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Mudanças à vista

Argentina optou por criação de moeda própria

O economista e secretário de Finanças e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de São Paulo, João Sayad, analisou a situação da política econômica Argentina: se está optando pela dolarização e ou se está buscando as condições para possuir uma moeda nacional própria.

Segundo os jornais brasileiros, a Argentina está avançava na dolarização. Mas a análise é equivocada, de acordo com Sayad. A economia caminha no sentido oposto, reduzindo a conversibilidade. Ele afirmou que o governo começa a criar um 'dólar argentino'.

Veja artigo publicado no Jornal do Brasil

Argentina - João Sayad é secretário de Finanças e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de São Paulo

Peixes não sabem o que é aquário nem passarinhos engaiolados sabem o que é gaiola. Nós vivemos na cultura do dinheiro. Tudo tem preço, sabemos medir todas as coisas em dinheiro. Não sabemos o que é dinheiro. Argentinos e brasileiros têm postos de observação privilegiados para desvendar o mistério - quantos reais existem no Brasil? Quantos pesos e quantos dólares existem na Argentina?

Com história inflacionária tão longa e com tantas experiências de solução, podemos nos observar mutuamente, como peixes no aquário que nos olham enquanto nós os olhamos.

Quando a Argentina estabeleceu a regra de conversibilidade - um dólar vale um peso -, as autoridades argentinas e os economistas começaram imediatamente a comparar a quantidade de dólares e a quantidade de pesos em circulação. Será que existiam dólares suficientes para cada peso? No Brasil, também começávamos a fazer contas, antes do Plano Real. Se seguíssemos os passos da Argentina, as reservas de 70 bilhões de dólares que tínhamos em 1994 seriam suficientes?

Deposite 10 dólares no banco. O banco mistura com outros dólares de outros depositantes. Dinheiro é anônimo e uma nota igual a outra. Você saca apenas uma parte dos seus dólares. O resto paga com cheque. O banco empresta o resto - 'alavanca' - a outros clientes, multiplica os dólares que foram depositados. Seus dólares não estão mais lá. Os bancos argentinos, como bancos de qualquer outro país, produziram muito mais dólares do que os argentinos depositaram.

Hoje sabemos que não adianta contar dólares, reais ou pesos. O dinheiro pode ser multiplicado pelos bancos, comerciantes, industriais, ourives e falsificadores. O comerciante que vende a prazo, o operário que só recebe no fim do mês, a empresa de eletricidade que emite contas no fim do mês, todos 'produzem' dinheiro como se fossem bancos centrais, bancos privados ou falsificadores. Portanto, não adianta contar quantos dólares existem para serem trocados por pesos.

Se você, e só você, ficar desconfiado e quiser trocar seus pesos por dólares, o banco pode trocar. Se todos ficarem desconfiados e quiserem trocar, não existem dólares suficientes. Nunca existiram dólares suficientes para trocar por pesos. Só poderiam ser trocados se ninguém quisesse trocar.

Na semana passada, o governo argentino modificou as regras. Ninguém pode sacar mais do que 1000 dólares por mês. Os 'outros' dólares (existem? Onde estariam - registrados nos computadores ou em livros-caixas?) dos argentinos podem ser sacados apenas em cheques ou cartões de crédito. Além disto, as remessas de dólares para o exterior serão 'controladas'.

É uma estratégia para escapar da dolarização. O presidente de um país dolarizado determina que o dólar e a moeda nacional depositados nos bancos sejam convertidos em rubis mas ninguém pode sacar rubis nem mandar rubis para o exterior. Todas as contas serão expressas em quilates mas ninguém jamais veria um rubi. Faz alguma diferença, ou estamos apenas mudando o nome da moeda para rubi?

Os jornais brasileiros anunciaram que a Argentina avançava na dolarização. Não é verdade - a economia Argentina caminha no sentido oposto, reduzindo a conversibilidade. Ao limitar as remessas para o exterior e os saques em dólares, o governo começa a criar um 'dólar argentino', que apenas parcialmente pode ser convertido em dólar de verdade e que, mais tarde, terá uma taxa cambial com relação ao 'dólar-dólar' e, num próximo arroubo de nacionalismo, pode voltar a se chamar peso.

Começa a nascer a nova moeda Argentina. A Argentina voltará a ser economia latino-americana normal, com moeda própria, desemprego e política monetária que pode reduzir o desemprego. É uma ótima notícia.

Revista Consultor Jurídico, 5 de dezembro de 2001, 16h18

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