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Ideias do Milênio

"Já vimos a promessa de solucionar a violência com bala, e não funciona"

Reprodução Twitter

Entrevista concedida pelo jornalista salvadorenho Óscar Martínez, autor de Los migrantes que no importan, ao jornalista Marcelo Lins para o Milênio — programa de entrevistas que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira, com reprises às terças (3h30 e 7h30), às sextas (12h30) e aos sábados (5h30).

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De todas as regiões do planeta, a América Latina é a mais violenta, e nela a América Central acumula ano após ano números dramáticos. Neste cenário tão duro, o pequeno El Salvador ganha um destaque do qual é impossível ter orgulho, por isso não deixa de ser surpreendente encontrar um jornalista salvadorenho que, por livre e espontânea vontade, escolheu cobrir todas as traduções da violência na região mais violenta do mundo. Aos 35 anos, Óscar Martínez é um especialista no assunto. Vencedor de prêmios importantes como o Maria Moors Cabot, da Universidade de Columbia, e o Prêmio Internacional à Liberdade de Imprensa, Martínez é um dos criadores da plataforma jornalística digital El Faro, onde coordena a editoria de reportagens investigativas “Sala Negra” e direciona seu farol e suas reportagens para temas tão delicados quanto o tráfico de drogas e de seres humanos, as gangues que disputam o controle territorial em São Salvador e os dramas que marcam o fluxo contínuo de imigrantes centro-americanos para os Estados Unidos. Em uma recente passagem por São Paulo, onde participou do Festival Piauí GloboNews de Jornalismo, Óscar Martínez conversou com o Milênio.

Marcelo Lins — Eu gostaria de começar esta conversa falando um pouco de centro e periferia. Muita gente acha que só é possível fazer jornalismo de impacto, jornalismo relevante, a partir de um grande centro. Os grandes veículos estão nos grandes centros de países do Ocidente, como os EUA e vários europeus, ou em grandes cidades. No Brasil, São Paulo e Rio. Se falamos de países mais ao norte, no México, a Cidade do México. Mas você é de El Salvador. Trabalha no El Faro, um veículo digital em El Salvador, e faz muito jornalismo de impacto. Fale sobre essa relação de trabalhar de um país em tese periférico, mas com temas de nosso tempo, que estão em todos os noticiários do mundo.
Óscar Martínez —
É complicado. Muitos colegas deixaram a região, porque em El Salvador é muito difícil. El Salvador é um país de 21.000 km². Ele cabe centenas de vezes no Brasil. Como somos países tão pequenos e esquecidos depois das guerras civis que terminaram nos anos 1990, é muito difícil que o mundo preste atenção em nós. Durante a guerra civil — e a guerra civil salvadorenha durou entre 1980 e 1992 —, todo mundo estava lá, os grandes veículos enviaram seus melhores correspondentes. A guerra na América Central interessava muito ao mundo e a paz interessava muito pouco. Ou ao menos o que chamamos de paz. Mas sempre houve uma série de tragédias, lamentavelmente, às quais o mundo não deu atenção. Os migrantes que, diariamente, aos milhares, abandonam a região. O triângulo norte da América Central, Guatemala, Honduras e El Salvador, tem sido, nos últimos dez anos, três dos países com mais homicídios do mundo. Só para você ter uma ideia, o México, com todos os motivos do mundo — o México dos cartéis, o México de El Chapo Guzmán —, tem uma taxa em torno de 18 homicídios por 100 mil habitantes desde 2015.

Marcelo Lins — O Brasil tem 21, 22, por aí.
Óscar Martínez — O Brasil tem 21, 22. E, segundo a ONU, se a taxa ultrapassa dez, é uma epidemia de homicídios. Em 2015, em El Salvador, a taxa foi de 103. Ou seja, são taxas praticamente impossíveis de sustentar para a vida da maioria das classes trabalhadoras. Então, sim, a América Central continua sendo muito ignorada, mas muitos colegas de fora também chegaram interessados em entender como é sobreviver em sociedades tão violentas.

Marcelo Lins — Falemos um pouco das heranças da Guerra Fria, da guerra civil de El Salvador, mas também do trabalho do jornalista. Nós, no Brasil, conhecemos as dificuldades de fazer jornalismo, por exemplo, nas favelas, porque o mesmo profissional que vai lá falar do tráfico, de crimes, voltará na semana seguinte para falar de vacinas, de campanhas de saúde e outras coisas, então o mesmo sujeito que é acusado de algo no outro dia pode se encontrar com o repórter. Como é possível trabalhar com temas tão complexos e violentos? Que segurança que vocês têm para trabalhar em El Salvador? Vem da imprensa, das autoridades ou é algo individual?
Óscar Martínez — Olha... Não vem das autoridades. Em muitos casos, as ameaças ao El Faro vêm das autoridades. A única vez que tivemos que tirar do país três repórteres foi porque achamos que policiais poderiam lhes fazer mal após a publicação de revelações de que o que a polícia dizia serem enfrentamentos eram na verdade execuções extrajudiciais de supostos membros de gangues. Agora, como fazemos? No El Faro... As gangues também nos ameaçaram em entrevistas coletivas. El Faro entendeu que para isso você precisa de tempo. Que essa falsa premissa de que o jornalismo na internet tem que ser como as pizzas, que se não ficam prontas em meia hora não valem a pena, não era real, que para entender certo fenômeno nós precisávamos ter outro tipo de análise e outro tipo de imersão. É impossível entender grupos como a Mara Salvatrucha ou os cartéis mexicanos se não investir numa análise exclusiva de certos repórteres que se infiltrem para entender seus códigos, sua linguagem, seu comportamento, suas normas internas e conseguir fontes. É muito complicado conseguir fontes internas desses grupos. Por exemplo, para cobrir migração, durante o projeto En el Camino, um grupo de repórteres, cineastas, fotógrafos e eu como jornalista passamos três anos imersos no fluxo migratório pelo México porque entendíamos que o crime organizado era parte do cenário. E, em El Salvador, no projeto de cobertura de violência, que criamos em janeiro de 2011 e durou oito anos, cerca de oito jornalistas trabalharam exclusivamente o tema da violência no triângulo norte da América Central.

Marcelo Lins — Então talvez o tempo seja a melhor forma de proteção, porque assim é possível criar alguns vínculos, o que os deixa mais protegidos para trabalhar, digamos assim.
Óscar Martínez —
Eu sempre disse dos colegas mexicanos que correm um risco terrível fazendo cobertura, sobretudo os que trabalham em regiões do interior do país, que muitos meios de comunicação não te empurram no vazio, mas te levam à beira do abismo. Pedem a muitos colegas jornalistas que cubram um jogo de futebol ou um show de Britney Spears uma noite na Cidade do México e no dia seguinte os enviam a um território do crime organizado no qual, se não entendem os códigos, vão parar na beira do abismo. Isso acontece com muita frequência. Sim, a realidade da América Latina é complexa. Jornalistas que se dediquem a certos temas precisam ter a possibilidade de ter muito mais tempo do que habitualmente dão a eles.

Marcelo Lins — Falemos um pouco sobre esse tema da violência, das gangues e das “maras”. Muita gente hoje em dia acha que a violência extrema que se vê em El Salvador é algo inerente à cultura local, mas aconteceu lá algo realmente factual, quando deportaram salvadorenhos que estavam nos Estados Unidos, que tinham ido com suas famílias viver nos EUA e lá tiveram contato com os criminosos. Como é essa história das gangues, das “maras”?
Óscar Martínez — Farei um resumo... bem simplificado, mas é possível ver alguns pontos centrais da história. A guerra de El Salvador começa em 1980 com governos militares repressivos.

Marcelo Lins — Em plena Guerra Fria, é uma guerra que tem a ver com isso.
Óscar Martínez —
O final da Guerra Fria acontece em países da América Central, com a ex-União Soviética e os EUA apoiando discretamente bandos, inclusive, sem admitir, enviando armas a certos bandos. E a ditadura militar em El Salvador era tão violenta que a guerra salvadorenha começou em 1980 com o assassinato do arcebispo Romero, que recentemente foi proclamado santo.

Marcelo Lins — Em uma praça. Foi assunto de um filme de Oliver Stone: Salvador, o martírio de um povo.
Óscar Martínez — A guerra em El Salvador... E esse assassinato foi cometido por militares. Isso está comprovado pela Comissão da Verdade da ONU. Os Estados Unidos financiam toda uma guerra que começou com o exército mostrando o que era capaz de fazer. Então os governos americanos que financiaram a guerra não podem dizer que não sabiam quem a financiava. Em 1981, em El Salvador, ocorre o maior massacre da era moderna da América Latina. Cerca de mil pessoas foram assassinadas por um batalhão de elite do exército treinado em parte na Escola das Américas, num lugar chamado El Mozote. Esse foi o primeiro ponto. Os EUA financiavam um exército que sabiam que era assassino. Muita gente nos anos 1980 fugia desse exército. A guerra civil foi muito violenta e o país é muito pequeno. Ele foi todo destruído. E essa gente fugia para os EUA porque já tinha algum familiar que tinha ido atrás dos dólares.

Marcelo Lins — De alguma perspectiva de trabalho.
Óscar Martínez — E se concentram principalmente no sul da Califórnia. E o sul da Califórnia era a capital das gangues. Havia 64 gangues distintas, cujos nomes não lembro.

Marcelo Lins — Os Crips...
Óscar Martínez —
Os Crips, os Bloods, a gangue de supremacistas brancos, Arian Brothers, a de Pacoima... Cada bairro tinha uma gangue. Quando os EUA descobrem que essa gangue exercia uma violência de uma forma particular, decidem deportar cerca de 4 mil membros, principalmente da Mara Salvatrucha e da Barrio 18, para três países: Guatemala, Honduras e El Salvador. Três países que não tinham instituições. Tinham acabado de assinar a paz. El Salvador estava criando a Polícia Nacional Civil e havia muitos órfãos. Esses 4 mil são hoje no meu país 64 mil. E nos EUA cerca de dez mil. O que quero dizer é que os EUA têm um papel direto na história da violência que sofremos na América Central. E é possível destacar momentos-chave da participação do governo americano.

Marcelo Lins — Muitos também esquecem o papel direto dos EUA nas ondas migratórias sucessivas da América Central para o norte, em busca de melhores condições de vida. E o mundo acompanha há alguns meses essa nova onda, que tem novas características midiáticas, que são as ondas das caravanas. Eu gostaria de saber de você, que mergulhou no tema, que esteve nos trens que levaram tantos migrantes nos últimos anos, o que há de diferente neste atual momento das migrações rumo aos EUA.
Óscar Martínez —
Acho que o das caravanas foi um ato de cansaço de muitos centro-americanos. Por que de cansaço? Cada vez mais, graças a Trump, um coiote, aquele que te leva, a quem chamam de traficante de pessoas, mas que em muitos povoados são pessoas queridas... Os coiotes aumentaram os preços. Aumentaram por causa da propaganda. A “coiotagem” é um negócio e, como todo negócio, se o contexto permite aumentar o preço, ele o faz. Então o preço hoje gira em torno de US$ 10 mil.

Marcelo Lins — Por pessoa?
Óscar Martínez — Por pessoa, para sair de um povoado de Honduras, Guatemala ou El Salvador e chegar a uma cidade como Houston ou Los Angeles. As famílias não têm esse dinheiro e cada vez mais aqueles que pagavam o traslado de um familiar, os migrantes que estão nos EUA, que pouparam algum dinheiro e que pagavam para trazer a esposa, o filho, o marido, têm cada vez mais dificuldade de disponibilizar esse dinheiro. Em 2º lugar, a situação da violência na América Central não muda drasticamente. E em 3º lugar, a situação de vulnerabilidade dos migrantes no México não muda. Eu cobri no México, por três anos, o cruzamento dos migrantes. Já cobri a violência na América Central e estive no Iraque em 2005 e nunca tinha visto uma barbárie como a que vi no México. Centenas de mulheres estupradas, centenas de mulheres sequestradas e colocadas em bordéis para serem violadas por gente que pagava a organizações criminosas como Los Zetas. Dezenas de homens assassinados em casas de sequestro. Os migrantes entenderam – e isso são as caravanas – que migrar em massa os protegia.

Marcelo Lins — Era mais seguro.
Óscar Martínez — Que migrar de uma forma natural é praticamente cruzar o inferno durante 5 mil quilômetros. Por isso fizeram o que fizeram com as caravanas, e funcionou de certa forma. As caravanas chegaram até Tijuana sem que violassem, sequestrassem e extorquissem seus integrantes. Com os policiais mexicanos abrindo caminho para elas, quando a polícia mexicana é um dos agentes do crime organizado no México. É difícil distinguir no México entre autoridades e criminosos.

Marcelo Lins — Você escreveu um livro que tem dois nomes. É quase como duas personalidades. Em castelhano, o título é Los Migrantes que No Importan e, em inglês, The Beast. Por que Los Migrantes que No Importan e por que The Beast? Qual é a diferença entre os dois?
Óscar Martínez — A verdade é que a decisão de The Beast foi da editora dos EUA, com um argumento. Escolhi o título Los Migrantes que No Importan porque foi o que presenciei. São vítimas perfeitas para serem violentadas. Não votam, não são um ativo político. Não denunciam, porque veem as autoridades como inimigas. Não param, estão em movimento. Não querem parar, querem seguir. E viajam de uma forma anônima, fugaz e discreta porque não querem ser detectados. São as vítimas perfeitas. E The Beast foi porque o editor achou que seria boa ideia destacar um ícone tão importante como o trem que os migrantes chamam La Bestia, no qual viajam clandestinamente durante milhares de quilômetros. Pareceu que era uma forma de atrair o leitor americano utilizando o título de um dos capítulos. E os demais livros foram a sucessão disso. Depois de The Beast publiquei Una Historia de Violencia, explicando do que fogem. Primeiro expliquei como fugiam. Depois, do que fogem. Agora, acabei de lançar El Niño de Hollywood, que é a história de um matador da Mara Salvatrucha. Não de como ele mata, porque isso é aborrecido. Matar é um ato repetitivo de apertar um gatilho contra uma cabeça. É a história de como criamos esse tipo. Há capítulos que começam na Califórnia, ou nos anos 1980 em El Salvador, ou com as políticas agrícolas do início dos anos 1930. Tento explicar esse monstro. Mas como disse Leila Guerriero, grande repórter argentina, um monstro humano. É possível entendê-lo. Não é uma fera extraterrestre. É possível entender como produzimos esse monstro.

Marcelo Lins — Quando alguém do Brasil olha a América Central muitas vezes vê algo quase uniforme. Sabemos que não é, que há diferenças entre os países. Quando vocês olham o Brasil da América Central, o que veem?
Óscar Martínez —
Devo ser sincero. O Brasil não é um país ao qual, da América Central, damos muita atenção. Mas ultimamente temos tido que fazer isso, por dois motivos principais. Um ex-presidente, Mauricio Funes, o 1º presidente de esquerda de El Salvador, da ex-guerrilha, que ganhou em 2009... Ele era casado com Vanda Pignato, brasileira. E ela tinha muita relação com Lula e o Partido dos Trabalhadores. Houve muita influência em El Salvador, sobretudo de João Santana, que fez todas as campanhas através de uma empresa de marketing político que criaram em El Salvador. E, particularmente, para tratar de todos os assuntos de campanha. Mauricio Funes está agora exilado na Nicarágua, acusado de enriquecimento ilícito.

Marcelo Lins — Na Nicarágua da Daniel Ortega.
Óscar Martínez —
Isso. Foi acusado de enriquecimento ilícito. Então todas as complicações da corrupção que existiu no Brasil e que está provada repercutiram muito lá. E também repercutiu muito o novo presidente eleito. Porque nós tivemos muitos políticos que são um decalque dele, mas do outro extremo. Aquele que promete solucionar a violência à bala. Isso é comum na América Central. Já tivemos muitos, e há muita gente que recorda o tempo dos militares como uma época boa. Não me pergunte por quê, mas acontece. Temos acompanhado, pelo menos os meios de comunicação, muito de perto a eleição de um personagem com essas características. Porque El Salvador é um país cheio desses messias que prometem linha dura, que prometem mão de ferro para acabar com a violência. E vou dar um exemplo do que aconteceu lá. Em El Salvador, nosso índice de homicídios era de 36,2, o mais baixo do século, por 100 mil habitantes. É isso que nós chamamos de paz. Isso em 2002. Em 2003, um presidente resolveu lançar um plano chamado “Mano Dura”. E com esse plano, que foi lançado numa espécie de favela das gangues, ele prometia acabar com a violência. Depois do plano “Mano Dura”, o presidente seguinte, que agora está preso, também da direita, prometeu fazer o plano “Super Mano Dura”, num arroubo de criatividade. Quando esses dois presidentes concluíram seus planos, em 2009, El Salvador tinha 71 homicídios por 100 mil habitantes. Tínhamos quase triplicado a taxa de homicídio. Nós já vimos a promessa de solucionar a violência com bala, e posso garantir que não funciona.

Revista Consultor Jurídico, 21 de janeiro de 2019, 11h12

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