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Passos largos

Viagem ao centro da Internet: entrevista com Ivan Moura Campos

Quem está usando seu banco pela Internet, mandando e-mail, teclando num chat ou lendo as últimas notícias pela rede nem vê, tampouco sente ou deveria estar preocupado. Mas, para que estes usos sejam possíveis, um grande número de atores e instituições têm que se articular, por trás do pano, para que o nome do domínio do banco continue sendo dele e funcionando corretamente, que os protocolos que são usados, lá, são entendidos pelo seu browser e outros sites, do lado de cá... No centro de todo o processo está uma corporação privada, sem fins lucrativos, criada com o incentivo do governo dos Estados Unidos, responsável por fazer com que o mundo inteiro, de uma forma ou de outra e, principalmente, da forma mais suave e transparente possível, mantenha a rede funcionando.

A ICANN foi criada para dar seqüência ao trabalho de acadêmicos que mantinham, à base de voluntarismo idealístico, a rede no ar desde que ela era formada por umas poucas dezenas ou centenas de máquinas. Não deveria ser surpresa que tem inimigos, poucos, é verdade, mas capazes de promover um barulho infernal, pela atenção que recebe da mídia americana. Talvez devesse ter mais inimigos do lado de cá do Rio Grande, já que é, sem dúvida americana demais: que outro organismo de âmbito mundial é uma corporação privada de qualquer país?

A ICANN, na verdade, vem cumprindo seu papel paulatinamente, se estabelecendo no cenário à medida em que se desembaraça dos nós e armadilhas impostos pelo seu processo de criação e crescimento e prepara a si própria e a rede para o salto que sem dúvida ocorrerá, na internet, nos próximos anos. O número de dispositivos on-line facilmente ultrapassará a barreira dos bilhões e os usuários humanos do sistema certamente serão sobrepujados por máquinas e dispositivos de todos os tipos, a nosso serviço, interconectados pela infra-estrutura mundial de redes. E a infra-estrutura, serviços e aplicações que ainda vemos de forma tão explícita, hoje, irão migrando para o "background" de forma sutil mas irrefreável, até que a rede, em si, passe a ser parte indistinguível do ambiente em que vivemos. Se der certo, boa parte do crédito terá que ser dado a ICANN.

Entre os diretores da companhia, um brasileiro: Ivan Moura Campos, coordenador do Comitê Gestor da Internet/BR e diretor da Akwan, ex-secretário nacional de Política de Informática e mineiro de Ciência e Tecnologia, um dos membros "at large" (eleito por votação aberta na rede) da diretoria, representa a América Latina e Caribe na gestão da ICANN. Ivan é membro do Comitê de Finanças, o que o torna um dos responsáveis por equacionar as receitas e despesas da organização, algo nada fácil em start-ups, especialmente quando seu espectro de atuação e potenciais áreas de atrito e conflito com forças interessadas em outras visões de articulação e coordenação da internet do que as que a ICANN vem tentando, com razoável sucesso, imprimir.

Ivan Campos está na internet desde quando o número de computadores na rede podia ser contado nos dedos das mãos: no começo dos anos 70, foi para o doutoramento em computação na UCLA, onde os dois primeiros computadores da rede foram ligados (UCLA e SRI, mais ou menos às 10:30 do dia 29 de outubro de 1969). Antes, Ivan custeou sua graduação em engenharia mecânica na UFMG como guarda noturno do Banco do Brasil e mecânico da scuderia de Toninho da Matta, multi-campeão brasileiro (e pai de Cristiano) e ainda fez um mestrado em informática na PUC-Rio.

Nesta entrevista exclusiva concedida ao site Meira.com, Ivan faz uma viagem ao centro da internet e fala da atuação, realizações e dificuldades da ICANN até agora, dos problemas com os Estados Unidos (país e empresas) e os "25 contra" e da importância de brasileiros atuando em instituições como a ICANN, essenciais para formulações de políticas e padrões mundiais que, depois, têm impactos econômicos e sociais gigantescos.

Ivan, como se poderia resumir a atuação da ICANN, em grandes linhas, desde que você entrou para a diretoria até agora?

A Icann ainda é, em muitos sentidos, uma startup, isto é, uma empresa ainda em processo de evolução e maturação. É, em vários sentidos, um experimento ímpar, o de se fazer gestão participativa, internacional, na iniciativa privada, de um bem comum: o sistema de nomes de domínios, os endereços e os protocolos da Internet. A trajetória destes quase dois anos foi também bastante típica de empresa jovem: estamos discutindo os limites de sua missão, estamos reformulando seu estatuto, foram feitos lançamentos de produtos (sete novos TLDs), seu orçamento e suas fontes de receita recorrente ainda não estabilizaram, etc. Apesar de todas as incertezas e dificuldades, uma experiência absolutamente fascinante e enriquecedora.

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Revista Consultor Jurídico, 23 de agosto de 2002, 11h47

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