteve com Mauro Marcelo, ex-chefe da Abin, e com um policial aposentado conhecido como Álvaro, que, segundo as investigações italianas, manteria boas relações com a cúpula da PF.
Angelo Jannone também confirmou os pagamentos feitos pela Telecom Italia ao detetive particular Eloy Lacerda, de São Paulo, e a dois ex-funcionários do Opportunity, Luís Roberto Demarco e Marcelo Elias. Com esse time, Jannone montou sua ofensiva contra Dantas, que, em 2004, foi alvo de uma ação da Polícia Federal: a Operação Chacal. À época, o Opportunity e a empresa Kroll eram acusados de “espionar” o governo federal. Em função disso, cinco funcionários da Kroll foram presos – Dantas escapou por pouco, mas perdeu o comando da empresa de telefonia.




home
voltar
topo



