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É hora de CPI ou de cuidar do povo?

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Nos últimos dias, se tem observado um certo estremecimento entre os poderes. Não é hora. É algo tão óbvio que chega a ser primário. Não é hora de esticar a corda, pois todos podemos estar com ela no pescoço. Processos como Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), impeachment e "lava toga" sempre se transformaram em palcos mais políticos do que técnicos e, por isso, podem causar instabilidade em momento em que todos deveriam se unir para combater a pandemia que assusta e assola o mundo. Mesmo em países que registraram até maior número de óbitos não há nenhuma indicação de realização de investigações ou CPIs. Ao contrário, na Inglaterra essa proposta foi enterrada justamente por entenderem que é hora de tratar da Covid-19-19. Entretanto, no Brasil, além da instalação de uma CPI, há pelo menos 61 investigações em curso na Polícia Federal relacionadas à pandemia e vários governadores sendo investigados.

É claro que não se pode esquecer dos inúmeros hospitais de campanha contratados e até pagos e que, infelizmente, acabaram não saindo do papel, causando até prisões por recursos alegadamente desviados, bem como os bilhões de reais que foram transferidos pelo governo federal aos estados justamente para o combate à Covid-19.

Mas também não é preciso ser um analista político para perceber que o vírus se transformou em moeda ou causa política. O resultado é que há uma tendência a ver sempre somente a metade vazia do copo. Quase não se destaca o fato de que o país está prestes à marca de cem milhões de doses de vacinas distribuídas em menos de quatro meses (vários Portugais). O Reino Unido, por exemplo, primeiro país do Ocidente a iniciar a vacinação, precisou de mais de cem dias para superar as 30 milhões de doses, mesmo tendo dimensões bem menores do que a do Brasil, e é o quarto em número de vacinados, devendo, segundo os números, o Brasil passá-los em uma semana.

Pois bem, diante disso, tal como a Inglaterra, não seria a hora de uma trégua temporária, em que todos os setores da sociedade e governos (municipais, estaduais e federal) lutassem juntos para vencer o inimigo comum? Até nas piores guerras há períodos de armistícios, seja por questões religiosas, políticas e, principalmente, para cuidar dos doentes e velar os mortos.

Sem falar na disputa desenfreada entre os laboratórios, comércio de trilhões de reais, tendo a população mundial como verdadeiro repositório de cobaias e testes, até certo ponto suportado diante do quadro, rogando não apareçam eventuais efeitos colaterais graves.

É hora de paz, trégua ou armistício. Os esforços devem ser concentrados e direcionados. Não deve, por ora, haver desvios no objetivo de debelar a crise sanitária, por mais ou menos motivos que eventuais fatos possam amparar investigações em qualquer dos três poderes.

Emparedar poderes, de qualquer das esferas, e seus líderes ou membros não é exemplo para uma sociedade que não aguenta mais o uso da peste como bandeira política.

Desde quando a união faz a força? Desde sempre! Sigamos, então, com esse slogan. A sociedade brasileira sempre foi amistosa e agora clama por paz para poder se concentrar na solução do problema, pois, pacientemente, aguarda 2022, ano de eleição, ocasião em que terá de se submeter novamente à politização do tema e da especulação, bem como à caçada aos responsáveis pelo coronavírus, como se isso fosse uma reserva de "mercado" brasileira.

A sociedade brasileira espera altruísmo dos envolvidos. Isso é impossível, dirão alguns, no atual cenário, mas a esperança de dias melhores está no DNA do ser humano.




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 é desembargador no TJ-RJ e presidente da Associação Nacional dos Desembargadores (Andes).

Revista Consultor Jurídico, 21 de maio de 2021, 17h08

Comentários de leitores

8 comentários

Discordo totalmente

AC-RJ (Advogado Autônomo)

Combater a corrupção e o mau gerenciamento de vários governadores e prefeitos também faz parte de medidas protetivas a favor da população para se defenderem da pandemia chinesa.

É no mínimo um crime hediondo vários governadores e prefeitos tendo recebido enormes quantias do governo federal, as tenham desviado ou desperdiçado.

Ao contrário do que o artigo sustenta, não se deve dar trégua a quem comete tais crimes hediondos. Devem ser investigados e punidos com o máximo rigor o mais rápido possível, dada a elevada e injustificável quantidade de mortes que provocaram. A população não pode esperar mais.

Perfeito quanto ao conteúdo e momento

Fernando Lemme Weiss (Procurador do Estado)

O Brasil está tentando se recuperar de duas recessões recentes, a primeira decorrente da malversação de recursos públicos (2015/2016) e a segunda da Covid. A hora é de construir e não de sabotar.

Parabéns pela Reflexão

Alex Tavares dos Santos (Procurador Federal)

Excelente reflexão, Marcelo. Mais uma vez, o que se vê é a priorização dos interesses partidários sobre o interesse público; é o povo sendo tratado como mero pretexto. Só não enxerga quem, interessado na questão partidária, bloqueia a própria visão para não alcançar, propositadamente, o panorama completo e real. Mas são apenas os registros de uma opinião e da congratulação pela coragem de escrever sobre isso em um momento em que as paixões tem se sobreposto à razão, até em pessoas inteligentes e, eventualmente, bem intencionadas.

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