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No alvo das críticas

'A Microsoft não é o desastre secular que se pinta'

O início da época dos PC é cheia de previsões desastradas ou opiniões humildes demais. Se a frase acima não foi dita por Bill Gates, certamente outro grande nome da tecnologia da época a teria proferido. Também é famosa a frase "há espaço no mundo para talvez no máximo 5 PC's", dita por um executivo da IBM.

O próprio Joseph Sarubbi, um engenheiro da IBM que fez parte do time que criou o IBM XT, o primeiro computador desktop a ter um disco rígido embutido, foi criticado na época por analistas que consideraram o disco rígido de 10MB um "exagero". Hoje, um simples antivírus pode requerer 50MB de espaço. Não obstante, é verdade que existiu e ainda existe uma falta de sincronia entre o que quer o consumidor e o que a indústria quer oferecer. Segundo opinião de líderes de grandes empresas, essa sincronia nunca existirá e talvez nunca deva existir, pois um dos objetivos da indústria é justamente criar necessidades e demanda e não simplesmente correr atrás delas. Éramos felizes com lâminas de barbear, e então surgiram barbeadores de duas lâminas.

E quando estávamos muito felizes com tchans e tchuns, vieram barbeadores de três lâminas. Entretanto, por mais que queiram os consumidores, a indústria não quer oferecer tocadores de DVD que sejam capazes de tocar qualquer DVD comprado em qualquer lugar do mundo, ao invés da horrenda limitação de "áreas geográficas".

"O desenvolvimento dos produtos Microsoft sempre foi lento, evitando incorporar inovações que outros fabricantes adotavam, como forma de lucrar mais com produtos ultrapassados, graças ao seu poder de monopólio".

A Microsoft, como quase toda empresa de tecnologia, começou praticamente numa garagem (no caso dela, num dormitório de faculdade). Para chegar aonde chegou, ela logicamente teve de brigar por seu espaço contra várias empresas concorrentes. Na época do MS-DOS e Windows 3.1, havia no mercado uma série de opções de sistemas operacionais. Havia o DR-DOS da Digital Research, o OS/2 da IBM, o Netware da Novell e também o Linux e outros sistemas baseados no UNIX.

O Netware desfrutava de uma fatia de mercado de mais de 70% em sistemas operacionais de rede, e o OS/2 era reputado como estável, robusto e mais compacto que o Windows 3.1, além de mais barato. E havia também a Apple com seus computadores com janelas coloridas, já equipados com mouse e fáceis de usar. Seria tolice pensar que uma empresa superaria estes concorrentes se realmente não tivesse um pacote melhor de produto. A Microsoft tinha tamanho semelhante à Novell e não se comparava ao gigante IBM, portanto poder econômico aqui também não contava.

Quanto às suítes de escritório, a Microsoft tinha ante de si o Wordperfect, que dominava quase 70% do mercado de editores de texto. Nunca o tendo oferecido de graça nem embutido no sistema operacional, como conseguiu a Microsoft desbancar o líder? Não teria sido porque o conjunto de facilidades da suíte Microsoft agradava mais que os outros?

"A Microsoft usou de seu poderio econômico para oferecer o browser Internet Explorer de graça e também de seu monopólio, embutindo-o no sistema operacional, derrubando o Netscape Navigator da liderança".

O Netscape Navigator era oferecido gratuitamente desde sua criação. A estratégia de oferecer algum produto gratuitamente é usada extensivamente por várias empresas de grande porte. A Sun Microsystems comprou a suíte StarOffice do fabricante para continuar a oferecê-la gratuitamente, como forma de espetar a Microsoft. A AOL comprou o excelente ICQ da Mirabilis e continua a dá-lo de graça. A Qualcomm mantém uma versão free do Eudora, seu cliente de e-mail. A Microsoft apenas usou as regras do jogo ao distribuir seu Internet Explorer gratuitamente.

O Internet Explorer não passou a fazer parte do sistema operacional até os últimos releases do Windows 95. Mesmo porque, até a versão 2, o IE era muito ruim. A partir da versão 3.02 ele começou a competir em pé de igualdade com o líder Netscape Navigator. Na versão 4, o Navigator praticamente parou no tempo, deixando o caminho aberto para o IE.

A atitude de integrar o IE ao sistema operacional e, mais importante, não permitir que este fosse desinstalado, foi de fato uma jogada que a Microsoft só pôde fazer pois tinha também o controle sobre o sistema operacional. Mas não se pode aqui ser ingênuo. Qualquer corporação, no lugar da Microsoft, teria feito o mesmo. Nenhuma empresa no setor de tecnologia (aliás, em qualquer setor) pede licença às demais antes de tomar alguma atitude no mercado. Um setor que movimenta centenas de bilhões de dólares não é lugar para românticos.

Por outro lado, o recurso de acessar a Internet e web é hoje considerado default em praticamente qualquer programa e vários dispositivos, desde agendas até telefones celulares. Se a Microsoft não tivesse agregado a capacidade de acessar a Internet e web em seu sistema operacional, ela certamente seria duramente criticada por vender um sistema operacional e ainda obrigar o usuário a obter um browser extra para acessar a web. "Por que diabos eles não embutem logo essa função no Windows? Só para dar mais trabalho ao usuário..."

Revista Consultor Jurídico, 22 de fevereiro de 2002, 16h36

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