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Opinião

Dez ensinamentos para um jovem advogado

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Os estudantes de Direito devem se preparar para enfrentar um mercado profissional cada vez mais competitivo, automatizado, globalizado e abalado por crises econômicas e sanitárias como a da Covid-19. Tive a oportunidade de compartilhar as experiências da minha trajetória — de advogado, professor e árbitro — em um almoço com jovens advogados antes da pandemia.  Confesso que minha primeira reação ao convite foi de um leve desconforto. Afinal, sabendo do difícil trajeto que os jovens lá presentes teriam a desbravar, não queria iludi-los ou decepcioná-los.

Como advogado no dia a dia e empresário nas minhas horas vagas, ressalto que jovens profissionais transitam bem na área do Direito Empresarial, sobretudo pelas ideias inovadoras e pela energia empregada no seu cotidiano de trabalho.

No ancien régime, do qual faço parte, o advogado era consultado quando um problema já estava em curso e alguma medida legal precisava ser tomada. Nos dias atuais, jovens advogados atuam exponencialmente de forma preventiva, já que os empresários têm entendido que vale mais estruturar seus negócios também na esfera jurídica, para que problemas futuros sejam evitados.

Nesse sentido, é exigido do advogado, mesmo que tenha recém-ingressado em sua carreira jurídica, uma antecipação de condutas e a capacidade de adotar uma postura ostensiva para orientar seus clientes além das consequências jurídicas tradicionais de uma operação. Esse novo e desafiador universo jurídico exige que o jovem advogado busque integrar ao seu conhecimento alguma expertise de áreas correlatas.

Nas entrevistas do livro "Grandes Advogados", das quais tive a honra de participar, há uma ideia clara de que o sucesso profissional no Direito é um processo complexo, que resulta de fatores muito distintos. Além de existir dedicação aos estudos, rapidez na atualização, habilidade na arte da palavra e do conhecimento, empenho na competição profissional ou o acaso de estar na hora e no local certo, há também um componente comum em todos os casos: a paixão pela ciência do Direito.

Sob uma ótica positiva, a paixão impulsiona o estudante e o profissional na busca do crescimento pessoal. É essencial mesmo, a nutrição desta paixão desde a faculdade. Seu entusiasmo irradia-se e gera reflexos que ele, geralmente jovem e pouco experiente, nem tem condições de avaliar. Uma vez formado o profissional, a paixão alavancará sua carreira.

Naturalmente, surge a grande questão na cabeça dos jovens advogados acerca de como se inserir nesse mercado e de que forma agir para ganhar espaço e reconhecimento pelo trabalho e esforço despendidos.

Em síntese, destaco dez pontos que julgo serem os mais relevantes para revisão frequente de jovens advogados, a saber: 

1) Dedicação à educação continuada: buscar uma área de expansão com foco na sua área de atuação, com objetivo não só de aprender, mas também de se preparar para desafios imprevisíveis que possam surgir no caminho. Deve-se entender a necessidade de capacitação como um processo contínuo. Sem dúvida, a especialização é um fator de destaque num cenário cada vez mais competitivo;

2) Cercar-se de bons líderes: o primeiro passo para o sucesso no mercado de trabalho, especialmente no mundo corporativo, é cercar-se de bons líderes. A escolha de um mentor capaz de desenvolver suas habilidades e lhe instruir dentro da área que o jovem advogado tem mais afeição é deveras importante. Vale lembrar que os líderes de hoje já foram mentorados pelos líderes de ontem.

3) Networking: estar inserido em hubs e nos lugares certos. Estabelecer novas conexões e amizades que irão expandir suas relações, de modo que, de uma boa conversa, além de um bom aprendizado, possa surgir uma grande oportunidade no mercado de trabalho;

4) Boa comunicação: ao lidar com clientes, boa parte do trabalho de um advogado é aconselhar e negociar.  Por isso, a comunicação clara e objetiva é indispensável, devendo ser sempre enriquecida através de boas leituras e conversas com pessoas qualificadas. Um bom comunicador sempre atrai a confiança das pessoas que o rodeiam;

5) Gestão de tempo: A gestão do tempo é um dos grandes desafios para advocacia, como em outras áreas. Elaborar uma atenta e criteriosa lista de tarefas e compromissos de acordo com a importância e urgência de cada um. Devendo-se evitar ao máximo a procrastinação, mas sempre atento que cada coisa tem seu tempo e hora para ser realizada;

6) Disciplina financeira: planeje seus gastos de acordo com o que você ganha. Poucas pessoas economizam mais do que gastam. Entender melhor sobre como poupar, investir e ter sucesso irá gerar um impacto positivo na sua autoestima. No livro "Fora da Curva", que tive o prazer de organizar junto a profissionais renomados, contamos histórias de alguns investidores brasileiros em que se pode aprender através de relatos pessoais e honestos surpreendentes como construir trajetórias sólidas e de sucesso;

7) Planejar suas ações: planejar é conhecer o próximo passo e estar ciente dos riscos envolvidos no trajeto. Um bom advogado estuda e mede as consequências de cada novo passo, a fim de minimizar eventuais riscos e aumentar a chance de êxito na tomada de decisões;

8) Esperar o momento certo: o imediatismo é uma questão da geração atual, como uma promoção, um aumento de salário e cargos de liderança. A tendência é querer pular etapas. Chegar ao final sem passar por todo o processo: o começo, os desafios, os obstáculos. Costumo dizer que a vida é uma maratona, não uma corrida de cem metros rasos. É preciso ter calma e resiliência para atingir seus objetivos, viver as experiências, fechar os ciclos e, assim, com elas aprender;

9) Flexibilidade e adequação: estar sempre atento às novas áreas do Direito. Perceber as oportunidades que surgem e ter flexibilidade de se ajustar em uma determinada direção. Adequar sua formação e seu conhecimento profissional para onde as oportunidades estão surgindo. Conforme a metáfora de velejador, "posicionar seu barco para o lado que o vento está soprando";

10) Gestão de imagem:  Conquistar a confiança dos potenciais clientes, esta despertada em razão da expectativa de competência jurídica, compromisso e disponibilidade de contato com o advogado. Construa uma rotina de hábitos que associem sua imagem a estas características, seja por seu comportamento, postura, pelo contato frequente com clientes, seu escritório.

As dez diretrizes sugeridas acima devem ser entendidas como conceitos básicos a serem aplicados por todos os jovens advogados no exercício de sua atividade profissional. Oportunidade em que os tópicos supracitados podem ser de grande valia, desde que aplicados com parcimônia e de maneira correta. Em um mercado cada vez mais competitivo, quanto maior for o diferencial do jovem advogado, maior sua chance de êxito no início da caminhada

É claro que o papel individual de um jovem advogado não é algo evidente no início de sua carreira profissional. No entanto, a perseverança de garantir diariamente uma atuação integra será sempre bem reconhecida e é nela que se encontra a felicidade.




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 é advogado, árbitro, professor do Insper e professor visitante na St.Gallen University, na Suíça.

Revista Consultor Jurídico, 7 de junho de 2020, 11h08

Comentários de leitores

2 comentários

Boas lições

O IDEÓLOGO (Cartorário)

O Doutor Pierre apresenta boas lições.
Mas, como prosperar em um mundo cheio de incertezas? A incerteza é alguma coisa desejável?
O que vale mais? Uma pós - graduação ou a empatia do cliente?
Por que certos clientes não gostam de advogados falantes, e preferem os quietos?
Por que aquele gerente incompetente gosta de advogados, também, incompetentes?
Quem é o eficiente?
É preferível lontra a um leão?
O que não se deve dizer a um cliente?

Estudo

Pierre Moreau (Advogado Sócio de Escritório - Comercial)

Gostei das indagações apresentadas no comentário intitulado Boas Lições. Agradeço as considerações feitas pelo O Ideólogo (Cartorário). Não tenho as respostas para todas as perguntas. A incerteza faz parte. Realizar pós-graduação, se dedicar à ciência do Direito e ter bom relacionamento interpessoal são importantes.

Comentários encerrados em 15/06/2020.
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