Segunda Leitura

Os relacionamentos no sucesso e felicidade nas profissões jurídicas

Autor

  • Vladimir Passos de Freitas

    é professor de Direito no PPGD (mestrado/doutorado) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná pós-doutor pela FSP/USP mestre e doutor em Direito pela UFPR desembargador federal aposentado ex-presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Foi secretário Nacional de Justiça promotor de Justiça em SP e PR e presidente da International Association for Courts Administration (Iaca) da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e do Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário (Ibrajus).

2 de julho de 2023, 8h00

Ninguém estuda cinco anos na graduação em Direito sem a meta de alcançar sucesso profissional e felicidade. Às vezes, além da graduação, dedicam-se mais anos de estudo para passar em concurso público, em uma ou mais pós-graduações para bem advogar ou em um mestrado para tornar-se professor.

Se os estudos sobre o papel dos relacionamentos na felicidade ainda estão pouco adiantados, os do sucesso profissional têm merecido maiores preocupações. Principalmente dos pais, eternamente preocupados com o futuro de seus filhos.

Spacca
Vejamos inicialmente o aspecto relacionamentos e felicidade, obviamente conectado com a atividade profissional. Afinal, o sucesso verdadeiro não é apenas ter bens acumulados ou, na linguagem de alguns rincões do Brasil, enricar. De nada adianta ter um avião no hangar, ser diretor da mais importante multinacional ou ser o procurador-geral deste ou daquele órgão, se a pessoa tiver um filho drogado.

Esta não é uma conclusão minha, mas de pesquisa da Universidade de Harvard, intitulada Study of Adult Development, a qual teve início em 1938, através da análise de 700 rapazes, parte estudantes da Universidade e parte moradores de bairros pobres de Boston, os quais foram acompanhados durante as suas existências [1].

O resultado foi apresentado pelo psiquiatra Robert Waldinger, quarto diretor da pesquisa, em palestra no TED, com a conclusão de que o importante para nos mantermos felizes e saudáveis ao longo da vida, é a qualidade dos nossos relacionamentos [2]. Portanto, amigos antigos ou novos, família, sentimento de pertencimento e outras condutas relacionadas com relacionamento podem originar mais felicidade do que atingir elevadas posições ou mesmo amealhar uma fortuna.

Mas, obviamente, não se está a negar que ter uma boa situação econômica ajuda muito, pois ameniza as dificuldades da vida. Principalmente na terceira idade, quando os problemas físicos chegam sem ser convidados e com eles as despesas médicas. Mais além do dinheiro, é essencial ser um profissional respeitado, querido, útil à sociedade e ao seu país. Será isso possível?

Sim, por óbvio. Darei alguns exemplos, mas não na área do Direito, pois isso me daria quatro agradecidos e quarenta magoados a odiar-me até o fim dos meus dias. Vejamos: na música, Toquinho e Paulinho da Viola, no teatro, Antônio Fagundes, na culinária, Rita Lobo, e no futebol, Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão. São carreiras bem-sucedidas, pessoas que transmitem segurança, felicidade e que, merecidamente, têm garantida uma vida e sobrevida feliz.

Passemos agora à importância dos relacionamentos para o sucesso nas profissões jurídicas. A primeira observação é a de que não existe resposta pronta e acabada para aquilo que os norte-americanos enfatizam como sendo um winner, um vitorioso na sua profissão e vida. Se houvesse um segredo, filhos de milionários repetiriam o sucesso do pai, após receberem a mais esmerada educação disponível no planeta. Na verdade, a vida mostra uma ausência de regras ou costumes que assegurem o sucesso.

Mas, se segredo não há, pelo menos algumas circunstâncias influenciam fortemente nas conquistas profissionais. E uma delas, com certeza, é ter bons relacionamentos. Nem sempre é fácil criá-los. É preciso tato, estratégia, para fazer novos contatos sem forçar situações, aproximar-se das pessoas mas mantendo a autenticidade, sem falsidade, apenas com intuito de alargar as conexões. E aí variantes se apresentam exigindo, por vezes, mudança de hábitos e condutas.

Temperamentos são diferentes, uns são extrovertidos, outros recatados. Extrovertidos levam vantagem, mas às vezes ela é só aparente. Em uma cidade conservadora, é grave erro forçar situações para alcançar intimidade, como aparecer à noite, de surpresa, para uma visita. Amizade e confiança se conquistam com o tempo.

Por sua vez, os tímidos não podem se dar ao luxo de fecharem-se em si mesmos, sob pena de ficarem isolados, esquecidos, com isso perdendo oportunidades profissionais ou momentos de felicidade. Vejamos um exemplo. Um tímido, recém-formado em Direito, almeja uma vaga de assessor no Tribunal de Justiça, cargo em confiança. Mas, como poderia alguém que dispõe de uma vaga no gabinete lembrar-se dele se não o conhece?

Por vezes o estudante ou profissional é de outro estado e, com isso, encontra dificuldades naturais. Não tem amigos de infância, parentes ou amigos de seus pais. Por óbvio, terá maiores obstáculos de relacionamento. Isso ocorre em qualquer cidade do Brasil e afirmações como "o povo daqui é muito fechado, na minha cidade é diferente" são equivocadas. O povo da nossa cidade parece-nos mais amigável só porque lá nascemos e crescemos. Mas em todas, independentemente do clima e situação geográfica, sempre haverá uma cautelosa resistência ao forasteiro. Essa resistência será menor se ele chegar para ocupar importante posição no serviço público ou na iniciativa privada. Maior, se nada traz senão a vontade de vencer.

Entretanto, se assim é a vida, isso não significa que as barreiras sejam intransponíveis. O caminho certo é adaptar-se ao novo local de moradia, elogiar tudo o que tem de positivo, ser cauteloso nas críticas e ir se adaptando ao novo sistema. Em outras palavras, amoldar-se aos novos hábitos e não esperar que os locais adotem os nossos.

Partindo dessas premissas, vejamos como pode uma pessoa, da terra ou de fora, aumentar sua rede de relacionamentos. Se for estudante, além das amizades por maior identidade de temperamento ou de sistema de vida, é essencial fazer outras tantas. Abrir o leque. Participar do Centro Acadêmico é uma grande oportunidade, mesmo que seja na mais insignificante das funções. Ali se convive com pessoas diferentes, ambições diversas, líderes, organização de eventos, contato com palestrantes e outras tantas. Ir ao aeroporto buscar o venerado palestrante de um evento pode ser o início de uma boa amizade.

Nessa fase da vida, outras formas de participação também são importantes. Atuar na defesa de necessitados permite conhecer os problemas e dificuldades que eles enfrentam. Participar de ações culturais (v.g., teatro ou música) alarga horizontes. Participar de uma ONG permite preparar-se para embates judiciais difíceis. Auxiliar como voluntário nos serviços de secretaria permite conhecer as coisas dentro do balcão. Todas experiências são válidas.

No relacionamento profissional, é preciso circular, conhecer pessoas. Nesse particular, os mais jovens devem tomar cuidado. Em que pese todo o processo de quebra da hierarquia existente na sociedade ocidental, dirigir-se a uma pessoa mais velha ou graduada como se fosse um parceiro dos shows de rock pode ser desastroso.

Assim, conhecer o presidente do Instituto dos Advogados e tratá-lo de "cara", pode ser fatal. Pedir o número do celular pode resultar em um não. Mas o pedido do e-mail e permissão para escrever pode ser bem recebido. Nesta hipótese, apresentar-se com o nome completo e, em poucas linhas, dizer quem você é. Jamais ao final colocar Terê ou algo parecido. Se tiver algum ponto em comum com a pessoa (p. ex., cidade de origem), bom será deixar isso explícito no texto.

Se for procurar contato com pessoa determinada, a primeira coisa a fazer é saber sobre sua vida, seu passado, preferências. Atualmente as redes sociais facilitam esta pesquisa. O que não se admite é cometer erros básicos, como falar em política sem saber a orientação do outro. Bajulação, jamais. Quando eu era juiz federal e alguém, para fazer-se de simpático, elogiava a Justiça Federal e criticava a estadual, eu pensava: "agora ele vai ao Fórum Cível e vai dizer a mesma coisa, apenas invertendo os papéis".

Os que ingressam em carreiras públicas, por mais importantes que sejam, não devem imaginar que não precisarão de mais nada ou de ninguém. Ocorre que o mundo não termina ali. Poucos anos depois a carreira pode tornar-se rotineira, enfadonha, e a procura de novos horizontes pode exigir relacionamentos. Por exemplo, um agente do MP que deseja fazer doutorado no exterior vai precisar da autorização do Conselho Superior. Um juiz que quer ser professor não será admitido em uma faculdade de peso apenas por sua condição funcional.

As manifestações nas redes exclusivas da classe são importantes. Vão muito além do auxílio recíproco em casos de dúvidas jurídicas, pois servem também para unir os que pensam de forma semelhante, criar ou sedimentar amizades. Da mesma forma nas redes sociais, onde é, sim, possível fazer ótimas amizades. Mas, neste particular, se exige cautela redobrada para evitar maus contatos e problemas. Frases ditas sob o calor da emoção podem suscitar inimizades eternas.

Em suma, sucesso e felicidade são possíveis nas profissões jurídicas, tudo a depender das opções de cada um e na forma de conduzir a sua vida.

 


[1] BBC News Brasil. Alejandra Martins, 23 nov. 2016. O que realmente nos faz felizes? As lições de uma pesquisa de Harvard que há quase oito décadas tenta responder a essa pergunta. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/curiosidades-38075589. Acesso em 21 jun. 2023.

[2] TED. Do que é feita uma vida boa? Lições do mais longo estudo sobre felicidade. https://www.ted.com/talks/robert_waldinger_what_makes_a_good_life_lessons_from_the_longest_study_on_happiness/no-comments?language=pt-br. Acesso em 21 jun. 2023

Autores

  • Brave

    é professor de Direito no PPGD (mestrado/doutorado) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná; pós-doutor pela FSP/USP, mestre e doutor em Direito pela UFPR; desembargador Federal aposentado, ex-Presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª. Região. Foi Secretário Nacional de Justiça, Promotor de Justiça em SP e PR, presidente da International Association for Courts Administration (Iaca), da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e do Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário (Ibrajus).

Tags:

Encontrou um erro? Avise nossa equipe!