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20 maio 2005
Nicolau fala
“Meu pecado foi ter nascido em família rica”, diz Nicolau
O juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto concedeu, pela primeira vez desde que estourou o escândalo sobre a construção do prédio do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, entrevista exclusiva à revista IstoÉ Dinheiro. Nela, Nicolau nega a acusação de ter desviado R$ 169 milhões da obra, a existência de uma conta no exterior com 12 milhões de dólares e afirma não existirem provas do depósito de 1 milhão de dólares feito por Luiz Estevão em sua conta.
De acordo com ele, o dinheiro da obra do tribunal nunca passou pelas suas mãos e não poderia ter sido desviado por ser parte de um “pacote fechado incluindo todas as etapas, até escrituras e registro dos imóveis. O preço foi estipulado antes. Não tinha como aumentar ou diminuir o valor”. Segundo Nicolau, a verba foi votada pelo Congresso, sancionada pelo presidente da República e os pagamentos eram feitos diretamente à empreiteira Incal. “Eu não assinava nenhum cheque, nem qualquer outro tipo de ordem de pagamento”, afirmou.
O juiz também negou à IstoÉ Dinheiro que tenha afirmado, em conversa telefônica, que o então ministro do Planejamento Martus Tavares liberava verbas para o TRT a pedido do então secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge. Ao ser perguntado sobre as suspeitas de que ele nomeou parentes do senador Romeu Tuma (que teria assinado os pedidos de suplementação das obras), Nicolau se esquivou e disse que tinha o mesmo relacionamento com Tuma que tinha com outras pessoas.
Ele negou, ainda, que mantivesse contatos freqüentes com os empresários Fábio Monteiro de Barros e José Eduardo Ferraz, donos da Incal, e com o então senador Luiz Estevão, apontado como real proprietário da construtora. Nicolau também foi evasivo ao responder sobre o valor da herança deixada por “uma pessoa que era como se fosse meu pai”. Quando a pergunta o incomodava respondia sempre que “minha cabeça não ajuda”.
Nicolau contestou a propriedade de vários carros, entre eles o Lamborghini que aparece numa das fotos mais divulgadas à época do escândalo. “Deram uma relação de caros que nunca tive. Eu gosto de mecânica. Quando se vai a uma viagem ao exterior é comum a gente se fotografar ao lado de um carro. E a partir daí veio essa história de que eu tinha vários carros”, afirmou.
Na entrevista, o juiz alegou que sua declaração de Imposto de Renda (que segunda a Justiça omitiu informações que propiciaram sonegação) era feito pelos servidores do tribunal e que ele assinava sem conferir. “Eu destinava todo o meu tempo para julgar os casos trabalhistas na proteção da população, que é a cliente principal desta Justiça. Em razão do trabalho na magistratura eu deixei de acompanhar a criação dos meus filhos”. Nicolau se diz injustiçado porque a “população não ficou sabendo que sequer me deixaram realizar uma perícia no processo criminal” para provar o superfaturamento e “não ficou sabendo que o dinheiro encontrado em meu nome é fruto de herança e de trabalho honesto como advogado antes da magistratura. O meu pecado foi ter nascido em família rica”.
Revista Consultor Jurídico, 20 de maio de 2005
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