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Por dentro do crime

Christino relança livro sobre bastidores do crime em São Paulo

Quem ainda não conhece o mapa da criminalidade paulista agora tem uma nova oportunidade de descobrir os meandros do outrora chamado submundo, que hoje viceja na superfície e à luz do dia.

Trata-se do livro "Por dentro do crime" do promotor de Justiça, Márcio Sérgio Christino, que revela os bastidores do crime em São Paulo. Esgotadas a primeira e a segunda edições, em apenas cinco meses, a obra está sendo relançada.

Promotor há 15 anos, o autor trabalha desde 1997 no Serviço Auxiliar e de Informação (SAI) do Ministério Público de São Paulo. A matéria prima da obra - o dia-a-dia das extorsões policiais, os assaltos a bancos e as fugas planejadas dos distritos policiais - Christino extraiu da rotina de sua atividade, que lhe proporcionou um vasto material de pesquisa.

A obra é um misto de documentário e ficção e todos os personagens são imaginários. A história se passa em um distrito policial da periferia de São Paulo e conta a rotina de um delegado corrupto, envolvido com bandidos.

Para o autor, o livro se diferencia de outros romances policiais. "O diferencial dessa história é o método de ação, ou seja, o que é relatado é totalmente possível de acontecer na realidade. As outras obras são mais literárias".

De acordo com o jornalista e professor universitário Cláudio Julio Tognolli, o livro é uma daquelas "raríssimas obras históricas escritas bem antes de a história acontecer".

"Cinco anos antes de o PCC (Primeiro Comando da Capital) estourar, na mídia e de fato, o promotor Gabriel Inellas já denunciava à Justiça a saga do Comando. Obviamente, teve suas petições arquivadas por vetustos magistrados, em despachos que falavam por parábolas", ressalta o jornalista.

Christino e o também promotor Gabriel Inellas, do SAI, foram os primeiros a investigar e denunciar o esquema PCC (Primeiro Comando da Capital), facção criminosa que comandou uma das maiores rebeliões em série do país.

O livro relata em detalhes como os crimes mais comuns em grandes cidades como roubo a bancos, extorsão policial e resgate de presos são planejados e executados.

"Por dentro do crime", lançado pela Fiúza Editores, tem 300 páginas e custa R$ 25,00.

Veja o resumo do conteúdo da obra

Assalto a banco

Roubos a banco geralmente começam com dicas passadas de dentro da própria agência, principalmente, dos vigias que fazem a segurança. Ganhando salários baixos não é de se espantar que cedam à tentação. Os que são cooptados pelas quadrilhas dão dicas de localização de câmaras, número de funcionários e de todo o sistema de vigilância interno.

Como os bancos têm seguros, dificilmente ficam com o prejuízo. Como parte do plano de preparação, é comum integrantes de quadrilhas, bem vestidos, passarem a fazer visitas regulares a agência. Fazem depósitos de pequenas quantias ou saques em contas de parentes ou amigos que tenham conta no mesmo banco e aproveitam para anotar quantas câmaras existem, comparam com as informações dos vigias e estudam como neutralizar os circuitos eletrônicos de segurança.

Pelo menos um deles têm a função específica de freqüentar o banco todos os dias durante a semana antecedente ao roubo, disfarçado de cliente. Se mostra gentil e educado, procura cativar os funcionários para que sua presença fique bem marcada. Esse bandido, na verdade, já estará dentro da agência no dia do assalto quando o bando entrar.

Desarmado, é ele quem vai comandar o roubo, fazendo sinais silenciosos para os comparsas. Por isso precisa se tornar figurinha carimbada para que ninguém desconfie de sua ligação com os bandidos e nem de sua presença no momento da ação. Por isso também ele não participa do anúncio do assalto. Por vezes seu próprio dinheiro é levado para disfarçar sua ligação com os criminosos.

Há casos previamente combinados com as quadrilhas de vigias que, no início de seus turnos de trabalho, a pretexto de corrigir ângulos das câmaras do circuito interno de TV, deslocam levemente o foco, um pouco para cima ou para baixo. Essa prática serve para inutilizar as imagens após o roubo evitando a identificação do bando.

Quando esses filmes são examinados pelo departamento de segurança do banco é certa a identificação de quem fez o serviço pelo horário em que as fitas foram alteradas. Na maior parte das vezes os vigias são detidos pela polícia, interrogados e pressionados a falar.

No caso das portas giratórias, sensíveis a entrada de armas, esse papel mais uma vez seria encargo dos vigias que se encarregariam de desligar o sensor quando os integrantes do banco entrassem na agência. Outra forma comum é o próprio vigia levar as armas para dentro e escondê-las momentos antes no banheiro.

As pistolas semi-automáticas Glock são 70% de plástico e quase indetectáveis pelos sensores de metal. Por isso são as preferidas pelos assaltantes de banco que entram com elas (nunca próximos uns dos outros. É comum darem intervalos entre clientes para entrar na porta giratória) e, depois de rendidos os funcionários, permitem a entrada de outros bandidos com armas mais pesadas.

Para abrir o cofre, ou o gerente abre ou morre. O mesmo acontece com os vigias que "amarelam", na última hora. Dentro do banco a quadrilha distribui-se em paralelo e todos gritam continuamente: assalto! assalto! ao mesmo tempo. Essa técnica serve para dificultar a identificação porque, com muita gente falando ao mesmo tempo, é mas difícil para as testemunhas se fixarem a atenção em um só.

Na maior parte das vezes eles atuam em 8 ou 9 ladrões. Seis entram no banco. Um deles aborda o gerente e outro recolhe o dinheiro. Os demais são encarregados de render e vigiar clientes e funcionários.

Todos são abordados ao mesmo tempo para evitar reações. Um deles carrega um rádio HT que soa um sinal quando o ladrão que está do lado de fora rastreia a aproximação da polícia. Os três que ficam do lado de fora os aguardam próximos a carros bons e potentes com chassis adulterados e com documentos verdadeiros (roubados ou furtados) prontos para a fuga.

Em um desses automóveis há um rádio ligado na freqüência da polícia. A ação não dura mais que dois ou três minutos. Com o alarme ativado, geralmente os policiais chegam em cinco ou seis minutos.

Resgate de presos

Geralmente acontecem nos finais de semana, principalmente domingos à noite porque as equipes de plantão são reduzidas.

Trabalham em turno de oito horas nesse dia apenas cinco funcionários, o delegado plantonista, dois investigadores, um operador de telecomunicações e um carcereiro.

Como o domingo é dia de visita e os presos recebem, além da companhia dos familiares, o "jumbo" comida de casa e material de limpeza. Por conta disso, os detentos que não fazem parte do grupo que será resgatado ficam mais tranqüilos nesse dia.

Quem promove os resgates são quadrilhas de assaltantes de banco, carro-forte e de traficantes. Os bandidos cooptados para a ação são experientes e, na maior parte das vezes, se especializaram só em resgatar companheiros do crime, na maior parte das vezes líderes que foram pegos pela polícia. O pagamento pelo serviço é à vista e em dólar. As armas pesadas, como Fuzil AR-15 são alugados.

Os carros escolhidos para a fuga são grandes e potentes e ficam estacionados em ruas próximas. Esses carros são abandonados e, em locais, próximos, outros carros do bando aguardam os fugitivos para despistar a polícia.

Durante a ação a quadrilha se divide em dois grupos. Os que entram primeiro, não mais do que quatro homens para não chamar atenção, entram na delegacia andando normalmente, com as armas camufladas, como se fossem registrar a ocorrência de algum fato.

Os presos que serão resgatados ficam sabendo do dia e hora por intermédio de um dos integrantes da quadrilha que dias antes é encarregado de visitá-lo na delegacia, sem esquecer de levar comida para disfarçar. É ele também o encarregado de, nessas visitas, observar e passar para o papel possíveis rotas de fuga e desenhar a planta da delegacia até a carceragem.

Como vai várias vezes à delegacia é também o encarregado de estudar o movimento do distrito e, por intermédio de algum policial corrupto, levantar a ficha dos policiais que trabalham ali. Ou a informação sobre o dia da fuga é passada ao preso por intermédio do advogado do bando. No dia combinado, uma vez lá dentro, rendem a equipe de plantão e os demais bandidos entram no distrito e se dirigem para a carceragem.

A determinação, salvo exceções, é, depois de libertar os integrantes da quadrilha, deixar as grades abertas para o preso que quiser arriscar. Fugas em bando, chamadas de "cavalo-doido", confundem a polícia e dificultam a captura. Muitos detentos na rua servem também para despistar o verdadeiro motivo da ação e pode sugerir fuga planejada.

Revista Consultor Jurídico, 7 de dezembro de 2001, 17h19

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