Entrevistas
10 dezembro 2007
Corrida de obstáculos
No TJ-SP, Vallim Bellocchi assume maior desafio de sua carreira
Ele é carioca, esportista, faixa preta em judô e desembargador. É viúvo, tem dois filhos e uma neta de nove anos. Do alto dos seus 67 anos e da quarta posição da lista de antiguidade do Judiciário paulista, o cidadão Roberto Antonio Vallim Bellocchi foi eleito presidente do maior tribunal do país. Alçou o cobiçado posto com 190 dos 271 votos válidos, numa eleição marcada por ataques, xingamentos e uma ação judicial que foi parar no STF. Reunidos, esses ingredientes foram uma novidade no formal, litúrgico, elegante e discreto ambiente da magistratura paulista.
Ser presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo era um sonho acalentado por Vallim Bellocchi, que entrou para a magistratura com apenas 25 anos, idade base para investidura no cargo. Adolescente de família católica, estudante de colégios salesianos de Campinas e da capital paulista, formado advogado pela PUC de São Paulo, Vallim Bellocchi não abraçou nenhuma religião. Se diz apenas “cristão”.
Filho do contabilista Rômulo Bellocchi e da professora Rally Almeida Vallim Bellcchi, desde pequeno o filho homem do casal Bellocchi se apaixonou por esportes. A influência surgiu dentro da família: o pai praticava natação e a mãe era apaixonada por remo. Vallim se envolveu com o judô. A família Vallim é oriunda do Vale do Paraíba e os Bellocchi vieram da Itália, durante a primeira Guerra Mundial.
No início dos anos 60, para ajudar nos custos da universidade fez um curso rápido de jornalismo, no sindicato da categoria, e dividiu a vida entre os bancos da escola, estágios em escritórios de advocacia e o trabalho de “foca” no jornal A Gazeta Esportiva, onde trazia notícias que iriam abastecer a coluna de judô daquele diário paulista. Também trabalhou no jornal O Faixa Preta, da Federação Paulista de Judô.
O futuro presidente quer marcar sua gestão pelo que chama de administração participativa da comunidade judiciária. “Vamos trabalhar com diálogo. Essa será uma administração aberta à contribuição de desembargadores, juízes e servidores”, diz Bellocchi.
Entre o discurso e a prática, o próximo presidente terá pouco tempo para mostrar a que veio. O Judiciário paulista reclama, com urgência, uma administração moderna, condizente com os tempos de hoje onde acontece uma quase universalização da justiça, com grande demanda da sociedade. E nesse ambiente, um grande juiz pode ser um péssimo gestor.
Vallim Bellocchi tem como primeira tarefa derrubar a barreira da desconfiança. Mostrar que não se enquadra naquela figura antiga de juiz formal, fechado, discreto, silencioso e distante. Deixar um pouco de lado a toga e mostrar que mais que um magistrado é um administrador público, ciente da enorme tarefa de ditar um rumo moderno ao maior tribunal estadual de justiça.
Fomos encontrar o homem que vai dirigir o destino da justiça paulista no biênio 2008/2009 quase isolado em uma ampla sala do último andar do velho prédio onde funciona a sede do Poder Judiciário, no centro da capital de São Paulo. Sem assessores ou sequer uma secretária, apenas se fazia acompanhar de um escrevente que atendia telefonemas e anunciava as visitas.
O presidente eleito procurou demonstrar confiança no futuro da instituição. Disse que o resultado já era esperado pelo apoio do “forte grupo” que confiou em suas propostas. Vallim Bellocchi não deu importância ao argumento de que foi beneficiado pela regra de antiguidade, que norteou o pleito deste ano, e retirou da disputa outros quatro candidatos que não se adequavam à norma.
“Pretendo, na medida do possível, dar seqüência aos projetos iniciados e implantados nas gestões passadas, respeitando, obviamente, o orçamento de que dispõe o tribunal”, disse o presidente eleito, antecipando a intenção de dialogar.
A seguir, trechos da entrevista à revista Consultor Jurídico:
ConJur — Como o senhor pretende encaminhar a paz no Tribunal depois da guerra eleitoral?
Vallim Bellocchi — Eu sou defensor de maior participação dos desembargadores. Eu quero os magistrados participando ativamente da vida do tribunal. Não serei refém de ninguém, pois não tenho compromisso com grupos e sim com a participação de colegas e com modernidade do Judiciário. Foi por isso que fui eleito com a votação que tive, com um forte apoio interno.
ConJur — Mas a campanha deixou seqüelas. O presidente Celso Limongi, por diversas vezes, disse que o critério eleitoral favorecia da “gerontocracia”, numa referência à democracia que beneficia apenas os mais antigos, incluindo o senhor?
Vallim Bellocchi — Não nego que ainda há um clima que deve ser superado. Sua excelência [se referindo ao presidente Celso Limongi], a quem tem um respeito muito grande, também faz parte da gerontocracia. Mas todo clima é sazonal e isso passa. Um fortíssimo grupo me apoiou. Eu vou estender a mão a quem discordou a mim. Antes da guerra vamos negociar a paz. O que não podemos ter são tribunais divididos, afetando o conceito de República e paralisando o Judiciário. A vida é formada de vitórias e derrotas. É preciso saber perder. Saber perder é uma arte e saber ganhar é um encargo. Não podemos relembrar por toda vida as divergência políticas eleitorais.
Fernando Porfírio é repórter da revista Consultor Jurídico
Revista Consultor Jurídico, 10 de dezembro de 2007
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Os olhos mortos da Justiça! Estabeleceu-se ...
... e com os olhos não só na quantidade de proc...
Discordo da afirmação do ConJur de que o atual ...
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