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A falta que a Avenida Niemeyer faz à cidade do Rio de Janeiro

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*Artigo originalmente publicado na edição desta segunda-feira (2/3) do jornal O Globo.

Única alternativa ao Túnel Dois Irmãos, que liga os bairros de São Conrado e Leblon, a Avenida Niemeyer, no Rio de Janeiro, está fechada desde o dia 27 de maio do ano passado. Segundo dados oficiais, deixaram de circular por ali, diariamente, cerca de 36 mil veículos. Apesar de sua importância, a via foi interditada por razões de segurança, depois de ser atingida por deslizamentos de terra.

Como condição para a reabertura da Niemeyer, a Justiça determinou que a prefeitura fizesse obras de drenagem e contenção de encostas para reduzir os riscos de novos deslizamentos. Em janeiro, o município informou que investiu mais de R$ 34 milhões e realizou 56 intervenções que garantiram a segurança da via. As obras emergenciais estão concluídas.

Mesmo assim, o que se vê é uma queda de braço entre a prefeitura, o Tribunal de Justiça e o Ministério Público estadual, encarregado de dar parecer sobre o pedido de reabertura.  Agora mesmo, encontra-se nas mãos do MP o relatório do Instituto de Geoténica do Rio (GEO-Rio) a favor da reabertura. Só após a manifestação do MP, a Justiça tomará sua decisão.

Essa situação não interessa a ninguém. O fechamento da Niemeyer prejudica as populações da Barra, do Recreio e da Zona Oeste que utilizam a Niemeyer. E também afeta a vida das comunidades próximas, como a Rocinha e o Vidigal. Enquanto os Poderes se engalfinham, os motoristas que trafegam entre a Barra e a Zona Sul enfrentam longos engarrafamentos. São horas e horas perdidas, além da perda de empregos. Cai o movimento do comércio, cai a arrecadação do município.

Os hotéis da região chegaram a enfrentar 80% de queda na taxa de ocupação. O que levou ao fechamento de três motéis e dois hostels em São Conrado e no Vidigal. Mesmo hotéis maiores como o Sheraton e o Nacional — este recentemente recuperado graças a fortes investimentos — sentem reflexos negativos.

Com a Avenida Niemeyer fechada, o Rio também perde um de seus mais belos cartões postais. Nossa cidade foi tomada de turistas por conta do carnaval, mas eles vão se despedir sem ter tido acesso àquela vista excepcional. É uma pena.

Em defesa do Rio e do direito de ir e vir previsto na Constituição, a Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ) entende que se faz urgente a conciliação entre as partes envolvidas. Não adianta buscar quem tem a razão, mas, sim, encontrar a solução para a abertura da Niemeyer.

Em vários países, vias em encostas operam com cancelas que são fechadas nos momentos de condições climáticas perigosas. Aqui no Rio, esse mecanismo ja é adotado no Alto da Boa Vista e na Estrada de Furnas. Com sucesso!

A ACRJ conclama o Poder Judiciário, o Ministério Público e a prefeitura a se sentarem à mesa e retomarem as negociações, se necessário com mediação federal. Chegou a hora de reabrir a Avenida Niemeyer!

Angela Costa é presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ).

Revista Consultor Jurídico, 5 de março de 2020, 12h04

Comentários de leitores

4 comentários

Bom-senso e conhecimento de causa

Fernando Antonio Barradas Fernandes (Outros - Tributária)

Abrangente relato em poucas linhas e considerações pertinentes, todos esperam diretrizes e linhas de ação que restabeleçam a normalidade (das aparências). À primeira vista, soa absurdo essa frustação de acesso a um trecho de bairro do RJ em pleno 2021, mas não é surpresa, as decepções e infortúnios é que são recorrentes, enquanto as soluções meramente paliativas.

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Estrada da Gávea

Sérgio Niemeyer (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

A Estrada da Gávea devia ser uma rota alternativa, mas o Estado se ausentou da região e a perdeu para os traficantes da favela da Rocinha. Uma tristeza, uma decepção, e uma desilusão. Constata-se que o Estado age tal como as milícias e os traficantes, só que contra as pessoas ordeiras, que pagam seus impostos, mas não têm nada em troca. Já os favelados... bem, parece que, apesar da opressão que sobre eles exerce a milícia e os traficantes, obtêm destes algo a mais do que o Estado oferece aos cidadãos.
Triste realidade.
(a) Sérgio Niemeyer
Advogado – sergioniemeyer@adv.oabsp.org.br

Sim, faz falta, mas não deveria ser assim! (1)

Sérgio Niemeyer (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

A Av. Niemeyer, foi construída no início do século XX pelo Comendador Niemeyer para dar novo acesso ao que hoje é o bairro de São Conrado, antes apenas pela Estrada da Gávea, que ainda existe, mas por passar no meio da favela da Rocinha (com cerca de 350 mil habitantes) e dominada pela criminalidade (traficantes, milícias etc), e porque nessa área a ausência do Estado é praticamente absoluta, a Estrada da Gávea não é utilizada pelos que apenas dela fariam uso de passagem. Dá medo passar por ela nos dias de hoje.
Fui morar em São Conrado aos 6 anos de idade. Na década de 60 não havia o Túnel Dois Irmãos, hoje Túnel Zuzu Angel. Quando chovia e caía barreira na Av. Niemeyer, minha mãe ia sozinha com três filhos pequenos pela Estrada da Gávea. De regra, quando chovia naquela época, o bairro ficava sem energia. E fazer uma ligação telefônica entre o bairro de São Conrado e qualquer outro da cidade exigia intervenção da telefonista da operadora, como se fosse uma ligação interestadual.
O problema, que nenhum governante jamais tratou desde que São Conrado deixou de ser uma fazenda e suas terras foram loteadas, transformando-a em um bairro, é que a cidade só podia crescer para aqueles lados, isto é, em direção à Barra da Tijuca, Recreio, Vargem Grande, Guaratiba, Campo Grande, Sepetiba, pois, do outro lado fica a Baía de Guanabara, além da qual fica a cidade de Niterói.
Então, pela quantidade de terra disponível naquela época, era absolutamente previsível que a cidade cresceria, e muito mais rapidamente do que se pudesse imaginar, em termos de densidade demográfica, para o oeste ou sudoeste.
Porém, nenhum governante jamais se preocupou em prover acesso e urbanização adequados para essa expansão natural e até exclusiva da cidade.
(continua)...

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Sim, faz falta, mas não deveria ser assim! (2)

Sérgio Niemeyer (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

2(continuação)...
Quando, na década de 70, sob o governo Chagas Freitas, construíram o Túnel Dois Irmãos e os Túneis do Joá e da Barra, fizeram-nos com apenas duas faixas de rolamento para ir e duas para voltar. Mas já era previsível que em pouquíssimo tempo isso iria colapsar. Já naquela época deveriam projetado o crescimento da cidade com aquele vetor para o oeste / sudoeste e construído vias largas de acesso, com no mínimo 5 ou 6 faixas de rolamento em cada sentido.
Mas... como no Brasil toda obra pública é feita “nas coxas” para ser refeita em pouco tempo, ou para ser ampliada em pouco tempo, tudo para garantir a realização de licitações cujo fim maior nunca é o bem público, mas dos partidos políticos, como provam os fatos mais recentes envolvendo grandes empreiteiras, o resultado é esse que hoje se assiste. Uma tragédia atrás da outra. Um caos. Uma grande tristeza.

(a) Sérgio Niemeyer
Advogado – sergioniemeyer@adv.oabsp.org.br

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