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Ideias do Milênio

"No futuro haverá trabalho, mas ele exigirá adaptação e novas qualificações"

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Entrevista concedida pelo dinamarquês Peter Kronstro, diretor do Instituto Copenhagen de Estudos Futuros, ao jornalista Marcelo Lins para o Milênio — programa de entrevistas que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira, com reprises às terças (4h05).

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Junto com “quem somos” e “de onde viemos”, outra pergunta alimenta a curiosidade da humanidade desde sempre: “para onde vamos?” Tão mais importante do que saber se existe vida após a morte, é saber o que existirá amanhã, depois de amanhã, daqui a dez anos ou 50, naquilo que se convencionou chamar de futuro. E não falta, nunca faltou, gente tentando prever o futuro, mesmo que essas previsões ou adivinhações tivessem quase sempre que ser adaptadas. E para além do misticismo e das artes, o questionamento invadiu o campo das pesquisas faz tempo, e o futurólogo é um estudioso que tenta desenhar o que não conhecemos a partir das informações que já temos. Gente como o dinamarquês Peter Kronstrom, que trabalha no Brasil, no braço latino-americano do Instituto Copenhagen de Estudos Futuros. Ele falou ao Milênio sobre algumas das tendências dessa realidade em construção.

Marcelo Lins — Nós sabemos um pouco sobre nosso passado, tentamos entender o presente e o que estamos fazendo com ele, mas o futuro é desconhecido. Por que você escolheu estudar o futuro?
Peter Kronstrom —
Há várias boas explicações. Para dar uma resposta curta, acho que o futuro é um lugar fascinante. E nós, seres humanos, gastamos de 70% a 85% de nosso tempo acordado pensando no futuro. Todos nós. Meu interesse é tentar garantir um futuro melhor, ou tentar descobrir como o futuro está nos impactando hoje. No Instituto Copenhagen, nós estudamos o futuro porque acreditamos ser a melhor forma de proteger os valores de nossa sociedade e evitar destruição desnecessária para que possamos nos preparar para algumas mudanças que virão e promover ajustes a tempo.

Marcelo Lins — Há quem ache que o futuro é uma coisa que ainda vai acontecer. Eu tendo a achar que o futuro é algo que está acontecendo.
Peter Kronstrom —
Na verdade, eu sempre digo que o futuro não existe. O que existe é apenas este momento, o presente, e o futuro está sendo construído neste exato momento. O que existe em relação ao futuro não está ligado ao presente, mas uma série infinita de futuros possíveis. Muita gente acha que o futuro é um monstro que pode mudar tudo, tirar nossos empregos e tal, mas nós achamos que o futuro não é um monstro, é algo que faz sentido e que precisamos analisar porque ele está sendo criado neste momento.

Marcelo Lins — O que o faz achar que a forma como vê o futuro é mais precisa do que as visões do passado?
Peter Kronstrom —
O nosso objetivo não é acertar na mosca necessariamente, porque ninguém conhece o futuro. Não há como conhecê-lo. Nosso objetivo não é acertar 100%, é tentar analisar objetivamente o que está acontecendo e imaginar como isso impactará o futuro. E concordo com você que muitas visões imprecisas do futuro nos foram apresentadas no passado, mas o que vemos na obra de George Orwell está acontecendo hoje na China. É a manifestação da visão dele. Talvez ele não estivesse tão equivocado sobre a sociedade sob vigilância para a qual estamos caminhando. Mas o nosso instituto tem 50 anos, ele existe desde 1969, então temos 50 anos de experiência prática em análise estatística, em ver o que aconteceu para olhar para a frente e entender o que está acontecendo. Porque o grande drama em relação ao futuro é que sempre achamos que algo vai acontecer e geralmente acontece o oposto.

Marcelo Lins — O professor Klaus Schwab, do Fórum Econômico Mundial, o homem por trás desse grande evento anual que acontece em Davos, na Suíça, defende a ideia de que estamos no meio da quarta revolução industrial com suas fronteiras indistintas entre o que é humano, tecnológico, biológico e outras coisas. Você acha que de fato estamos passando por uma revolução ou trata-se de um movimento em curso irreversível?
Peter Kronstrom —
Nossa análise mostra que parece ser um movimento irreversível em curso. Nós concordamos com Klaus Schwab em vários pontos. Lançamos um relatório chamado Tecnologia e o Futuro em 2014 que fala muito sobre as mesmas coisas, porque analisamos tendências fortes que impactarão as sociedades e vemos uma aceleração que leva a forma como usamos a tecnologia a um novo patamar. Mas na verdade nós usamos tecnologia desde a Idade da Pedra, com as primeiras ferramentas.

Marcelo Lins — Aquilo já era tecnologia.
Peter Kronstrom —
Já era tecnologia. Na nossa visão, novas tecnologias sempre tiveram o potencial de revolucionar e vêm revolucionando desde a Idade da Pedra. Portanto, trata-se de um processo em curso. Não é algo completamente novo, mas talvez hoje seu impacto seja aparentemente muito maior porque todos nós estamos conectados. O mundo todo está conectado. Conhecemos todas as novas invenções ao mesmo tempo, então parece que as coisas avançam mais rápido hoje e causam um impacto mais profundo.

Marcelo Lins — Na sua opinião, pelos seus estudos, o futuro do trabalho é algo que devemos temer ou de que devemos nos orgulhar e querer chegar logo lá, porque teremos muito tempo disponível? Além disso, nós temos hoje as ferramentas para afirmar quais empregos serão criados num futuro próximo?
Peter Kronstrom —
Vou começar pela segunda pergunta. Não, não temos as ferramentas, porque sequer imaginamos quais serão esses empregos. Mas nós acreditamos que sempre haverá trabalho porque a história da humanidade é uma demonstração muito longa de como somos bons em complicar as coisas. Então achamos que sempre haverá trabalho, mas o que estamos vendo e veremos muito mais ainda no futuro é o que chamamos de desemprego estrutural. Isso significa que haverá demanda por trabalhadores, mas não haverá mão de obra qualificada. Haverá uma fase de adaptação na qual a mão de obra terá que se requalificar, e muitas das qualificações necessárias hoje se tornarão obsoletas. Portanto haverá uma adaptação, mas não acreditamos na ideia de que o trabalho desaparecerá. Acreditamos que temos as ferramentas e o potencial para tornar o trabalho muito mais agradável, que não haverá tantos trabalhos que prejudiquem nosso corpo, o que chamamos de... Com robôs, computadores e tudo mais. Provavelmente o trabalho será bem mais divertido e ligado aos nossos interesses, que desenvolveremos com o tempo.

Marcelo Lins — Há espaço nesse futuro que está sendo construído para algo que algumas pessoas defendem como saída para os nossos problemas, inclusive o desemprego estrutural, como o salário mínimo universal, que é muito discutido hoje?
Peter Kronstrom —
Não acreditamos que um salário mínimo universal, como o salário cidadão, seja uma saída muito viável. Mas achamos que muitos governos terão de arcar com a responsabilidade de lidar com esse problema, porque, em relação ao uso da tecnologia e à globalização, uma forte tendência que identificamos é a polarização. A diferença entre ricos e pobres, entre a educação de qualidade e de má qualidade, está cada vez maior. Então, para restringir alguns dos grandes problemas que imaginamos que podem acontecer, os governos precisam investir muito mais em educação. Graças à velocidade dos avanços tecnológicos, a educação nunca foi tão importante. Principalmente para entender a tecnologia, para entender como ela está nos afetando. Portanto é extremamente importante mudarmos a forma de ensinar para encontrarmos uma saída. Mas nós também temos de começar a repensar o que queremos enquanto sociedade.

Marcelo Lins — Na sua opinião, qual é o papel da educação nessa construção do futuro e quais são as principais tendências e mudanças que devemos esperar?
Peter Kronstrom —
Essa é uma ótima pergunta, e é uma pergunta que nos preocupa muito, porque uma das coisas mais vitais para nosso futuro é a educação, é preparar pessoas para o futuro. E, ao olhar para o futuro, vemos muita incerteza. Ninguém sabe quais serão as habilidades necessárias para se ter sucesso no futuro. Nós achamos que nosso sistema de ensino precisa passar por uma mudança de paradigma. Não faz o menor sentido a forma como ensinamos hoje. Em primeiro lugar, temos um bloco enorme de educação no início da vida e achamos que vamos aprender um ofício e trabalhar com ele o resto da vida. Não faz o menor sentido, porque estamos evoluindo tão rápido que precisamos nos atualizar cada vez mais. Chamamos essa tendência de explosão do conhecimento. Estamos acumulando e criando tanto conhecimento que o conhecimento que adquirimos na educação formal fica desatualizado muito rápido. Então acreditamos no conceito de aprendizado vitalício. É preciso haver uma mudança. A educação não pode se concentrar só no início da vida, mas ao longo da vida. Além disso, não devemos continuar ensinando habilidades fixas. Devemos fazer nossos jovens e também os mais velhos aprenderem a aprender, o que chamamos de metacognição. As disciplinas não são tão importantes; o mais importante é ter professores e um sistema que apoiem e facilitem a evolução da curva de aprendizado de cada aluno. Não importa tanto o que aprendemos, mas a habilidade de aprender a aprender para continuarmos aprendendo o resto da vida.

Marcelo Lins — Aprender a sermos mais críticos, a pensar de forma crítica. Em relação às tendências, vemos algumas tendências confusas surgindo ao mesmo tempo. Falamos aqui que estamos produzindo quantidades imensas de informação, tecnologia e conhecimento. A tecnologia nos ajuda de muitas formas. Ela também pode alimentar guerras e estados de guerra, mas pode nos ajudar na saúde, no nosso dia a dia e tal. Ao mesmo tempo, vemos no mundo todo a tendência de pessoas que querem voltar a um passado perfeito que na verdade nunca existiu. O ultranacionalismo, o isolacionismo que vemos hoje aqui e ali e que pode levar ao extremismo, à xenofobia, ao racismo, ao medo do diferente, do outro. Como esse tipo de estudo pode nos proteger da armadilha dessas visões extremistas?
Peter Kronstrom —
Desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo passou por um desenvolvimento bastante estável em termos do papel da democracia. O que estamos vendo agora, infelizmente, é um retrocesso dos valores democráticos. Portanto, estudar o futuro e também o passado, obviamente, e a ligação entre o passado e o futuro, ajuda a perceber se estamos indo numa direção estranha. Porque o que nossa última análise mostra é que a democracia não está garantida. Vemos hoje muitas visões populistas porque o mundo está evoluindo rápido e há muita informação e muita desinformação que levam as pessoas a assumir pontos de vista loucos. E acabamos de fazer estudo que mostra que aumentou o número de pessoas que começam a acreditar que a democracia talvez não seja a melhor forma de sociedade, que talvez seja melhor ter um líder forte. Isso é uma preocupação para alguns e uma vantagem para outros, mas precisamos entender que isso está acontecendo e o que queremos como sociedade, como queremos seguir adiante. Estamos navegando águas turvas, podemos dizer, porque o que o mundo livre tomou como certo de repente não é mais garantido.

Marcelo Lins — Por que a Dinamarca e a Escandinávia em geral aparecem tão frequentemente nas listas dos países mais felizes do mundo? E por que quando as empresas escandinavas expandem para o exterior não conseguem replicar o que acontece com tanto sucesso na Escandinávia?
Peter Kronstrom —
Essa é uma pergunta muito complexa, mas muito boa. Muita gente me faz essa pergunta, e sempre digo que acho que tem a ver com o nosso passado, com a nossa história, com nossos ancestrais vikings, e principalmente com o clima. Por que o Instituto de Estudos Futuros surgiu na Dinamarca e não em outro lugar? A resposta curta é que nós enfrentamos muitos problemas. Era tão frio na Dinamarca...

Marcelo Lins — E também havia corrupção, não é?
Peter Kronstrom —
Sim, claro. Mas, basicamente, nós aprendemos a planejar com muita rapidez. Porque, naquela parte do mundo, quem não se planejasse para o longo inverno morreria no inverno. Era preciso ter uma casa aquecida, roupas, alimentos estocados. Acho que esse é um dos pilares. Depois, tivemos um desenvolvimento de sucesso que criou instituições que são muito fortes hoje. E como éramos uma sociedade pequena, todos se conheciam, e somos a mesma sociedade há milhares de anos. Então, se alguém roubasse uma bicicleta, a cidade inteira ficaria sabendo e a pessoa seria punida. Também é um formato bem diferente de sociedade. E, voltando aos vikings, quando eles iam explorar o mundo, na embarcação eles precisavam trabalhar juntos, precisavam confiar. Então nós acabamos criando sociedades nas quais as pessoas confiam muito umas nas outras. E um sentido de coletividade. Sim, onde é muito mal visto quem mente ou rouba, não só por estar prejudicando outra pessoa, mas por estar prejudicando toda a sociedade. Talvez essas sejam algumas das respostas.

Marcelo Lins — E quanto à dificuldade de levar esse modelo para fora?
Peter Kronstrom —
É muito difícil. Para lhe dar um exemplo, quando trouxemos o instituto para cá, a sede é em São Paulo, ficou muito claro para mim desde o início, que não poderíamos replicar tudo que fazemos na Dinamarca aqui no Brasil. Tínhamos de nos tropicalizar, porque nós estudamos as mesmas tendências no mundo todo, mas a diferença é como elas impactam os países. Então precisamos levar em conta o contexto. Acho que as empresas dinamarquesas e escandinavas que se internacionalizam precisam se adaptar ao novo ambiente, senão correm o risco de perder competitividade.

Marcelo Lins — Para terminar nossa conversa, há muitas previsões catastróficas para o futuro: vai faltar água, não haverá mais florestas, haverá guerras motivadas pela falta de água, por causa do clima, de combustíveis e outras coisas, os animais serão extintos e tal. Ao mesmo tempo, há visões mais otimistas. Pelo que li sobre você, pelo que o ouvi falar e agora na nossa conversa, o vejo como um cara mais otimista do que pessimista sobre o futuro. O que alimenta o seu otimismo, se é que você é otimista, em relação ao futuro?
Peter Kronstrom —
Pode me chamar de otimista em relação ao futuro, mas durante o meu trabalho como especialista em estudos futuros, não procuro saber se o futuro será bom ou ruim. Tento não julgar isso, porque um futuro bom para nós dois pode ser péssimo para uma pessoa chinesa. Um futuro ótimo para a humanidade pode ser péssimo para os animais ou para a natureza. Mas pessoalmente sou bem otimista em relação ao futuro, e isso graças às estatísticas. Se você tivesse nascido há 150 anos, teria dor de dente dos dois anos até o dia da sua morte, entre os 40 e 45 anos. Hoje, eu nunca tenho dor de dente. Ou, se tenho, vou ao dentista e ele a trata. E hoje eu tenho uma expectativa de vida de 75 ou 80 anos, talvez até mais. As crianças nascidas hoje viverão mais. Então as estatísticas mostram que os sinais são bons para o futuro se você gosta da vida, se quer viver e tal. Mas é claro que, quando analisamos o planeta todo, o quadro não é tão claro. Futuro bom para quem? Como você disse, temos o problema das mudanças climáticas e a possibilidade de algumas guerras, mas, de uma forma geral, eu sempre digo o seguinte: a probabilidade de qualquer pessoa nascida em 2019 ter uma vida ótima é muito maior do que a probabilidade de que quem nasceu há 100 anos tivesse uma vida boa.

Marcelo Lins — A felicidade deveria ser o nosso objetivo de vida?
Peter Kronstrom —
Deve ser um objetivo, mas não o significado. Por exemplo, você não será feliz se não tiver sido muito triste. Acho que ser feliz não é o objetivo da vida, o objetivo é estar em movimento, é tentar fazer as coisas de uma forma melhor que nos trará felicidade. Mas se não houver resistência, se não enfrentarmos problemas, acho que será muito difícil aprender alguma coisa. Precisamos aprender com os problemas para que sejamos felizes de vez em quando, mas acho que o objetivo... Eu seria muito infeliz se tivesse nascido feliz e sido feliz a vida toda. Seria uma vida louca, acho que eu enlouqueceria.

Revista Consultor Jurídico, 20 de junho de 2019, 17h27

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