Consultor Jurídico

Artigos

Você leu 1 de 5 notícias liberadas no mês.
Faça seu CADASTRO GRATUITO e tenha acesso ilimitado.

Ditadura estética

Ditadura da estética torna mulheres feias e infelizes

Por 

A sociedade patriarcal inventou que as mulheres não tinham nenhum outro valor que não fosse a beleza. Elas precisavam ser bonitas e nada mais. Mulheres não produziam riqueza, não freqüentavam cursos superiores e não se atreviam a assumir uma profissão. Deviam ser bonitas para agradar aos homens e gerar seus filhos. Depois dos filhos, o corpo se modificava, a idade chegava, a rotina do casamento deixava as mulheres desanimadas e tristes. Feias. A repressão patriarcal envelhecia as mulheres muito cedo.

Desde que o mundo ocidental mudou e a cidadania feminina passou a ser reconhecida, diminuindo consideravelmente a repressão, seria razoável supor que a beleza iria adquirir uma posição secundária na escala de prioridades no mundo feminino. Não foi o que aconteceu. Muito ao contrário, quanto mais as mulheres se emancipavam, mais os padrões de beleza (inatingíveis) se impunham nos meios de comunicação.

Há quem interprete a supervalorização da estética corporal como uma reação patriarcal à emancipação feminina. A americana Susan Faludi escreveu um livro - Backlash - defendendo essa tese. De outra parte, há quem credite o fato à indústria da beleza, que fatura milhões com a paranóia de juventude.

Seja qual for a causa, machismo, consumismo ou ambos, a verdade é que urge fazer alguma coisa para reequilibrar as exigências estéticas e colocar a beleza no seu devido lugar. A começar pelos padrões de magreza. Hoje, só é "bonita" a mulher magérrima, com ossos à vista, olheiras, palidez. Quase sem forças para ficar em pé. Enfim, a mulher que não come.

Desesperadas para atingir o peso mínimo possível, as adolescentes estão cada dia mais doentes. Consomem grande quantidade de anfetaminas para perder o apetite. Com isso, perdem também o sono, sofrem de taquicardia, ansiedade e, às vezes, têm paranóia, alucinações, derrame cerebral, convulsões, coma. Isso quando não apelam para a cocaína ou o cigarro para emagrecer! A saúde não vem ao caso...

As plásticas, por outro lado, se multiplicam. Virou moda aumentar os seios e levantar os glúteos com implantes de silicone, retirar as gorduras com lipoaspiração, diminuir e arrebitar o nariz, eliminar rugas, aumentar a barriga das pernas etc, tudo cirurgicamente. Essa idéia fixa em aperfeiçoar o corpo gerou dois graves problemas: reduziu ainda mais o já limitado universo feminino e transformou as mulheres em uma arma contra si mesmas.

As plásticas são invasivas, causam dor e apresentam risco de vida, inerente a toda cirurgia. Muitas foram as que morreram na tentativa de aperfeiçoar o corpo, desde atrizes e cantoras até a pobre empregada doméstica Rosângela Dantas que, há poucos dias, faleceu por ter injetado silicone de carro nos glúteos.

Ninguém pode ser contra a cirurgia plástica, por princípio. A estética é importante. A mulher que extirpa um seio em razão de câncer, por exemplo, tem todo o direito de vê-lo reconstituído, já que a medicina possibilita isso. O mesmo se diga de quem quebra o nariz, sofre queimaduras ou qualquer outra deformação. O que não se pode admitir é o abuso, a banalização da plástica, reforçando-se os conceitos segundos os quais a mulher "corporalmente imperfeita" não tem valor social ou pessoal. Só o que conta são seios e nádegas.

Ora, a sensualidade não depende de peitos grandes nem de traseiros arrebitados. Pensar assim é horrivelmente limitador e falso. Além disso, cada mulher tem suas características próprias, sua forma peculiar de beleza. Pasteurizar todas para que tenham as mesmas medidas e o mesmo peso, à custa de bisturis e dietas neuróticas, não faz sentido.

Isabella Rossellini, atriz e modelo que durante 12 anos emprestou seu belo rosto a uma empresa de cosméticos e ganhou uma fortuna, declarou à imprensa na semana passada estar "arrependida de ter passado tanto tempo incentivando as mulheres a permanecer jovens".

Não, ninguém consegue continuar jovem quando a idade chega. Os remendos de silicone, botox e laser melhoram um pouco a aparência quando feitos com suavidade. No geral, prejudicam mais do que ajudam em razão dos abusos. Deformam o rosto, eliminam sua expressão. Apagam os sinais do tempo mas não trazem a juventude de volta porque beleza é, antes de tudo, viço, brilho, luz.

Cuidar da beleza sem neurose pode dar bom resultado, mas não é o que vemos em nossa sociedade, fixada na aparência. Com relação às mulheres, as exigências de beleza passaram a ser uma forma de agressão física e psicológica bastante grave. Algumas manifestações sutis de violência podem ser mais devastadoras do que os ataques físicos diretos. As imposições estéticas são violentas e estão tornando as mulheres infelizes e feias.

 é procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, autora de vários livros, dentre os quais “A paixão no banco dos réus” e “Matar ou morrer — o caso Euclides da Cunha”, ambos da editora Saraiva. Foi Secretária Nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça no governo FHC.

Revista Consultor Jurídico, 28 de abril de 2002, 14h34

Comentários de leitores

0 comentários

Comentários encerrados em 06/05/2002.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.