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Tragédia ou farsa

Celso de Mello: o quanto se pode confiar no que diz Bolsonaro?

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A “Declaração à Nação” constante da Nota Oficial assinada por Bolsonaro em 09/09/2021 constituiria, no presente momento histórico que vive o nosso País, preocupante (e perigosa) (re)constituição da farsa do Pacto (ou Acordo) de Munich proposto, em 29/09/1938, por Hitler às principais potências europeias, em um instante de extrema, delicada e intensa tensão político-militar?

Quem ocuparia, nesse contexto, a posição ingênua de Neville Chamberlain, primeiro-ministro do Reino Unido, que, induzido a erro pelo Führer (cujo projeto totalitário de poder e ambição de expansionismo imperial eram inescondíveis), julgou, pateticamente, que o conflito seria evitado e a paz finalmente alcançada? Qual o coeficiente de credibilidade desse compromisso formalmente assumido por Bolsonaro?

O teor de sua “Declaração à Nação” mostra-se incompatível com a sua personalidade autocrática e inconciliável com a sua comprovada disposição de ultrajar a Constituição e de ignorar os limites que a Carta Política impõe aos seus poderes!

Como corretamente advertiu o Professor Sérgio Abranches, “Nota de recuo não vai mudar caminho de Bolsonaro rumo ao golpe”! Para resistir e frustrar qualquer subversão da ordem democrática (que traduz infame e desprezível ofensa à supremacia da Constituição), impõe-se — como assinala esse eminente Professor — a “formação de amplo consenso democrático”, que representará, neste momento, “o único meio [legítimo e pacífico] para interromper a escalada autoritária” daqueles que nutrem visceral desapreço pelo regime das liberdades fundamentais e pelo texto da Constituição!

A História, nesse episódio bolsonaresco, parece repetir- se!!! MARX, em seu “O 18 de Brumario de Luis Bonaparte”, inicia a sua obra, proferindo, logo no primeiro parágrafo, a sua célebre frase:

“Hegel observa (...) que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes.

E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa (...)”! A notória e irresponsável aversão de Bolsonaro ao cumprimento dos compromissos por ele próprio assumidos justifica que se ponha em séria dúvida o valor (e a sinceridade) de suas palavras... Se Bolsonaro revelar infidelidade ao que pactuou, terá dado plena razão à advertência segundo a qual a História, quando se repete pela segunda vez, ocorre como farsa!!!!

O fato é um só: A “Declaração à Nação” seria digna de fé ou constituiria mero recurso estratégico de Bolsonaro para iludir, mediante conduta desqualificada e tisnada pela eiva da farsa, aqueles que, fiéis à Constituição (como os Juízes do Supremo Tribunal Federal), buscam implementar o necessário convívio harmonioso entre os Poderes da República?




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 é ministro aposentado e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal.

Revista Consultor Jurídico, 11 de setembro de 2021, 8h45

Comentários de leitores

8 comentários

Celso de Mello

Arlete Pacheco (Advogado Autônomo - Trabalhista)

Perguntar não ofende: o quanto se pode confiar em Celso de Mello senhor advogado Saulo Ramos? O que ele diria se ainda vivo?

A economia vai sepultar o fascismo de Bolsonaro

Adir Campos (Advogado Autônomo - Administrativa)

Apesar de ser mais um blefe, uma encenação entremeada com o irritante disse-e-não-disse, o governo do senhor Jair Bolsonaro caminha para um fim patético.
Não conseguiu unir a direita nestes três anos. E agora, frustrou sua cartada maior, que era colocar muitas centenas de milhares de pessoas em Brasília e São Paulo e um forte aparato para-militar para deflagar o auto-golpe tão sonhado por sua delirante manada de seguidores.
Para por uma pá de cal nos delírios golpistas de quem ainda acredita nesse canastrão grotesco, basta olhar para a economia. Aí está o desenho claro e preciso do fim do ideário nazifascista.
A mesma economia que afundou a ditadura militar, o governo de Sarney, de Collor e de FHC.
O único governo que a economia não afundou nestes 40 anos foi o de Lula, que saiu com mais de 87% de aprovação e um PIB com taxa de 7,5%.
Dilma é um caso a parte, pois, apesar da economia causar sua ruína, o fator determinante foi a crise política criada artificialmente para pavimentar o golpe parlamentar da trinca Aécio-Cunha-Temer.

Hein?

Afonso de Souza (Outros)

Seu comentário só reforça o que escrevi acerca deste site hoje ser mais político que jurídico. Minha observação se estende aos comentaristas.
Você é só um militante político; duvido mesmo que acredite nessas bobagens sobre "nazifascismo", o desempenho da economia em Lula e no "golpe" em Dilma.
P.S. Bolsonaro está hoje na presidência em grande medida graças a vocês.

Confiar em alguém que não existe?

Silva Cidadão (Outros)

A dúvida não deveria ser sobre o Bolsonaro, mas, sim, sobre quem o orienta e dita as normas do seu governo, a exemplo do MALAFAIA, CIRO NOGUEIRA, ONIX, EMPRESÁRIOS e outros descompromissados com o interesse público, que, simplesmente em troca de vantagens pessoais encorajam e fazem uso do VAQUEIRO BOCÓ, e este como tem uma natureza própria de idiota e sem responsabilidade com as pautas governamentais, vomita diariamente as besteiras que alimentam seus GADOS e fazem notícias nos veículos de imprensa.

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