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O feitiço do tempo e a sensação de déjà vu em torno do ChatGPT

Autor

  • Milton Pereira de França Netto

    é pesquisador do Legal Grounds Institute doutorando em Direito na linha de Cidadania Digital pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) mestre em Direito pelo Centro Universitário Cesmac e advogado.

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10 de março de 2023, 8h00

Dois de fevereiro. Nesta data, Phil Connors (Bill Murray), o rabugento homem do tempo da emissora de televisão WPBH9, dirige-se à cidadezinha de Punxsutawney, na Pensilvânia, para realizar a cobertura do "Dia da Marmota". De maneira curiosa, o evento busca anualmente profetizar os rumos sazonais da região: caso o animal desperte e observe a própria sombra, os moradores estarão fadados a seis semanas de inverno — abreviadas pela primavera, nas hipóteses em que a penumbra resta ignorada pelo roedor.

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Bill Murray em "Feitiço do Tempo" (1993)
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A alegria dos locais com as festividades se revela inversamente proporcional ao desprazer do protagonista, insatisfeito com os rumos de sua carreira e frustrado por ter de pernoitar na redondeza, em função das fortes nevascas, após a celebração. Ao acordar na manhã "seguinte", Phil vê-se preso em um loop temporal, reprisando infinitamente os acontecimentos daquela data.

Partindo de tal premissa, o filme Feitiço do Tempo (Groundhog Day, 1993) [1] tece valiosas reflexões existencialistas sob a roupagem de uma comédia de repetição. O personagem reiteradamente atravessa o mesmo dia através de experiências distintas, até aprender uma lição acerca da importância de cada momento cotidiano, livrando-se, assim, da amarra alegórica em que se inseria.

A essência da obra parece espelhar a atual verve em torno do ChatGPT, o chatbot de inteligência artificial concebido pela OpenAI, que já conta com mais de 100 milhões de usuários ativos. Desde a liberação do acesso gratuito à sua versão 3.5 ao final de 2022, a impressão que se tem é de se estar (re)vivendo diferentes versões de um mesmo dia: a cada 24 horas, um inédito e/ou alarmante uso do software desponta no noticiário.

Do ponto de vista técnico, a sensação de déjà vu remonta ao aprendizado dessa tecnologia, lastreado por dados pregressos. Embora inteligências artificiais generativas potencializem a atmosfera de reminiscência, ao reproduzirem escritos, ilustrações e vídeos com uma considerável fidelidade aos trabalhos humanos, aqui, o diabo acaba morando nos detalhes.

Por mais que impressionem, imagens fotorrealistas geradas por aplicações como Midjourney e DALL·E 2 pecam na confecção de mãos [2]; textos produzidos pelo ChatGPT vêm comportando graves equívocos e imprecisões [3]; e criações audiovisuais oriundas do Synthesia ainda esbarram no óbice do Vale da Estranheza (Uncanny Valley) [4].

Enquanto o fantasma da automação — que já assolava tarefas repetitivas — volta-se a atividades tidas como criativas, startups da área passam a comercializar licenças para a fruição de seus produtos. A engenhosidade humana para produzir conteúdo é substituída pela aptidão de formular comandos (prompts) para máquinas obedientes, que, de forma articulada, reproduzirão ecos de experiências passadas. Com a expansão da aplicação de tais ferramentas, até que ponto é possível se falar em originalidade?

Questões alusivas à autoria intelectual representam apenas a ponta de um iceberg de perigos provenientes desses avanços tecnológicos, submerso em meio à oceânica profusão de suas benesses. Como bem aponta Diogo Cortiz, modelos de língua também produzem alucinações, gerando respostas que, apesar de factíveis, não se mostram factuais [5].

ConJur
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A habilidade de escrita do ChatGPT resulta de sua aptidão em concatenar palavras a partir do cálculo de probabilidades, que lhe permite mensurar as conexões existentes entre variados termos em um ambiente multidimensional. Porém, o chatterbot não possui as capacidades de compreender o sentido de vocábulos ou orações e de representar conhecimento, podendo assim, nos inspirados dizeres do pesquisador, converter-se numa "fábrica de multiversos que cria realidades alternativas" [6].

Nesse sentido, Ted Chiang serve-se de uma analogia acerca do funcionamento de fotocopiadoras Xerox para retratar o ChatGPT como uma imagem "JPEG borrada da web". Para o autor, o robô opera como um genuíno algoritmo de compressão com perdas (lossy compression algorithm): apesar de sintetizar grandes volumes de dados textuais com maestria, ele invariavelmente descarta extensas parcelas do conteúdo original ao longo do processo, originando as alucinações mencionadas.

Erros assim macularam as recentes tentativas de integração de IAs generativas a mecanismos de busca. Durante a demonstração do Bard, o robô conversacional experimental do Google, lastreado pela tecnologia Language Model for Dialogue Applications (LaMDA), a exibição de informações incorretas acerca do Telescópio Espacial James Webb (JWST) contribuiu à queda de 7,7% das ações de sua controladora, a Alphabet, importando em um prejuízo de US$ 100 bilhões de valor de mercado [7].

Após unir esforços junto à Open AI, materializados em investimentos na ordem dos US$ 10 bilhões, a Microsoft promoveu a apresentação do novo Bing. A repaginada versão de seu buscador conta com a integração do ChatGPT, acessável por intermédio da aba "Chat" ou do recurso "Vamos conversar", capaz de dialogar com o usuário em até seis ocasiões numa mesma conversa.

Tal restrição ao número de interações não se deu por acaso. Após a exibição de respostas errôneas e imprecisas a indagações durante o evento, seguidas pelos relatos de comportamentos grosseiros e de "crises existenciais" pela ferramenta, a big tech confessou que interações prolongadas (com mais de 15 perguntas) contribuem ao seu descontrole [8].

Surpreendentemente, o alerta exprimido pelos episódios acima não reduziu, mas sim acelerou, o ritmo de propagação do modelo GPT, com o anúncio da Application Programming Interface (API) que permite a sua integração a produtos e apps — já efetuada por empresas como o Snapchat e a Shopify [9]. Inobstante a tentativa da empresa DoNotPay de incorporar o ChatGPT a audiências recursais de multas de trânsito, tratada nas colunas "ChatGPT: fim da linha para os advogados? (Partes 1 e 2)" [10], tenha se mostrado frustrada [11], o ímpeto de modernização também se estende à prática jurídica.

Nessa tônica, um juiz trabalhista valeu-se do chatbot para ratificar os entendimentos firmados em decisão alusiva ao direito à saúde de uma criança com transtorno de espectro autista na Colômbia. Em atendimento à Lei 2.213/2022, fomentadora do emprego das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) aos processos judiciais do país, o magistrado lhe direcionou quatro perguntas, cujas réplicas corroboraram a sua leitura acerca dos tópicos de isenção de taxas médicas, deferimento de ações de tutela, restrições a serviços de saúde e jurisprudência da corte constitucional [12].

Outrossim, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG) apresentou o Sistema Assistente Virtual de Inteligência Artificial (Savia), baseado no citado modelo e destinado a amparar magistrados, servidores e colaboradores na confecção de textos e documentos. Ao noticiar a aplicação embrionária em seu site, o órgão fez menção à sua possível incorporação futura à "redação de e-mails, portarias, resoluções, relatórios e textos em geral" [13].

Tal aplicação já se faz presente, todavia, na realidade dos demais Poderes. No início do mês de março/2023, um deputado estadual protocolou projeto de lei juntamente à Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), inteiramente elaborado por intermédio do ChatGPT e submetido à posterior revisão humana, acerca da fiscalização do estoque de medicamentos no Serviço Único de Saúde (SUS).

Diante da irrefreável expansão das inteligências artificiais generativas, ocupantes de um lugar cativo no noticiário, convém escutar o conselho oferecido pela produtora Rita (Andie McDowell) a Phil (Bill Murray), que contribui à sua libertação do espiral temporal tratado pelo filme que inspira esta coluna: "às vezes, eu gostaria de ter mil vidas. Não sei, Phil. Talvez não seja uma maldição. Só depende de como você olha para isso" [14].

Observar os avanços tecnológicos sob um prisma mais positivo, aliado ao necessário comedimento em relação aos perigos que comportam, parece a atitude ideal. De certa forma, vivenciar os saltos tecnológicos recentes pode representar uma bênção para as gerações digitais. Maximizar a produtividade, aguçar a criatividade e desbravar caminhos desconhecidos – todas, potencialidades viáveis de serem atingidas pelo uso do ChatGPT, mas que não eliminam os problemas dele provenientes.

Bill Gates acerta ao rotular o robô falante como algo "verdadeiramente imperfeito", enxergando obstáculos imediatos (impactos no mercado de trabalho) e mediatos (aplicações mal intencionadas) a serem enfrentados [15]. A minuta de substitutivo ao Projeto de Lei nº 21/2020,[16] inserida no relatório final elaborado pela Comissão de Juristas designada pelo Senado, pode desempenhar um papel relevante nesse sentido, ao elencar salvaguardas de caráter geral incidentes sobre o invento.

Compreender as complexidades, limitações e valências do ChatGPT e das demais IAs generativas torna-se chave para a quebra do "Feitiço do Tempo" narrado e o vislumbre dos acontecimentos futuros — e de suas possíveis repercussões ­— no horizonte tecnológico.

Apenas assim, um novo dia nascerá.

 


REFERÊNCIAS

BRASIL. Relatório Final. Comissão de Juristas Responsável por Subsidiar a Elaboração de Substitutivo sobre Inteligência Artificial no Brasil. Brasília/DF, 2022. Disponível em: https://bit.ly/3ZNhGB6.

 

BROCKMAN, Greg et al. Introducing ChatGPT and Whisper APIs. Open AI, [s.l.], 1 mar. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3Fdmk3B. Acesso em: 3 mar. 2023.

 

CORTIZ, Diogo. Entendendo as Alucinações do ChatGPT. Diogo Cortiz, São Paulo, 15 fev. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3mG6s36. Acesso em: 27 fev. 2023.

 

DASILVA, Steve. What Happened When a Startup Tried to Bring an AI Chatbot to Traffic Court. Jalopnik, [s.l.], 26 jan. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3Iydu1k. Acesso em: 14 fev. 2023.

 

FEITIÇO do Tempo. Direção: Harold Hamis. Produção de Columbia Pictures. Califórnia: Apple TV, 1993. Streaming.

 

KONRAD, Alex. Exclusivo: Bill Gates fala sobre ChatGPT e o hype da IA. Forbes, [s.l], 6 fev. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3IWaH3i. Acesso em: 14 fev. 2023.

 

LAVIGNE, Chris. How to Create an AI Generated Video with ChatGPT, Synthesia, and Descript. Wistia, [s.l.], 8. dez. 2022. Disponível em: http://bit.ly/40aBAGL. Acesso em: 5 mar. 2023.

 

NUZHOV, Vladislav. The unattainable pinnacle of art: why does Midjourney artificial intelligence draw 6 fingers on hands and how can it be fixed?. Gagagadget, [s.l.], 23 fev. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3F9wySI. Acesso em: 3 mar. 2023.

 

SCHENDES, William. Bing com ChatGPT fica com raiva e tem crise existencial. Olhar Digital, [s.l.], 16 fev. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3KFDWbN. Acesso em: 17 fev. 2023.

 

SCHENDES, William. Novo Bing com ChatGPT apresentou erros durante apresentação da Microsoft. Olhar Digital, [s.l.], 15 fev. 2023. Disponível em: http://bit.ly/41wxXfu. Acesso em: 19 fev. 2023.

 

SOARES, Gabriela. Em teste, ChatGPT falha em 2 a cada 5 respostas sobre posts falsos. Lupa UOL, Rio de Janeiro, 6 mar. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3F808Id. Acesso em: 7 mar. 2023.

 

THORBECKE, Catherine. Google perde US$ 100 bilhões após seu chatbot Bard cometer erro em demonstração. CNN Brasil, [s.l], 9 fev. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3ITiJsL. Acesso em: 14 fev. 2023.

 

TJMG apresenta SAVIA, nova ferramenta de inteligência artificial baseada no ChatGPT. TJMG, Belo Horizonte, 25 jan. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3ynX0UL. Acesso em: 25 fev. 2023.

 

 

 


[1] FEITIÇO do Tempo. Direção: Harold Hamis. Produção de Columbia Pictures. Califórnia: Apple TV, 1993. Streaming.

[2] NUZHOV, Vladislav. The unattainable pinnacle of art: why does Midjourney artificial intelligence draw 6 fingers on hands and how can it be fixed?. Gagagadget, [s.l.], 23 fev. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3F9wySI. Acesso em: 3 mar. 2023.

[3] SOARES, Gabriela. Em teste, ChatGPT falha em 2 a cada 5 respostas sobre posts falsos. Lupa UOL, Rio de Janeiro, 6 mar. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3F808Id. Acesso em: 7 mar. 2023.

[4] LAVIGNE, Chris. How to Create an AI Generated Video with ChatGPT, Synthesia, and Descript. Wistia, [s.l.], 8. dez. 2022. Disponível em: http://bit.ly/40aBAGL. Acesso em: 5 mar. 2023.

[5] CORTIZ, Diogo. Entendendo as Alucinações do ChatGPT. Diogo Cortiz, São Paulo, 15 fev. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3mG6s36. Acesso em: 27 fev. 2023.

[6] CORTIZ, Diogo. Entendendo as Alucinações do ChatGPT. Diogo Cortiz, São Paulo, 15 fev. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3mG6s36. Acesso em: 27 fev. 2023.

[7] THORBECKE, Catherine. Google perde US$ 100 bilhões após seu chatbot Bard cometer erro em demonstração. CNN Brasil, [s.l], 9 fev. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3ITiJsL. Acesso em: 14 fev. 2023.

[8] SCHENDES, William. Novo Bing com ChatGPT apresentou erros durante apresentação da Microsoft. Olhar Digital, [s.l.], 15 fev. 2023. Disponível em: http://bit.ly/41wxXfu. Acesso em: 19 fev. 2023; SCHENDES, William. Bing com ChatGPT fica com raiva e tem crise existencial. Olhar Digital, [s.l.], 16 fev. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3KFDWbN. Acesso em: 17 fev. 2023.

[9] BROCKMAN, Greg et al. Introducing ChatGPT and Whisper APIs. Open AI, [s.l.], 1 mar. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3Fdmk3B. Acesso em: 3 mar. 2023.

[10] As colunas encontram-se disponíveis em: https://bit.ly/3H4IZR3 (Parte 1) e http://bit.ly/3YtshA9 (Parte 2).

[11] DASILVA, Steve. What Happened When a Startup Tried to Bring an AI Chatbot to Traffic Court. Jalopnik, [s.l.], 26 jan. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3Iydu1k. Acesso em: 14 fev. 2023.

[12] A íntegra da decisão pode ser acessada em: https://t.co/tci6YcAPk6.

[13] TJMG apresenta SAVIA, nova ferramenta de inteligência artificial baseada no ChatGPT. TJMG, Belo Horizonte, 25 jan. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3ynX0UL. Acesso em: 25 fev. 2023.

[14] FEITIÇO do Tempo. Direção: Harold Hamis. Produção de Columbia Pictures. Califórnia: Apple TV, 1993. Streaming (tradução nossa).

[15] KONRAD, Alex. Exclusivo: Bill Gates fala sobre ChatGPT e o hype da IA. Forbes, [s.l], 6 fev. 2023. Disponível em: http://bit.ly/3IWaH3i. Acesso em: 14 fev. 2023.

[16] BRASIL. Relatório Final. Comissão de Juristas Responsável por Subsidiar a Elaboração de Substitutivo sobre Inteligência Artificial no Brasil. Brasília/DF, 2022. Disponível em: https://bit.ly/3ZNhGB6.

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